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Coluna

Todo o potencial do mundo

    No meio dessa crise horrível, é bom não se esquecer que este país possui uma riqueza quase infinita: crianças

    Semana retrasada, quando entreguei meu último texto desta coluna para o editor, pedi desculpas pelo tom sombrio e prometi algo mais solar para hoje. Ou então que refizéssemos a foto aí em cima, sem o sorriso, para ficar mais condizente com o tom de velório dos artigos, quinzena após quinzena. Uma passada rápida de olhos pelos títulos dos últimos que publiquei aqui dão pista do meu estado de espírito recente: “O fim do Brasil”, “República Agrotóxica do Brasil”, “E aí? Tudo tranquilo?” (adianto que a resposta é “não”). Ando meio apocalíptico: colapso ambiental, falência do sistema político, fim da legitimidade, corrupção endêmica, tomada do poder pelos picaretas que se apelidaram ruralistas... Não dá assim, poxa, o povo que lê a coluna quer se divertir um pouquinho também.

    A verdade é que não anda muito fácil encontrar razões para ficar otimista neste desmilinguido Brasil, mas eu tinha uma promessa a cumprir e a santa providência colocou no meu caminho o fim do inverno e um feriado prolongado na praia para me animar. Três dias sob o sol morno, sem pensar nas sacolas de Geddel, nos crimes de Joesley ou nas amizades de Gilmar, com minha atenção toda absorvida pela deliciosa e impossível tarefa de cuidar de crianças pequenas.

    É meio incrível passar umas horas olhando crianças brincarem – elas aprendem coisas novas a cada segundo. Vi por exemplo meu bebê de um ano ganhar subitamente o superpoder da linguagem, bem na minha frente. É tipo uma mágica, só que não: algo que não existia de repente surge, abrindo infinitas possibilidades. Por enquanto seu vocabulário se resume a “mamá”, “papá” e uma imitação que julguei bastante convincente de um leão feroz, mas sei que nessa base ele pode construir, se quiser, uma enciclopédia, uma obra poética, linhas de código de programação ou até uma carreira política, vai saber. Não há limite.

    Crianças podem aprender tudo. Ao contrário de nós, com nossas cabeças duras, quase sempre incapazes de mudar um hábito, de aprender uma habilidade, de trocar uma opinião, suas mentes são poderosas máquinas de se adaptar a qualquer coisa — aprender qualquer coisa, criar qualquer coisa, tornar-se qualquer coisa. A prodigiosa plasticidade cerebral de uma criança, desvendada nas últimas décadas pela neurociência, significa que elas carregam em si todo o potencial do mundo.

    Na volta para casa, minha mais velha, de quatro anos, fez um desenho com o dedo na poeira da porta do carro imundo. Achei bonito, perguntei onde ela tinha aprendido. Ela disse que não aprendeu: sempre soube, desde bebê. Crianças têm essa capacidade de transformar o mundo — mudar para sempre o significado daquilo que sempre foi. Criar mundos novos, reais no mínimo detalhe, ainda que inventados.

    Passado o feriado, de volta à rotina, o Brasil segue tão desmilinguido quanto antes, óbvio. Enquanto aqui em casa esvaziamos as malas cheias de roupa suja, fico sabendo que as malas de dinheiro de Geddel podem ser consideradas o sétimo maior assalto da história do mundo. Estamos a um ano de uma eleição geral absolutamente imprevisível, disputada por partidos desmoralizados e decidida por eleitores furiosos; 95% dos brasileiros estão convencidos de que o país está indo pelo caminho errado e, ainda assim, o sistema político passa a sensação de que nenhum outro caminho é possível. A esta altura, visões distópicas do futuro vão ficando cada dia mais realistas: tipo o país mergulhar numa ditadura fundamentalista irracional sustentada por milícias fascistas que queimam arte. Ops, desculpa aí, editor, não era bem isso que eu tinha prometido.

    O cenário é sem dúvida desanimador, mas me dou conta de que ingênuo é não ser otimista — é não ter esperança. Por mais que os fracassos repetidos pareçam prova da impossibilidade de sucesso, o potencial deste país é inegável — para começar, se expressa no fato de que, a cada 20 segundos, uma criança nasce no Brasil, carregando em si todo o potencial do mundo. É simples a equação: basta desenvolver esse potencial, hoje quase sempre abandonado à própria sorte, e garantir que este país continue existindo até que ele se expresse. E aí essas crianças podem ser qualquer coisa — e portanto o Brasil pode ser qualquer coisa.

    Se ao menos os recursos fossem dedicados a esse projeto, em vez de ficarem ensacados em malas empilhadas em esconderijos de bandidos...

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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