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Coluna

Rumo à inflexão

    Em um país sem lideranças e sem partidos confiáveis, como iremos sair melhores dessa? Em um país que a cada 26 anos, em média, muda de regime político desde a Proclamação da República, o que esperar das próximas décadas?

    O Brasil não deverá ter estabilidade até as eleições de 2018.

    O barco afundou de vez. Só faltava uma prova cabal para dizer que o Judiciário é omisso com o caixa dois no Brasil. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acabou com nossas dúvidas depois do julgamento da chapa Dilma-Temer, após três anos da eleição.

    Eu não sei você, mas todo mundo com quem converso está enojado com a política brasileira. Em um país sem lideranças e sem partidos confiáveis, como iremos sair melhores dessa? Em um país que a cada 26 anos, em média, muda de regime político desde a Proclamação da República, o que esperar das próximas décadas?

    Vivemos um ponto de interrogação. O Brasil pode continuar na mesma toada. Este será o destino caso nada for feito. Sempre penso isso quando leio as mensagens de vários grupos de WhatsApp que se propõem a discutir política. As pessoas parecem se encantar com suposições e conjecturas sobre o que acontecerá, quem fica, quem sai, o que cada político tem que fazer e porque está tudo errado em Brasília. A política nesse caso é tratada como se fosse uma paisagem, na qual os cidadãos devem olhar, mas são praticamente incapazes de tocar nela, ou mudá-la.

    Foi essa visão da política como algo distante das nossas mãos, aliada a uma omissão coletiva, que nos trouxe até aqui.

    Melhor do que a interrogação, penso que podemos estar vivendo um ponto de inflexão. Em matemática, tal é o ponto que a curvatura troca de sinal. Neste caso, de negativa (para baixo) para positiva (para cima). As eleições de 2018 seriam esse ponto.

    O que os grupos de WhatsApp ou rodas de conversa poderiam discutir, portanto, é como mudar a trajetória da política brasileira. Esse cenário me faz lembrar a frase de Hannah Arendt escrita logo após o incêndio do parlamento alemão em 1933: “deixei de achar que uma pessoa pode ser simplesmente uma observadora”.

    Neste momento de atordoamento, a participação e o envolvimento de cada um são fundamentais. Não é mais pura observação, é ação também. As perguntas aqui são: como vamos mudar o Brasil e renovar a decrépita classe política que hoje ocupa os cargos públicos? Como iremos mudar as instituições políticas para que elas sejam, finalmente, republicanas?  Como elegeremos pessoas capazes de enfrentar tais desafios?

    Mudar o status quo não é trivial. Os partidos são dominados pelas oligarquias políticas, que recebem de recursos públicos quase R$ 819 milhões por ano. Tais partidos têm o monopólio da representação. Para mudar o atual equilíbrio da política brasileira, é necessário - ainda que não suficiente - eleger uma nova leva de representantes públicos comprometidos com valores éticos e com o desenvolvimento de longo prazo do Brasil. Esse pessoal irá competir com os representantes da velha guarda, que serão financiados com recursos públicos canalizados pelos partidos e, pelo que tudo indica, mais caixa dois. A competição é injusta.

    A saída para a renovação qualitativa da política brasileira está na sociedade civil. Após 32 anos de redemocratização, chegou o momento de repactuarmos a nossa democracia, para que se preserve as conquistas até aqui e os evidentes e profundos problemas sejam corrigidos. O atual Congresso Nacional é incapaz de corrigir rumos. Os nomes que despontam nas pesquisas de opinião para as eleições presidenciais, como Lula e Bolsonaro, não sinalizam nenhum passo em direção ao futuro. Portanto, as mudanças terão que ocorrer após as eleições de 2018, com uma nova geração de representantes já empossados.

    Por isso, cabe agora à sociedade civil organizar um plano de transição para a política brasileira. Essa transição só terá sucesso se formos capazes de cumprir quatro pré-requisitos: 1) arregimentar uma quantidade suficiente de cidadãos (éticos, talentosos e populares) dispostos a competir por cargos públicos e capazes de serem percebidos pela sociedade como lideranças emergentes; 2) consolidar uma agenda de desenvolvimento nacional convergente que sirva de substrato para todos os candidatos durante e depois das eleições; 3) articular candidaturas da sociedade civil em partidos que estejam dispostos a encampar essa agenda de transformação da política nacional; 4) mobilizar uma quantia relevante de recursos privados que torne viável a eleição dos protagonistas da renovação política. E, finalmente, garantir a vitória nas urnas.

    O que pode parecer fácil, é muito difícil, a começar pelo seu financiamento. Como montar um empreendimento deste tamanho em um país em que as pessoas não doam recursos para a política? A atual crise política clama por responsabilidade.

    Além do aspecto moral, há um forte argumento econômico sobre porquê se engajar na política num momento de crise. Escutei um relato de um amigo investidor de como as crises política e econômica brasileira fazem com que seus investimentos valham muito menos do que se o Brasil estivesse em ordem. Dessa forma, do ponto de vista puramente econômico, investir na melhoria da política brasileira significa investir, também, no aumento de riquezas para aqueles que têm uma grana guardada ou qualquer outro tipo de ativo.  Por que não o fazer? 

    A crise brasileira se prolongará, pelo menos, até outubro de 2018. Talvez possa ser minorada caso o presidente de plantão renuncie ou seja despejado do Planalto, sendo ocupado por alguém com a reputação minimamente ilibada. Oposição ao atual governo é um ato cívico.

    Ainda iremos gastar muito tempo com o caos cotidiano de Brasília. Mas creio que, em vez de ficarmos apenas contemplando os destroços do passado e do presente, podemos começar a construir as bases de uma democracia mais vigorosa para o futuro. Nas crises políticas, a responsabilidade de solucioná-las é compartilhada. A bola está com a sociedade civil e sua capacidade de organização e ação.

    Vamos à inflexão em 2018.

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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