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Coluna

Por que os tiranos estão saindo do armário

    O que se pensava estar resolvido no entendimento de democracia liberal, pelo menos desde o século 18, parece que pode ressurgir, até mesmo para atacar frontalmente conquistas universais dos direitos humanos. Foi assim com Trump, é assim com Bolsonaro.

    Os tiranos saíram do armário, inclusive no Brasil. Não é mais estranho ver memes na internet defendendo que a maioria tem o direito absoluto de sempre prevalecer sobre toda e qualquer minoria. O que se pensava estar resolvido no entendimento de democracia liberal, pelo menos desde o século 18, parece que pode ressurgir, até mesmo para atacar frontalmente conquistas universais dos direitos humanos. Foi assim com Trump, é assim com Bolsonaro.

    As pessoas que hoje defendem uma agenda autoritária sempre defenderam tais ideias e estavam até então caladas? Por que se manifestaram justo agora? No caso brasileiro, seria um resquício do autoritarismo que vira e mexe reaparece em nossa história política?

    O economista brasileiro Leonardo Bursztyn, professor da Universidade de Chicago, e seus coautores publicaram um artigo recentemente no site da NBER que analisa como temas que eram socialmente inaceitáveis tornam-se aceitáveis e até defendidos publicamente de uma hora para outra.

    Estudos comportamentais confirmam que as pessoas se importam com a opinião das outras, sobretudo em relação a temas políticos. Além disso, há persistência de traços culturais ao longo do tempo. Por isso, é possível imaginar que valores autoritários são carregados ao longo do tempo, mesmo após uma mudança de regime político. Joachim Voth, da Universidade de Zurique, mostra, por exemplo, como o antissemitismo na Alemanha tem raízes medievais. 

    O que o trabalho de Bursztyn e seus coautores traz de interessante é mostrar quais são os fatores que fazem com que normas sociais vigentes há um bom tempo mudem abruptamente. Eles fazem um experimento para verificar se a ascensão da popularidade de Donald Trump está diretamente ligada à disposição das pessoas em assumirem publicamente posições xenófobas. Na verdade, o comportamento público em relação à xenofobia passa a ser mais próximo do que esta pessoa sempre acreditou no âmbito privado, mas preferia não se manifestar.

    A mesma escalada do radicalismo observada com a ascensão de Donald Trump parece se replicar no Brasil com uma roupagem tropicalizada. Após a ditadura militar, a defesa aberta do autoritarismo foi exilada do debate político nacional. Mas, recentemente, com a escalada do radicalismo durante e após as eleições de 2014, a intolerância passou a ser normalmente veiculada nas mídias sociais. Vídeos grotescos que celebram flagrantes desrespeitos aos direitos humanos, bem como a popularização de chavões do tipo “bandido bom é bandido morto”, passaram a habitar o repertório político do cidadão brasileiro. Páginas que contêm conteúdo desse tipo estão entre as três maiores audiências sobre política no Facebook brasileiro. (Prefiro poupá-los dos nomes).

    A escalada do direitismo brucutu foi concomitante ao crescimento de Jair Bolsonaro nas pesquisas de opinião para a presidência da República. No início de 2015, ele tinha 4% de intenções de voto. Hoje, segundo a última pesquisa do Datafolha, tem 16%. Uma de cada quatro pessoas que votaram em Aécio Neves declaram seu voto em Bolsonaro. A jabuticaba brasileira é que esse fenômeno ocorre aqui em um ambiente de total descrédito da classe política, chafurdada em denúncias de corrupção e completa falta de sintonia com o dia a dia do cidadão. Ou seja, a falência do atual establishment político o faz cúmplice da ascensão tirânica no Brasil, simbolizada pela pré-candidatura de Jair Bolsonaro.

    Enquanto isso, muitas pessoas bem intencionadas desdenharam os conselhos do filósofo John Rawls, que dizia que a defesa de temas que já violam a democracia institucionalizada não é uma defesa democrática. Toda vez que penso nesse conceito eu me lembro daqueles que se manifestaram nas ruas pelo retorno da ditadura, sem nem sofrerem repreensão moral. O radicalismo virou moda em alguns bolsões da internet e do país, sendo que políticas públicas absurdas passaram a ser defendidas sem vergonha. A defesa do armamentismo irrestrito pelos cidadãos, a crítica xenófoba contra imigrantes, a narrativa raivosa contra a igualdade de gênero passaram a ser exemplos de mensagens incisivas da direita brucutu, que, não por acaso, idolatra Donald Trump.

    Bursztyn e seus colegas mostram no artigo mencionado que sair da zona de radicalismo para a de razoabilidade das ideias demanda mais tempo do que o caminho inverso. Portanto, como democratas, não há outro caminho a não ser zelar ainda mais pela democracia. Isso inclui combater as intolerâncias, dialogar de forma qualificada com os novos-velhos intolerantes e assumir responsabilidade, como alerta o historiador Timothy Snyder.

    É possível que tenhamos tempo de evitar uma eleição presidencial em 2018 dominada pelo mesmo sentimento das eleições de Trump ou do Brexit. A inspiração de dias melhores pode vir da França ou do Canadá, mas a esperança precisa vir é dos brasileiros. Ainda dá tempo.

     

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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