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Coluna

Pode o subalterno falar e experimentar a própria vida?

24 de jul de 2017

    A inovação de linguagens e a criação artística são historicamente restritas no Brasil. E demarcam um lugar de poder – branco e abastado

    No início de julho estive no Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre, o Frapa. Entre todas as experiências bacanas que pude vivenciar nesse espaço, destaco um comentário após uma roda de conversa que se chamava “outras poéticas: o diálogo com o teatro, a literatura, a dança e a música na criação de histórias e personagens”. Compartilhei o papo com Julia Murat, Claudia Tajes, Diones Camargo e Artur José Pinto. No final, uma pessoa que estava na plateia veio até mim e disse: “esse diálogo me fez ter uma outra noção do cinema experimental. Uma noção menos burguesa”. Isso me afetou e transportou meu pensamento para vários lugares.

    Lembrei de um comentário que me fizeram sobre um filme que dirigi e escrevi, o “Kbela”. “Esse filme é muito hermético”. Hermético. Eu ouvi, sem guardar ressentimentos, e fui entendendo o que isso significava. Pensei no contexto em que o comentário foi colocado. Depois de muita reflexão e partilha com outros parceiros de cinema, percebi que a crítica levantava uma questão racial e de classe, pois “Kbela” fala, também, sobre racismo e a passagem do tornar-se negra numa linguagem experimental. Tanto que dizemos ser uma experiência (uma, entre muitas possíveis) cinematográfica sobre ser mulher e tornar-se negra. Mas quem fala? Mulheres negras. Experimentar modos de dizer as coisas para uma população que teve, e ainda tem, o seu direito de falar cerceado, não pode ser muito apropriado. Afinal, pode o subalterno falar e experimentar a própria vida?

    Foi na Escola Livre de Cinema, em Nova Iguaçu, que aprendi a experimentar e isso me ajudou a ter uma noção maior de pertencimento da minha cidade e do país. E é experimentando com o cinema que eu aprendo a negar a subalternidade que me foi colocada, assim também aprendo a seguir com as minhas próprias pernas e mirar outros caminhos possíveis.

    Sei que isso não é um fato isolado e pessoal, é uma questão política, também porque o Brasil anda experimentando coisas impensáveis algumas décadas atrás, como a presença de pessoas negras em cargos de chefia, protagonizando personagens centrais em novelas, apresentando telejornais, sendo homenageados por grandes festas literárias, criando plataformas, empreendendo, criando novos tipos de dança, como é o passinho. Além de inventar outras maneiras de responder à violência do Estado brasileiro, como é o caso dos saraus de poesia cada vez mais frequentes nas periferias do território nacional, entre outras ações.

    Essas experimentações, que emergem de espaços populares, são vistas e teorizadas, muitas vezes, como espaço de resistência e manifestação cultural. Mas são distanciadas de qualquer ideia de que possam ser, também, lugares de experimentação de linguagens e criação artística, sendo estes historicamente dominados por uma classe média e alta. Quem pode experimentar linguagens no Brasil? A quem pertence o espaço de experimentação? Quem pode pensar e falar sobre isso? Quem tem tempo e espaço de pensar sobre o próprio trabalho ou sobre caminhos artísticos?

    Não tenho pretensão de levantar um debate teórico aqui. É uma reflexão a partir de comentários, é algo que vivencio ao longo do tempo e percebo que, até mesmo quando temos essas ferramentas em mãos, o questionamento sobre o que fazemos e as escolhas estéticas se tornam constantes. A pessoa que me viu falar sobre experimentação não me viu levantar um debate teórico sobre o assunto. Me viu falar sobre como se manifestam vivências e memórias nos trabalhos que faço, e como transformo isso em linguagem.

    Acho que esse papo todo sobre experimentação pode até ser visto como um debate meramente intelectual, de nomenclaturas que não movem pipas no céu, de privilegiados, embora tente cada vez mais pensar em certas conquistas como direitos e não como privilégios. Mas acho que ele também se torna útil para a gente perceber as hierarquias invisíveis para quem vive do outro lado do muro.

    Na medida em que assumimos e alcançamos esses espaços, eles podem ser vistos de várias maneiras, inclusive como herméticos de um lado e disruptivos de outros. O fato é que os ambientes de experimentação demarcam lugar de poder e são, portanto, lugares brancos e abastados. Isso não significa dizer que populações marginalizadas nunca experimentaram. A questão é que se faz isso há muito tempo, só que essas pessoas estão, cada vez mais, não só “sentando na cadeira da experimentação”, como também estão criando espaços para que outras pessoas também possam fazer o mesmo. E é claro que querer dizer da sua maneira aquilo que não se quer ouvir é mesmo hermético.

    Por ter aprendido a não ter uma vida moldada pelo racismo é que eu cada vez mais escolho experimentar outras formas de falar, outros enfoques e enquadramentos. Aprendo para segui-los ou para negá-los. Mas não me contento: se a vida é urgente, como me disse uma vez um grande amigo, as formas de experienciá-la também devem ser. Admiro quem vive realidades hostis e consegue transformar essas experiências em outras maneiras de viver, e não de sobreviver. Admiro quem escolhe outras possibilidades e consegue materializar narrativas que nos transportam de um lugar para outro, colocando no centro debates urgentes. E penso que é por meio  das experimentações de novos atores que outras águas podem surgir nesse oceano.

    Continuarei a pensar sobre isso...

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    Dicas da Yasmin

    No dia 30 rola a III Marcha Das Mulheres Negras na Orla de Copacabana, no Rio.

    No mesmo dia, 30 de julho, depois da Marcha, dá pra seguir marchando pro samba na Serrinha que começa às 14h e segue até as 21h, com a roda de jongo, danças afro e uma oração, fechando os festejos.

    E no dia 1 de agosto vai ter o debate "eu mulher negra resisto", com a escritora Conceição Evaristo. Imperdível!

    Dia 5 de agosto rola o "Nós da Maré" com um dia inteiro de programação cultural no complexo de favelas da Maré.

     

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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