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Coluna

Tragédia e triunfo: sobre o discurso de Trump

    (ou notas acerca do Museum of African American History & Culture)

    Washington vem roubando o noticiário dessas últimas semanas. Se ninguém duvidava do calibre do discurso de posse de Trump, é forçoso reconhecer que o presidente fez a proeza de se superar. Com frases curtas, ele inaugurou sua gestão com mensagem e estilo que lembram, de perto, as retóricas fascista e nazista: prometeu  a “terra da promissão” para quem nela nasceu. No palanque, o presidente eleito falou como candidato. Afinal, o paraíso ficava reservado (apenas e tão somente) aos “naturais” daquele país. 

    É no mínimo estranho imaginar  - observando a imagem altiva do líder republicano -, que ele se veja e entenda como “nativo” daquele país.  Com sua figura e estereótipos caucasianos, dos cabelos até a ponta dos pés, o novo presidente americano vacinou uma certa imigração, e excomungou outra, determinando quem é estrangeiro no país (e quem não). “- Se tiver um emprego a oferecer”, dizia o republicano em brado forte, “melhor dá-lo a um norte-americano”.

    Mas todo lado tem mais outro. No dia seguinte, nova manifestação invadiu as ruas da capital dos EUA. Estou me referindo à bela “marcha das mulheres contra Trump”; ato cívico que reuniu ativistas, celebridades, famílias, personagens anônimos, cidadãos indignados e mostrou, na base da democracia, o que significa governar com 52% de rejeição. Já Trump e seus gestores revelaram não se comover com esse tipo de demonstração. Ao contrário, coerente com a retórica bélica anunciada, declararam guerra à classe dos artistas e passaram a autorizar uma ofensiva a refugiados e imigrantes, cujos rasgos ao pacto liberal são evidentes.

    Pelo menos um detalhe passou despercebido dentre as diferentes demonstrações que vêm sacudindo a principal avenida de Washington DC: um edifício que mais se parece com um navio assombrado, feito de metal cor de cobre e com formas que lembram ângulos retos e pontiagudos. Lá estava ele, imponente, bem na lateral da longa via que cruza a cidade perpendicularmente. Sua arquitetura evoca a memória de um navio negreiro, desses utilizados na época do tráfico escravocrata que tomou força em inícios do século 16. Sua fachada, quando observada de perto, evoca ainda outros significados: destaca-se a partir de pequenos detalhes uma delicada estilização, no formato de miçangas. Esses objetos eram utilizadas como moedas de troca, mas também simbolizam a hospitalidade dentre as nações africanas que foram levadas, de maneira forçada, para os EUA.

    Estou me referindo ao imponente Museum of African American History & Culture, inaugurado em setembro de 2016, talvez como um dos últimos legados da gestão de Barack Obama, cujos traços, o novo governo tem feito questão de apagar.

    Museum of African American History & Culture, de 2016, um dos últimos legados da gestão de Barack Obama

    A dubiedade da mensagem nada tem de acidental. A concepção que parece presidir a nova instituição, não descura da memória e do sofrimento legados pela escravidão. A contrapõe, porém, (com a mesma força e intenção) à luta pela liberdade, que faz parte, também integral, da história desses povos. A ênfase é em exclusão, sim, mas também em inclusão; na agência e na capacidade que todos temos de agir e exercer o poder mesmo em situações desiguais, em termos de hierarquia social. “Uma tragédia e um triunfo” diz a frase de abertura. Há igualmente “sofrimento e compaixão”, “tristeza e alegria”.

    É certo que a perspectiva do museu é um tanto evolutiva – começando com o registro da primeira entrada de africanos aos EUA, passando pelo tráfico, detendo-se nos castigos e nas várias lutas emancipacionistas, até chegar nos líderes afro-americanos de sucesso; expressos pela própria família do ex- presidente ou pela apresentadora Oprah Winfrey.

    O modelo também pode ser considerado um pouco norte-americano (demais), uma vez que o museu abre raros espaços para outras histórias paralelas. A de povos afrodescendentes que organizaram rebeliões ainda mais elaboradas, e cujos exemplos circularam pelo Atlântico negro virando alento; como o levante de escravizados que ocorreu no Haiti entre 1791-1804, ou a sublevação dos Malês que estourou em Salvador em 1835. Longe disso, no museu recém inaugurado, tudo gira em torno do mesmo pião, controlado por uma história cuja gestão e destino só podem anunciar uma mesma origem e prever a formação de apenas uma nacionalidade. Essa se encerra na concepção estática de uma nação de norte-americanos.

    E mais. A forma de apresentação guarda, de certa maneira, a linguagem espetaculosa que fez da Disney World um “estilo de vida” norte-americano. Ou seja, tudo é feito e apresentado com grandes doses de teatralidade. As imagens poucas vezes trazem legendas (com datas, locais, acervos ou referência a artistas), o que faz com que a saga dos EUA vire uma sina tão universal quanto exemplar. Única, nesse sentido. É evidente, portanto, o grau de propaganda e de auto-elogio contidos nesse tipo de iniciativa, que não deixa de ser oficial.

    Esses reparos não chegam, entretanto, a depor contra a beleza e o arrojo da empreitada que visa devolver (finalmente) ao povo afro-americano, em forma de exposição, sua história e seu orgulho. Por isso, lá estão cenas de sevícia, mas junto com muitos atos individuais e coletivos de revolta; a segregação ao lado dos atos de enfrentamento. Por exemplo, nos anos 1960, invadir lanchonetes, cuja norma era dada não só pelo milk shake de chocolate ou pelos bancos de vinil colorido, mas também pela régua rígida de cor branca, converteu-se em ação revolucionária. A atitude visava confrontar a invisibilidade da divisão racial, ou a visibilidade do apartheid e das políticas de segregação mantidas em vários Estados do Sul do país. Aqui o gesto vira, portanto, história!

     

    Numa estante muito bem montada podem ser apreciados objetos de cultura material que nada têm de ingênuos. Eles devolvem estereótipos racistas construídos no tempo largo. Bonecas negras ao lado das (estimadas) brancas, saleiros e pimenteiros com rostos africanos, sabonetes cujos rótulos apresentam o desenho de uma escravizada ajoelhada (mas que prometem a brancura depois de utilizados), palhaços com traços exagerados e lábios grossos.

     

    Lá estão, igualmente, imagens chocantes de linchamentos (covardes) promovidos pela Ku-klux-klan – com todos os seus aparatos e indumentárias –, bem ladeados por ações dos Panteras Negras e de manifestantes que ousaram desafiar a associação entre branquitude e manutenção da ordem.

     

    São simplesmente comoventes os andares superiores do museu, organizados por uma lógica distinta daquela da cronologia que orienta as demais seções históricas. Neles, é possível apreciar pequenas histórias por vezes apagadas pela pátina do cotidiano, feitas de grandes resiliências e resistências. A chapeleira afrodescendente que achava que toda mulher negra só estaria bem-vestida se surgisse em público portando esse tipo de adereço. O fotógrafo que se dedicou a clicar modelos afro e lhes devolveu as imagens que queriam ostentar, e não aquelas adaptadas a ateliês de profissionais brancos. As gravadoras que se concentraram no rock feito por negros. A afro-americana que desenhou luvas com cores especiais para suas clientes igualmente especiais. A professora liberta que ensinava apenas a seus “irmãos de cor”.

     

    Essas são políticas de orgulho, que não se limitam à vitimização, mas se dedicam a exaltar valores, culturas e  formas de inserção dessas populações que formataram os EUA e são parte integrante daquela nacionalidade. Na dança, na música, na moda, na indústria, no teatro, nos esportes, nas ciências, na filosofia ... aí estão exemplos de pequenas e grandes formas de driblar o sistema e por vezes até dele se valer.

