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Coluna

Que renovação política?

18 de mai de 2017 (atualizado 18/05/17 às 02h20)

    A geração de políticos que estão rompendo com o status quo, espalhada por diversos países, parece que não tem uma agenda propriamente convergente, mas diria que tem quatro grandes semelhanças

    A política do mundo todo sofre de mal-estar, inclusive a brasileira. Os intermitentes escândalos de corrupção potencializam a rejeição à política. Mas esse fenômeno está longe de ser uma jabuticaba. A renovação na política é uma bandeira globalizada, que deverá ser hasteada aqui também.

    Do Brexit no Reino Unido, passando pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e Emmanuel Macron na França, ou pela vitória dos prefeitos populistas como em Roma Virginia Raggi do Movimento Cinco Estrelas ou em Belo Horizonte – Alexandre Kalil, cujo slogan da campanha era “chega de político” , as urnas estão mostrando que a forma velha de se fazer política ficou pra trás.

    Menos claro é o que significa esse dito novo. Mais incerto ainda é como implementá-lo – e se os seus porta-vozes serão capazes de tal. A geração de políticos que estão rompendo com o status quo, espalhada por diversos países, parece que não tem uma agenda propriamente convergente, mas diria que tem quatro grandes semelhanças.

    A primeira delas é a crença, ou o discurso, de que a dualidade esquerda-direita dissolveu-se no ar. O partido espanhol Ciudadanos se diz liberal-progressista, um omelete composto de componentes da social democracia e do social liberalismo. O Movimento Cinco Estrelas, hoje o segundo maior partido da Itália, é a favor de casamento homoafetivo, mas contra imigração. Dizem que atuam de acordo com o que é “lógico e melhor para os cidadãos”. Macron, na França, tamb��m defende a combinação dos pontos positivos da esquerda e da direita. O presidente francês se proclama progressista, defensor de uma social democracia pró-mercado.

    No geral, os movimentos "fora da política" ocuparam os espaços de governos de centro-esquerda e centro-direita. Não por acaso, foram os partidos defensores da social democracia que mais perderam espaço em nível mundial.

    A segunda característica dessas lideranças é alguma dose de populismo, impulsionado por múltiplas avenidas abertas pelas mídias sociais. Alguns, como o movimento italiano ou o presidente norte-americano, muito mais do que outros, como Macron ou Rivera, do Ciudadanos. No Brasil, populismo de extrema-direita de Jair Bolsonaro (PSC), quem pouco frequentou os grandes noticiários da TV, cresce de forma vertiginosa por meio da mídia social. De acordo com as últimas pesquisas, está em segundo lugar das intenções de voto.

    A terceira convergência entre tais políticos é um diálogo muito mais direto com o eleitor, com o cidadão comum. A política se encastelou. Os partidos ficaram parados no tempo. A sociedade seguiu em frente e espera que a política também avance. Por isso, boa parte dessas lideranças vêm de fora da política. O caso de João Doria é exemplar. O prefeito usa as mídias sociais para pautar os eleitores e, até mesmo a imprensa. O esforço de dialogar diretamente com o eleitor é tamanho que at�� vestimentas de gari ele passou a usar ocasionalmente.

    A última característica comum à proclamada novidade é saber exatamente o que será novo e se esse novo vai obter resultados positivos para a sociedade. Se falhar, há o risco dos cidadãos sentirem saudades da velha política. A descrença na democracia só tem aumentando nos últimos dois anos na América Latina e, sobretudo, no Brasil.

    Se no caso brasileiro a descrença na política tem o DNA desse fenômeno global, ela também é potencializada pelos intermitentes escândalos de corrupção que surgiram após a operação Lava Jato. As delações das empreiteiras investigadas mancharam a reputação de praticamente todo o establishment político. Sobraram raras exceções.

    Você, assim como eu, deve estar se perguntando: e para 2018?

    Uma pesquisa inédita conduzida pelo instituto de pesquisa Idea Big Data entre 8 a 13 de maio mostra que 56% dos eleitores não pretendem reeleger nenhum candidato nas próximas eleições, independentemente do cargo. Ao mesmo tempo, 64% das pessoas não pretendem votar em nenhum envolvido na operação Lava Jato, sejam eles inocentes ou não.

    Os números são fortes, sobretudo para eleição majoritária. No caso da proporcional, o cálculo é mais difícil, até porque teremos que ver se a famigerada atuação dos “cabos eleitorais” –  ou “líderes comunitários” –  ainda terá o mesmo efeito de outrora.

    Quando perguntados à queima roupa pelo instituto de pesquisa se preferiam um “líder” ou um “gestor” para presidência da República em 2018, 68% dos entrevistados disseram “gestor”. Mesmo sem saber ao certo o significa um termo ou outro, o sentimento do eleitor para 2018 parece estar mais apolítico do que nunca. A classe política fez por onde. Ironicamente, o grande desafio dos “gestores” será comprovar suficiente liderança para resgatar a confiança da sociedade na própria política.

    O mal-estar do mundo não será resolvido com vídeos no Facebook, nem correntes pelo WhatsApp, mas com políticas públicas que mostrem resultado no médio-prazo e reaproximem os cidadãos da gestão da coisa pública, da política. Se os novatos terão que se gabaritar para gerir as complexidades de qualquer governo, os arcaicos terão que se reinventar, ou aposentar.

    Nós ainda estamos só no começo dessa jornada.

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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