Coluna

Quero colar no teu corpo feito cicatriz

    Enfrentar a exposição de Miguel Rio Branco implica multiplicar nossas próprias fotografias internas: levar a sério esses ‘nossos outros’

    "Nada levarei qundo morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno". Essa mensagem seca, ao mesmo tempo ameaçadora e redentora, foi encontrada pelo fotógrafo Miguel Rio Branco num muro do bairro Maciel. A frase, pichada nos idos de 1979, na decadente região do Pelourinho, em Salvador, virou então título e argumento para uma série fotográfica hoje considerada histórica, por conta do testemunho que guarda e da vida que dela transborda.

    Foto: Miguel Rio Branco /Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
    sem título, da série 'Maciel', de 1979
     

    Tão anônimos como o autor dessa sentença são as mulheres, homens e crianças que aparecem no conjunto de 61 fotos. Em Maciel, Miguel Rio Branco conheceu prostitutas, criminosos, trabalhadores, mas também uma população marginalizada pela urbanização da cidade e que tratou de reinventar seu dia a dia.  O fotógrafo anotou, ainda, arquiteturas muito desconfiguradas por novas formas de habitação e uso, mas reluzentes nas cores fortes e inesperadas que apresentam. Nas imagens tomadas pelo artista, explode uma verdadeira cartografia de tons que vão do azul ao rosa, encontram o amarelo, o verde e chegam ao laranja. As fotos se comportam como pintura; como lembrança e criação.

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    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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