Coluna

Ser ou não ser; estátua ou monumento

    A disputa pela história, dos confederados nos Estados Unidos aos bandeirantes paulistas

    Causou verdadeira comoção a disputa que ocorreu em torno de uma estátua do general Robert E. Lee (1807-1870), localizada em Charlottesville, uma pacata cidade de 45 mil habitantes na Virgínia, nos Estados Unidos

    Há quem ache que tudo isso não passa de uma imensa ingenuidade ou prova maior de que os norte-americanos não têm mais o que fazer. Gostaria de lembrar, porém, que existe uma grande diferença entre uma “mera estátua” e um “digno monumento”. Ou melhor, talvez a diferença não seja “real”, no sentido de que uma obra seria maior, mais bem feita, ou mais digna do que outra. Na verdade, nesses quesitos “racionais” e “práticos” elas se igualam.

    Estou aqui abusando das aspas por conta da dificuldade da explicação; talvez a causa da diferença entre esses dois termos esteja, exclusivamente, no uso que se faz da memória coletiva e no significado simbólico que atribuímos aos objetos, e não tanto à materialidade neles inscrita.

    Mas vamos por partes (e com aspas). Uma “estátua” não passa de um objeto de arte que adorna uma praça, faz parte da paisagem, está sempre naquele mesmo local, e que, por isso mesmo, não nos comove ou rouba a atenção. Já um “monumento” é em tudo o contrário; trata-se de uma obra que mexe com nossos sentimentos, chega sempre cheia de histórias e nela embutimos uma série de significados.

    É possível traçar um paralelo importante com outros dois termos. É o antropólogo norte-americano Marshall Sahlins quem explica a diferença existente entre um “evento” e um “fato”. Um “fato”, diz ele, é apenas uma ocorrência a mais no nosso calendário; dessas que, passado um breve tempo, não lembramos mais. Já um “evento” é aquele que a memória seleciona para guardar e não esquecer mais. É em torno de “eventos”, por exemplo, que se movem os feriados cívicos, as datas escolares, os marcos oficiais.

    Estamos descrevendo, portanto, as distinções entre “razão prática” e “razão simbólica”, como define Marshall Sahlins, ou, nos termos do etnólogo Claude Lévi-Strauss, da relevância da “eficácia simbólica” na lógica política. Pois bem, se voltarmos ao monumento do general Robert E. Lee, líder do outrora poderoso Exército Confederado, veremos que ele nada tem de “ligeiro ou passageiro” dentro do contexto sulista norte-americano. Na verdade, o militar significa para eles, e ainda nos dias de hoje, um herói que não “permite esquecer”. Ele não deixa que seus correligionários olvidem dos momentos de “glória do passado”, anteriores à Guerra de Secessão, que durou longos e pesados cinco anos (1865-1870) e confirmou a vitória do Norte sobre o Sul do país. A derrota foi pesada para os confederados, uma vez que implicou uma grande mudança na forma de fazer política, de lidar com a economia e com os costumes locais, além de ter levado à abolição da escravidão, sistema no qual se baseava, pesadamente, toda aquela parte da sociedade norte-americana.

    Não existe, assim, qualquer coincidência ou mal entendido na formação dos dois blocos antagônicos que se digladiaram em torno da “estátua/ monumento” do general Lee. Por detrás deles estava o próprio sentido do manuseio da história: de um lado, aqueles que queriam defender o passado no presente; de outro, os que lutavam por direitos civis, arduamente conquistados numa disputa que durou mais de cem anos. Afinal, nos Estados Unidos, a segregação de jure terminou apenas na década de 1960, quando, em 1964, o Congresso aprovou as leis dos direitos civis e, em 1967, o direito do voto para todos.

    Mas não é apenas nos Estados Unidos que batalhas nacionais envolvem símbolos diletos. Após a Segunda Guerra Mundial, qualquer imagem relacionada a Adolf Hitler e ao nazismo acabou arruinada (ou, infelizmente, escondida no armário). No início da Revolução Russa foram os objetos ligados ao Czar Alexandre III que sumiram junto com a dinastia imperial. Já com as denúncias de Kruschev tombaram as imensas estátuas de Stalin. Os bustos de Napoleão caíram da Place Vendôme na  época da Comuna de Paris; as estatuárias do general Franco despencavam ao mesmo tempo que ruía por dentro o seu governo.

    No Brasil, a tela de Pedro Américo, encomendada por Pedro II em homenagem a seu pai, “às margens do Ipiranga”, e por ocasião da independência 1822, ficou pronta perto do ocaso do Segundo Reinado e teve que permanecer guardada por mais de 30 anos.

