Coluna

Quem quer ser empreendedor público?

    Este é o perfil necessário para o país: pessoas que transitem entre política institucional, sociedade civil e academia

    A Fundação Obama abriu há poucos dias um processo seletivo para escolher 20“inovadores cívicos” ao redor do mundo. O objetivo é ampliar o trabalho dessas pessoas e incentivar uma nova onda de cidadãos inovando na arena pública a partir da sociedade civil.

    Para um presidente com a história de Barack Obama, faz todo sentido ele dedicar o seu futuro a incentivar pessoas vindas das mais improváveis origens — como foi o caso dele — a mudarem a sociedade por meio do ação pública. Esse parece ser um caminho em que ele certamente acredita.

    Olhando para os problemas do Brasil, creio que há uma enorme área de atuação para “inovadores cívicos”. A iniciativa Update Politics realizou um apanhado de 168 ações ao redor do país das quais muitas poderiam se encaixar na categoria inovação cívica. Não duvido que existam muitas outras atividades não mapeadas espalhadas pelo Brasil.

    Já o economista Dani Rodrik, olhando mais para o universo das políticas públicas, descreve o “empreendedor político”, que é “aquele que faz arbitragem entre o conhecimento acadêmico e as ineficiências do universo da política”. Os governos que conseguem inovar são aqueles que estão mais próximos à fronteira do conhecimento do que aqueles atados à mediocridade da política cega do dia a dia. A mistura de habilidades entre o universo acadêmico e a prática observada nas administrações públicas é sempre bem-vinda.

    O então prefeito republicano da cidade de Nova York, Michael Bloomberg, enfrentou a questão das mudanças climáticas de frente, a despeito da desconfiança do seu próprio partido pelo tema. Com base em um plano de políticas mitigatórias e adaptativas para minimizar os efeitos das mudanças climáticas, seu mandato aprovou um plano de tratamento e reciclagem de lixo, inaugurou 800 alqueires de espaços a céu aberto para o uso recreativo da população e construiu mais de 950 quilômetros de ciclovias, dentre outras medidas.

    Assim como Bloomberg fez, os empreendedores políticos são aqueles que gastam capital político apostando que o custo de desafiar o status quo no presente será amortizado com retornos concretos no futuro. Neste caso, os fiadores de inovações em políticas públicas são os próprios cidadãos — e eleitores, portanto. O empreendedorismo político, nesse sentido, não compactua, de forma alguma, com o populismo e com o curto-prazismo.

    Eu simpatizo muito com os conceitos de “inovadores cívicos” e de “empreendedores políticos”. Mas, olhando a bagunça que se instalou no Brasil, acredito que há um perfil que engloba ambas as denominações: o do empreendedor público.

    O empreendedor público é aquele que busca diferentes formas de atuação, seja na política ou não, para que a agenda pública de um país seja efetivamente transformada para consertar os problemas que afetam a vida do cidadão comum. Sua atuação não se restringe apenas aos governos ou aos parlamentos, como também não se limita ao ativismo da sociedade civil ou ao insulamento do mundo das ideias, da academia, mas se alimenta dessas três áreas de modo sinérgico e prático.

    O empreendedor público é aquele capaz de transitar em diferentes áreas, convergindo as diferenças e somando as potências de cada campo para atuar de forma direta ou indireta na arena política. Como empreendedor, esse perfil precisa diagnosticar com clareza os desafios da área pública e buscar oportunidades para resolver problemas. Em um país em que apenas 6 em cada 100 brasileiros confiam nos políticos que os representam e em que as investigações de casos de corrupção expuseram as vísceras de um sistema profundamente corrupto, o papel da sociedade civil é fundamental para resgatar a confiança na política, desde que passe também a atuar no universo da política e que se conecte com a fronteira do conhecimento.

    Esse tripé — atuação política, participação da sociedade civil e conexão com a academia – torna-se o único caminho promissor para reconstruir a política brasileira, pois cada setor separadamente não é suficiente. Por exemplo: os movimentos extremistas que cresceram no Brasil recentemente têm conexão, de alguma forma, com a sociedade civil, mas estão muito longe da fronteira do conhecimento. Até exposição de arte virou vitrine para ativismo despropositado, como aconteceu em Porto Alegre há alguns dias. Por outro lado, há alguns grupos com perfil mais acadêmicos que discutem planos e o futuro do país, mas não encontram lastro na sociedade civil e são desconectados da ação política em escala relevante.

    O Brasil já viveu um momento em que o empreendedorismo público foi tão necessário? Certamente que sim, durante a redemocratização. Essa confluência de atuação política, engajamento da sociedade civil e conexão com a academia para aglutinar uma visão de um país democrático foi consolidada na Constituição de 1988.

    Ironicamente, é esse sistema desenhado na pós-redemocratização que o novo empreendedorismo público tem a chance de reparar. Para que isso ocorra, o Congresso Nacional precisa ser radicalmente renovado em 2018. Resta esperar que o espaço para a renovação política seja ocupado por empreendedores públicos e não apenas por gestores exclusivos de fãs nas mídias sociais, caciques partidários ou populistas de plantão.

    O maior risco deste empreendimento coletivo é tudo ficar como está. O maior retorno é transformar o Brasil em um país melhor de se viver.  Ainda vale a pergunta, quem quer ser um empreendedor público?

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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