Ir direto ao conteúdo
Coluna

Renovação com inovação?

    A renovação na política virou um tema pop. Resta saber se terá show

    As pessoas estão cansadas da política. Mas é possível detectar, em parte da sociedade, a construção de um ecossistema de renovação política no Brasil. Diversos movimentos, com diferentes bandeiras e perfis, surgiram desde 2013 – Agora!, Acredito, Onda Azul, Quero Prévias, Vem Pra Rua, Bancada Ativista, Muitxs, Nova Democracia, dentre outros. Quem participa de um grupo pode participar de outro também; não há contrato de exclusividade. O que vale é participar da forma possível. Nenhum deles resolverá, individualmente, todos os problemas que afetam o dia a dia do cidadão. Alguns têm discursos mais responsáveis do que outros, uns não têm nem discurso.

    Por isso, a lógica de “ecossistema” é importante. Diante de um sistema agigantado, fechado e sem confiança da sociedade – que é o da política tradicional brasileira –, será necessário um comportamento de empreendedorismo para detectar as ineficiências, “os buracos”, para produzir uma inovação na política que seja disruptiva. Na prática, isso seria colocar a velha política para dormir e despertar novas práticas de como lidar com o bem público.

    A referência ao mundo das startups é oportuna. Entre os  muitos movimentos políticos, alguns terão mais êxito do que outros. Isso certamente dependerá de acesso a financiamento, atração de bons quadros, solidez de propostas, capacidade de lidar com os riscos e densidade de suas redes de relacionamento, sejam elas digitais ou presenciais. Isso dependerá, também,  do produto final oferecido e de como ele será percebido pelos cidadãos. Tais variáveis poderiam ser as mesmas consideradas por uma startup do setor privado em São Paulo, em Herzliya, Israel, ou no Vale do Silício, Estados Unidos.

    O que sabemos é que o efeito real da mudança se dará quando esse ecossistema estiver denso e operante, sendo capaz, inclusive, de fazer pontes com o velho sistema e atualizar grandes estruturas que estão enferrujadas, como os partidos políticos. Por isso, eventuais rixas entre grupos emergentes são desprezíveis face ao desafio real que é atualizar a política brasileira.

    Meu entendimento sobre a atualização do sistema operacional que rege a política envolve criar ou reforçar regras que radicalizem nossa democracia, tornando-a mais inclusiva, representativa e transparente. Se o mundo anda desconfiando dos valores democráticos, essa desconfiança é ainda maior na América Latina, uma região que tem raízes históricas autoritárias.

    Um novo sistema operacional demanda programas atualizados. Em nosso caso aqui, isso seria uma agenda de políticas públicas que colocam o Brasil mais perto do desenvolvimento do que da inércia ou do atraso, em relação ao resto do mundo. É como se precisássemos digitalizar a forma de administrar dos governos, migrando os programas públicos de um modelo Ford – símbolo da industrialização do século passado – para o modelo Google ou Amazon.

    Há muitas divergências programáticas entre os movimentos. O fato é que muitos candidatos à renovação da política em 2018, se forem eleitos, terão que entrar em uma curva de aprendizagem íngreme para desempenharem um papel de relevo no Legislativo ou no Executivo. Alguns vereadores advindos de movimentos políticos que foram eleitos em 2016, por exemplo, ainda parecerem estar mais preocupados em gerir fãs na internet do que produzir peças legislativas relevantes para o cidadão. Alguns prefeitos estreantes talvez tenham aprendido que fazer uma boa licitação o torna um gestor mais efetivo do que gravar dezenas de vídeos para as redes sociais.

    É normal que haja pontos de interrogação na esperada renovação política, pois o incerto gera dúvidas. Existem movimentos que, ao se posicionarem como porta-vozes da renovação, quando não da ética, acabam repetindo os mesmos métodos da velha política.

    Cito dois desses métodos que me chamam mais a atenção. O primeiro deles é a pouca transparência em relação ao financiamento (direto e indireto) das iniciativas.  Não adianta pregar o novo, é preciso fazer diferente. O que não faltam são respostas evasivas quando se pergunta quem financia algumas atividades da sociedade civil. O segundo deles é a aplicação insistente da desonestidade intelectual. Os maus (e velhos) políticos são acostumados a  surrupiar ideias dos outros e venderem como fossem de sua autoria. Ainda vejo esse mesmo vício, em alguns casos, no ecossistema da renovação. Talvez seja tempo dos brasileiros perceberem que isso também é um tipo de corrupção.

    Por isso, o que o cidadão exige dos políticos de Brasília hoje ele deve exigir daqueles que pretendem renovar Brasília, ou as capitais dos estados, a partir de 2019.  O caminho da participação requer transparência e probidade de todos aqueles dedicados às causas públicas. Renovar a política brasileira se tornou indispensável. Resta-nos garantir que esse processo resulte em inovação transformadora. Por isso, é importante nos preocuparmos com a qualidade e autenticidade dessa renovação desde agora.  

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!