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Coluna

Todos querem ser Gisele Bündchen

    A modelo pediu veto à redução de florestas brasileiras e foi atendida pelo presidente. Mas Michel Temer segue apostando em um modelo falido de desenvolvimento e prejudicando nossa imagem internacional

    O cidadão comum gostaria de ser Gisele Bündchen, pelo menos por um dia. A modelo enviou uma mensagem no Twitter ao presidente Michel Temer e ele respondeu afirmativamente ao seu pedido – de vetar a redução de parques nacionais. Mas, alguns dias depois, ele desdenhou a top model e afagou o setor ruralista do país. Isso ocorreu após Temer escutar pessoalmente na Noruega, maior doador do Fundo Amazônia, que o financiamento contra o desmatamento seria cortado em função do desempenho desastroso do país neste ano.

    O governo impopular de Temer conseguiu duas proezas: aprofundar um modelo de desenvolvimento extrativista (e falido) e prejudicar a imagem do Brasil no plano internacional.

    Se há áreas em que Temer dá marcha a ré em alta velocidade, recuando do já desastroso governo de Dilma Rousseff, elas são a ambiental e a indígena. No final de 2016, o governo enviou uma medida provisória ao Congresso para legalizar a posse de terras invadidas até 2011, enquanto a legislação vigente estipulava 2004, mediante pagamento inferior ao preço de mercado. Um agrado aos novos grileiros. O presidente também remeteu ao Congresso um projeto de lei que suprimiria 300 mil hectares da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará. Depois vetou a proposta do Congresso Nacional – que dobrou para 600 mil hectares o recorte da floresta –, modificou-a e agora enviará outro projeto de lei que desprotege "apenas" 349 mil hectares. Por fim, o presidente mostrou que está, mais um vez, do lado dos ruralistas e não daqueles que têm direitos originários segundo nossa Constituição Federal ao paralisar diversos processos de demarcação de terras indígenas. Em vez de minimizar os conflitos já existentes, parece que tal medida irá aquecê-los.

    Não suponho que seja simples equilibrar o progresso econômico com a preservação dos ativos ambientais e culturais da Amazônia, respeitando a biodiversidade e valorizando os modos de vida tradicionais. Mas os diversos exemplos desastrosos testados durante a ditadura militar nos apontam caminhos do que está redondamente errado. O que vejo agora é que o modelo de desenvolvimento que Temer propõe para a região é claramente extrativista e desatualizado; beneficia poucos às custas de muitos, com recursos de todos.

    Em um artigo acadêmico, mostro como o desenvolvimento da região oeste da Amazônia deu-se basicamente por exploração de recursos naturais, sem se reinvestir os ganhos desse extrativismo em capital humano.  Usando o trajeto dos telégrafos instalados pela comitiva capitaneada pelo Marechal Rondon como variável instrumental da BR-364, que liga Cuiabá a Porto Velho, medi os efeitos da rodovia em indicadores de desenvolvimento econômico.

    Enquanto capital humano não explica a geração de riqueza naquela região, o desmatamento explica quase que totalmente, pois é a primeira etapa para a extração de madeira e, posteriormente, a introdução da pecuária e do plantio de soja. Neste mesmo estudo, observo também que as terras indígenas são, na média, 25% mais eficazes em conservar a floresta do que áreas de proteção ambiental e de uso sustentável. Outros estudos mostram que os efeitos das atividades extrativas na economia são positivos no curto prazo, mas não são sustentados no longo prazo. O desenvolvimento de capital humano, bem como a qualidade das instituições locais, seriam justificativas bastante plausíveis para elucidar tal fenômeno.

    Os resultados que obtive contam um pouco da história de um pedaço da Amazônia bem como expõem o maior desafio da região como um todo. A aparente estratégia de desenvolvimento – se há alguma – gera riqueza econômica às custas de consequências profundamente deletérias para o homem da Amazônia e também para os demais brasileiros, pois contribuem negativamente para o desenvolvimento de longo prazo e, de quebra, para as mudanças climáticas. Esse ganho econômico poderia ser maior se educação e sustentabilidade fossem prioridades? Se funcionasse bem tal modelo de desenvolvimento, as populações que vivem na região já não teriam um padrão de vida melhor?

    A segunda proeza de Temer, dragado pela crise doméstica, foi se afogar em mares internacionais. Enquanto o mundo sempre está de olho na Amazônia, com seu gigantismo de biodiversidade e quilômetros quadrados, o arcaísmo da política governamental passou a ser notado por todo canto.

    O caso mais simbólico ocorreu na Noruega, o maior doador do Brasil em ações contra o desmatamento. Entre 2009 e 2016, o país escandinavo já contribuiu com doações para o Fundo Amazônia no valor de R$ 2,8 bilhões. Este ano, Temer foi até Oslo para escutar, ao vivo, que em 2017, pela primeira vez desde que o fundo foi criado, o montante doado ao Brasil será reduzido em R$ 200 milhões. O motivo é simples: desde o governo Dilma, o país vem apostando em alianças pró-desmatamento. Em 2016, por exemplo, a taxa oficial de perda de florestas aumentou 58% em relação ao ano anterior. Mesmo assim, Temer insiste em reduzir a proteção ambiental de áreas públicas.

    Do ponto de vista diplomático, o casamento do governo com grupos reacionários entre os ruralistas fragiliza um importante e histórico discurso do Itamaraty: a sustentabilidade. O Brasil que tem a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado e a Mata Atlântica, que também sediou as maiores conferências globais sobre o meio ambiente, como a Eco-1992 e Rio+20 em 2012, mostra para o mundo que é possível regredir.

    O desprezo em relação à nossa riqueza ambiental mostra que o governo está disposto a ignorar o resto do mundo, assim como o presidente populista norte-americano Donald Trump, nas matérias de maior relevo para nosso futuro. Desmatar as florestas contribui diretamente para o aquecimento global, em um momento em que a emissão global de gases de efeito estufa quebra recorde atrás de recorde. Não podemos querer voltar a ser o país campeão do desmatamento e, tampouco, acreditar que “só Deus” garanta a conservação da Amazônia, como sugeriu o ministro do Meio Ambiente.

    Portanto, o proprietário da conta @MichelTemer no Twitter está errando duplamente: no desenvolvimento e na diplomacia. Pior: serão as gerações do seu filho, Michelzinho, e dos seus netos que pagarão a conta desses erros do pai e avô.

    Eu não sou a Gisele Bündchen, mas espero que este texto chegue à mesa do presidente. Eu tenho convicção de que o Brasil pode ser mais criativo na forma de enxergar o desenvolvimento, de forma mais ampla, e fazer diferença na área da sustentabilidade, cultivando seu papel de referência global no assunto. 

    Eu não sou a Gisele Bündchen, mas para responder este texto, @MichelTemer, basta enviar para @hlaudares. Maitei.

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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