    Nesse museu, no entanto, nada parece ter um lado só. Há toda uma seção dedicada às novas formas de escravidão, expressas no número de encarceramentos de afro-americanos. Não há como esquecer do caso “Angola”. Se africanos provenientes dessas nações foram escravizados desde o século 16, e transportados para Estados como Virgínia e Mississipi, por vias perversas o nome do país acabou sendo, também, o nome de uma prisão localizada no Sul dos EUA. Criada em 1901, ela se situa numa antiga propriedade de algodão e até os idos de 1930 acomodava seus apenados em antigas senzalas. Essa é a Louisiana State Penitentiary onde mais de 6.000 pessoas estão encarceradas. Se Angola representa um exemplo agudo de como o passado continua a atuar no presente, a agência dos prisioneiros narra uma história bastante diferente. Essa que chegou a ser considerada uma das penitenciárias mais violentas dos EUA, hoje conta com um jornal, uma estação de rádio e uma rede de televisão; todos equipamentos tocados pelos próprios presos.

    Enfim, é possível acompanhar, e por vários ângulos, a filosofia que orienta a instituição. Não se trata de apenas relembrar uma história feito de sofrimentos herdados dos tempos do sistema escravocrata; melhor mostrar, também, como não se “espera eternamente por outro tempo e pessoas”. Aliás, esses foram os termos utilizados por Obama em seu discurso na abertura da instituição. Escravidão e liberdade conformam, pois, um par relacional, e não há como definir um, sem evocar o outro .

    Mas o que impressiona, pra valer, é ver as filas que o museu recebe todos os dias, sendo 85% do público composto por afro-americanos. São famílias inteiras que visitam o museu. Juntas e pacientemente, elas seguem de andar em andar, de legenda em legenda. O programa é de dia inteiro, com direito a almoço temático. De toda forma, faz parte do ritual interagir com uma história que conversa com seu público, com qualquer público.

    Nessa mesma direção, e para não ficarmos apenas nos exemplos externos, vale à pena lembrar da iniciativa do Museu Afro Brasil, o qual, aberto em São Paulo desde o ano de 2004, é fruto da iniciativa pioneira do artista, escultor, museólogo, colecionador e curador Emanoel Araújo. Durante um bom tempo, Emanoel fez  carreira solo nessa narrativa composta por tantos esquecimentos, ou que só concedia às populações afrodescendentes o local da vitimização. O museu trata de arte e vida para quem, aliás, nunca as perdeu.

    Interessante pensar, ainda, nas muitas repercussões diante de uma iniciativa carioca (por enquanto engavetada): a construção de um novo museu dedicado à história da escravidão. Houve quem negasse a importância; houve quem dissesse que era melhor esquecer desse passado. Historiadora que sou, penso que esquecer nunca é boa opção. É sempre melhor lembrar. Lembrar que nossas histórias são plurais, ambivalentes; sinônimos de mistura com muita separação.

    Mas gostaria de voltar ao início desta coluna. Bem que Trump poderia ter desacelerado um pouco a sua marcha, e notar um panorama muito mais rico do que aquele que ele dizia representar, ou em nome de quem prometia governar. Afinal, quem é essa “população destituída” que o presidente afirma representar?  Quem seriam esses “seus” americanos? Quem comporia esse “nós”, e quem seriam esses imensos “outros”? Basta olhar um pouco para os lados, e perceber como são muitas as histórias com as quais o presidente precisa lidar.

    Museus são instituições criadas a partir de uma concepção de arte e de representação ainda hoje muito impactadas pelas lógicas do imperialismo ocidental, que elegeu políticas de ver e de não ver. Por isso mesmo, em vez de convidar, muitas vezes acabam por afastar aqueles que não se sentem identificados.

    Saí do National Museum of African American History & Culture com uma frase ecoando na minha cabeça. Ela fazia parte de um diálogo privado, travado entre um neto com sua avó. Lá vai o que escutei:

    “-  Vovó, essa foto é igualzinha àquela que vovô me mostrava, e que ficava lá na sua sala de jantar?

    - Isso meu neto. Esse é Martin Luther King, personagem que já morreu, como seu avô, mas que você não pode esquecer. Ele existiu e ainda existe dentro de você.”

    PS: Agradeço a Lúcia Stumpf e Maurício Acuña que estiveram comigo no museu, e presenciaram essa forma cívica de lutar por direitos e de sentir orgulho diante das tantas histórias e dos muitos passados que acompanham as narrativas que constituem uma nação. Qualquer nação.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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