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Coluna

Repetição, não: renovação

    Renovação virou hit nas conversas políticas. Mas o que é renovação e o que é repetição do mesmo?

    Esses dias escutei um jovem contando seu projeto político. Ele é filiado a um partido que tem seus últimos dois presidentes na cadeia. Embora tal fato não diga tudo, ele garantiu que seria a renovação do partido. Perguntei-lhe como. Respondeu que seu “padrinho político” o aconselhou que, se ele não entrasse para “limpar o que estava sujo, não haveria como renovar”. Decidi nem perguntar os interesses pessoais do “padrinho”.

    Há alguns meses conversei com um jovem que ocupava a posição de presidente de uma juventude partidária. Geralmente essas pessoas, embora jovens, fazem uma política mais antiga do que os caciques que os inspiram. Esse não era diferente. Ele havia sido colocado na posição pela presidência partidária e, naquele momento, estava negociando as regras para as novas eleições da Juventude. Esse sujeito estava aparentemente moldando as regras ao bel prazer. Eu o perguntei se seria candidato, pois, naturalmente, poderia haver conflito de interesse. O jovem não gostou da pergunta, ensaboou e, posteriormente, perdeu as eleições.

    Um amigo observou esta semana que um movimento com uma agenda bem reacionária, embora se autodenomine de “liberal”, colocou-se no cenário político brasileiro como oposição ao Partido dos Trabalhadores. É verdade. Infelizmente, foi onde buscou muitas técnicas de trabalho. Primeiro, passou a pregar a pecha de esquerda em tudo aquilo que não fosse o próprio movimento — ou não o apoiasse. Foi assim que o PT jogou o PSDB pra direita, e ele caiu com o tempo. E é assim que esse movimento tenta fazer, com qualquer outro movimento ou pessoa que discorde do que fala e faz.

    Segundo, o discurso do contra, por vezes radical, que é fácil de construir, se espalha rápido, atrai “likes”, mas não constrói nada, só divide. Como resultado, basta notar que nem os movimentos políticos que marcharam juntos com esta agremiação de reacionários pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff dialogam com ela.

    Um jornal paranaense, sentindo as mudanças nos ventos da política brasileira, tentou se reinventar. Mas só renovar não basta, é preciso saber para onde vai. O jornal parece que decidiu ir rumo ao velho reacionarismo brasileiro. Primeiro, herdou parte do refugo de uma revista de grande circulação nacional, que percebeu que o jornalismo do ódio não é um caminho promissor. Em seu site, o jornal tem uma seção sobre monitoramento de “ideologia de gênero”, bem como acabou de encerrar um controverso e recém-lançado “Monitor da Doutrinação”, a serviço do projeto Escola Sem Partido. O jornal poderia monitorar sistematicamente a qualidade da educação pública, por exemplo. Isso seria renovação.

    Alguns partidos no Congresso se gabam de terem uma bancada jovem e atuante. Quando olhamos seus sobrenomes, logo percebemos que são herdeiros de dinastias políticas. Herdam o partido, os cabos eleitorais, os eleitores e os financiadores de campanha. Hoje, seis em cada dez congressistas têm parentes na política.

    Em uma capital brasileira, um prefeito foi eleito se dizendo que não era político, era “gestor”. Para ganhar a legenda nas prévias do partido, gastou uma fábula no subsídio a militantes, como diziam os jornais da época. O prefeito gestor montou muitos eventos, gravou muitos videos, rodou o Brasil tentando se posicionar como candidato a presidente, mas ainda está aprendendo como se fazem licitações.

    Um partido brasileiro foi criado como sendo o “novo”. Uma das medidas que anunciou, inspirado no mundo corporativo, foi que cada candidato do partido teria que passar por um processo seletivo. E essa prática realmente funciona para a maioria das pessoas, menos para o presidente do partido que se lançou a presidente sem processo seletivo. O mesmo aconteceu para amigos do presidente que saíram candidatos a prefeito ou sairão para governador. Não seria melhor dizer que nem todo mundo faz processo seletivo?

    Não é uma camisa de futebol que faz uma pessoa mais ou menos patriota. Não é ser novo, ou dizer-se portador da missão da renovação política, que o fará um vetor de mudanças transformadoras do destino do país. A renovação na política implica uma mudança qualitativa na forma como a política é feita, segundos os bons e velhos princípios democráticos e republicanos, para que o cidadão comum participe ainda mais dela. E isso não se faz com repetição de práticas que já se mostram frágeis, ou variações de uma nota só.

    Eu contei essas histórias, sem entrar em nomes ou detalhes. Mas veremos em 2018 muita gente se gabando do discurso de renovação, enquanto é, em alguma medida, mais do mesmo. Mais repetição. Por isso, nada melhor do que começar a qualificar este debate desde já, pois o atraso tem raízes muito mais profundas em nossa cultura política do que a prosperidade. 

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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