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Coluna

Um PM me ameaçou de morte porque eu pedi licença

    Enfim, coisa comum neste nosso país. Por quê?

    Foi na sexta passada.

    Fim de tarde, eu vinha descendo de bicicleta pela ladeira curva e rápida que margeia o Estádio do Pacaembu, em uma das regiões mais nobres de São Paulo. Tem uma ciclovia lá, o chão vermelho separado da pista dos carros pelos olhos de gato, a sensação boa de segurança. Aí avistei à minha frente uma batida policial. Os PMs haviam estacionado as viaturas com as rodas de trás sobre a calçada e as da frente atravessadas na ciclovia, deixando só um espacinho estreito de uns 30 centímetros à frente do para-choque dianteiro.

    Justamente nesse espaço, havia um policial de pé, fechando com seu corpo qualquer brecha que um ciclista pudesse aproveitar sem ter que sair da ciclovia.

    Reduzi a velocidade para não parecer que estivesse provocando alguém. Num gesto instintivo, baixei o olhar, submisso. Quando passei pelo PM, cumprimentei-o e sugeri, respeitosamente:

    — Vocês podem por favor deixar só um espacinho para dar para passar sem sair da faixa?

    A reação do policial que estava de pé sobre a ciclovia foi abrupta, como se ele tivesse detectado uma séria ameaça à ordem pública. Outros dois PMs vieram se juntar a ele, com passos largos. Em sincronia, os três abriram o peito e puseram a mão direita sobre o coldre, tocando as empunhaduras de seus revólveres. Começaram então a gritar, todos ao mesmo tempo, em pose de matilha, dificultando a compreensão exata do que cada um dizia.

    — ...isso aqui não é faixa seu…

    — ...viatura pode…

    — ...depois vira sardinha e não sabe por…

    Não conhecia a expressão “virar sardinha”, mas suponho que seja referência ao hábito do referido peixe de estender-se frio numa caixa escura. Enfim, se entendi certo o que aconteceu (e não fiquei por lá para tirar a dúvida), um policial militar da minha cidade me ameaçou de morte porque eu pedi licença.

    Não é a primeira vez que vejo PMs se comportarem com agressividade excessiva neste nosso país cordial. Sou ciclista, corintiano e jornalista, entre outros hábitos que significam que, de tempos em tempos, as circunstâncias me fazem esbarrar na falta de delicadeza policial. Então não vou dizer que o que aconteceu foi inédito ou terrivelmente surpreendente. Na real, o tratamento que recebi foi bem cortês se comparado com a forma como pessoas com a pele mais escura que a minha ou que circulam por bairros menos sofisticados do que o Pacaembu são abordadas por policiais cotidianamente.

    Este é um país onde a polícia invade casa de cidadão, joga bomba de gás dentro de bar lotado, prende inocente sem razão nenhuma.

    Ainda assim, a cena foi meio chocante, de tão banal. Segui pedalando, mil vezes mais alerta, depois de me lembrar subitamente do quanto é fina a película que separa minha vida tranquila em São Paulo de uma violência inominável.

    A PM precisa acabar, mas não porque eu odeie os policiais

    Tenho notado ultimamente que os policiais que vejo pela rua estão mesmo tensos – à beira de uma explosão de raiva. Não faltam razões para eles estarem irritados, é claro. Nesta nossa sociedade, policiais militares são subcidadãos, a quem são negados alguns direitos básicos que o resto de nós dá de barato. Suas condições de trabalho são terríveis e eles são praticamente proibidos de reclamar. PMs não podem se expressar – as regras da corporação exigem lealdade a qualquer custo e punem severamente qualquer opinião diferente da do comandante ou dos governantes, como a Human Rights Watch demonstrou num relatório este mês.

    Por outro lado – meio que para compensar –, eles têm alguns privilégios, dos grandes. Um deles é que são dispensados de seguir a lei (o que é irônico, em se tratando de agentes da lei). PMs quase nunca são sequer julgados quando cometem crimes, mesmo que a vítima seja uma criança sem qualquer envolvimento com o crime.

    Não por acaso, a PM brasileira é uma das polícias que mais mata no mundo – culpados e inocentes. Nada mais natural: qualquer estudioso de comportamento sabe que primatas superiores, quando abusados, têm uma tendência de abusar de quem for mais fraco do que ele, num comportamento que os cientistas chamam de “deslocamento de agressão”. Junte esse fato científico básico com a garantia de impunidade que se vê com agentes do Estado brasileiro e está dada a receita do genocídio.

    Aí vem a crise econômica e o aprofundamento da polarização e do ressentimento na sociedade brasileira, e vamos percebendo que nada é tão ruim que não possa ficar pior. A tensão entre o Brasil e sua polícia, que fervia em fogo baixo há décadas, subitamente está parecendo à beira da explosão. No país todo, multidões marcham pedindo o fim da PM, sob o olhar furioso de PMs. No Espírito Santo, sindicalistas policiais alinhados com Jair Bolsonaro apavoraram a população com uma greve mórbida, como que ameaçando com sangue caso não houvesse aumento. Natural que policiais que são dispensados de cumprir a lei cotidianamente acabem se sentindo no direito de sequestrar a sociedade quando é do interesse deles.

    Claro que o PM não ameaçou me transformar em sardinha só porque eu pedi licença para ele. Ameaçou porque está com raiva e porque sabe que tem carta branca para abusar. Também porque identificou em mim um suposto inimigo da polícia, talvez pela bicicleta entre minhas pernas, veículo incentivado em qualquer cidade decente do mundo, mas que aqui, em meio à polarização política, ficou associado a um determinado grupo político. Aliás, por falar em política, é bom que se diga que o colapso da polícia no país não é culpa de um partido só: a precarização da PM e a complacência com bandidos de farda são constantes no país, nos governos de todas as siglas.

    Não sou inimigo da polícia. Na verdade, não acho que sociedade alguma possa existir em paz sem que haja algumas pessoas com a atribuição de coibir abusos e com autorização para, se necessário, usar uma quantidade adequada de força. O que não dá é para aceitar que os abusadores sejam aqueles cuja função é nos proteger de abuso. Já conheci, nesta minha vida de ciclista, corintiano e jornalista, um número enorme de policiais inteligentes, atenciosos, servidores e cidadãos. Essas pessoas é que deveriam chefiar a polícia, não os políticos que tratam a PM como um bando de capangas.

    A PM precisa acabar, mas não porque eu odeie os policiais. Ela precisa acabar para dar lugar a uma nova polícia, que respeite a sociedade e trate direito os seus servidores – até para não dar-lhes razão para eles deslocarem a agressão na direção de algum cidadão que está só passando.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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