    Os exemplos seriam muitos, e não é o caso de ficar listando todos eles. Prefiro me concentrar em um mais recente, e que não foi ao chão: a estátua de Borba Gato localizada no bairro paulistano de Santo Amaro, que já nasceu polêmica. A obra é de autoria do escultor e pintor Júlio Guerra (1912-2001) e foi inaugurada em 27 de janeiro de 1963. Mesmo em sua época, ela sempre esteve distante do consenso. Monumental, com 13 metros de altura e 20 toneladas de peso, o trabalho levou seis anos para ficar pronto, mesmo contando com quatro ajudantes. Resultado de um concurso público que visava elevar o município autônomo de Santo Amaro, a estátua carregava, já no seu projeto inicial, alguma ousadia: em vez do bronze, foram utilizados materiais menos nobres, como o barro, o gesso, o concreto e pastilhas coloridas (quem sabe, um pouco coloridas demais). Segundo o artista, a ideia era remeter a obra ao reboco que constituía as casas paulistanas coloniais e imperiais, e que definia a própria feição da cidade, a qual, até meados dos século 19 era conhecida como ponto de encontro de tropeiros: lugar de parada, não de chegada. O resultado final da obra parece, entretanto, destacar mais o colorido das pastilhas do que o pau a pique das habitações dessa que era uma capital sonolenta, então conhecida como uma “cidade de barro”.

    Mas não é essa, com certeza, a única polêmica que envolve Borba Gato. Também a imagem pública dos bandeirantes entrou em declínio no final do século 20. Ela fora criada um século antes, pelo Instituto Histórico Geográfico de São Paulo, o qual, na falta de símbolos que dignificassem o estado, resolveu elevar esses personagens históricos, caracterizando-os como “desbravadores de fronteiras”. Aliás, a concepção representaria um resumo do que singularizaria (na visão dessas elites locais, carentes das benesses culturais da capital carioca) a “índole” dos paulistanos, sempre “à caça de novidades” e prontos para “novas aventuras”, no sentido de estarem abertos a todo tipo de “empreendimento” (e me perdoem mais essas aspas irônicas).

    Pintores acadêmicos também procuraram consagrar essa representação, idealizando todo um vestuário totalmente alienígena em relação à “realidade” em que viviam essas figuras históricas. Chapéus desnecessários e que, se existissem, deveriam ficar emaranhados nas matas; botas volumosas (numa paisagem em que se andava sobretudo descalço); roupas carregadas e pesadas num clima tropical em que tais vestimentas seriam totalmente proibitivas quando não desnecessárias.  

    O fato é que, após um conjunto de pesquisas, a imagem elevatória dos bandeirantes não sobreviveu bem ao tempo. Acusados de serem vis apresadores de indígenas, de atuarem como capitães do mato e de se dedicarem à perseguição de escravizados, e com métodos violentos, os bandeirantes são, nos dias de hoje, heróis controversos.

    Longe do pretenso espírito “despojado e audacioso”, as missões bandeirantes têm sido entendidas como empresas que visavam antes o lucro fácil a partir do martírio alheio.

    Troféu kitsch

    Somando-se dois mais dois, o barulho acabou se avolumando em torno da “estátua/monumento” de Borba Gato. Ultimamente ela tem sido alvo de muitas críticas; amanheceu um dia pintada de vermelho e pichada com dizeres do tipo: “bandeirante ruralista assassino” ou “guarani kaiowa resiste”.

    Foto: Wikimedia Commons
    Estátua Borba Gato localizada no bairro de Santo Amaro, em São Paulo
     

    Troféu um tanto kitsch para alguns, beleza monumental para outros, homenagem indevida para ainda outros, não há dúvidas de que a obra virou uma espécie de cartão postal polêmico da cidade; um verdadeiro “monumento” por conta dos significados que carrega. Afinal, também por aqui, está em disputa uma determinada “propriedade da história”. Para aqueles que defendem a obra, ela representaria uma certa identidade paulistana, que já se viu como “locomotiva do país”, “elite intelectual modernista”, “centro empresarial e racional do Brasil”. Já para aqueles que preferem vê-la terra abaixo, ela evocaria uma história equivocada; uma versão parcial e muito distante dos documentos e fontes comprobatórios. Ademais, uma homenagem de mau gosto e de valor artístico por demais duvidoso.

    Não é hora de desempatar a partida. O mais importante é chamar atenção para a maneira como os símbolos guardam consigo uma eficácia muito especial. Produzem a realidade quando parecem apenas a reproduzir.

    Como dizia Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, que também tentou lidar com os símbolos da melhor maneira que pode: “quem repara na lua senão para achar bela a luz que ela espalha, e não bem ela? Mas quem repara na terra, que é o que pisa? Chama terra aos campos, às árvores, aos montes, por uma diminuição instintiva, porque o mar também é terra...”. Conforme confessava o poeta  andamos “fartos de símbolos”. O pior é que vivemos rodeados e enredados por eles e nem nos damos conta.

    Ps: Agradeço ao José Orenstein que me animou a escrever esse artigo.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: