Coluna

Para viver em estado de poesia

    No campo pessoal, dos sentimentos, sensações e aprendizados, este disco marca um momento importante na minha vida, de um amor difícil, mas que me fez ponte, como um corpo num ritual de passagem

    “Para viver em estado de poesia Me entranharia nestes sertões de você.”

    Esses são os dois primeiros trechos de uma das músicas mais bonitas que já ouvi na vida. Foi no ano passado que o músico Chico César presenteou o planeta Terra com o disco “estado de poesia”. Agora, em 2017, lança “estado de poesia ao vivo”, trazendo, além das faixas do primeiro cd, grandes sucessos de sua trajetória musical.

     

    Em uma entrevista para o programa “Estação plural”, da TV Brasil, a apresentadora, também cantora e compositora, Ellen Oléria, pergunta ao Chico:

    “O que é uma vida repleta de poesia? Esses arroubos, essas ebulições intranquilas e melancólicas acompanham uma vida em poesia?”

    E ele responde:

    “Acho que a vida de quem pensa poesia, de quem escreve, de quem cria, você sabe disso, é uma vida múltipla. É uma vida para dentro e é uma vida para fora. Então muitas canções, muitos poemas vêm do olhar para dentro e outras coisas vêm da observação. Então nem tudo é autobiográfico, mas está tudo ligado à sua própria vida. Porque, afinal de contas, você, ao observar aquele tema, aquilo acontecendo na sua frente, se é na vida que está observando aquilo então já é parte. O observar é uma parte para quem cria. Então talvez por isso a gente parece um pouco mais quieto, mas é porque a gente está observando. E aquilo, de certa forma, já é criação”. 

    Nessa entrevista, ele fala sobre tempo, sobre ser senhor do próprio tempo. E que é preciso olhar o tempo como uma abstração.

     

    Depois de um longo “jejum” sem lançar um disco de inéditas, Chico traz em sua obra mais recente músicas para quem quer sentir, para quem quer afetar e ser afetado, pois apresenta uma possibilidade de estar num outro estado, que é o de poesia. O repertório ancora num tempo difícil do país, de conflitos políticos em geral a pleno vapor, e oferece aos que estão dispostos a sentir e vivenciar uma maneira de ser para além das normalidades, sem gênero, agênero, não binária, exatamente aquilo do que somos feitos.

    Não diria que é um disco que celebra a diversidade. Aqui, penso que Chico é mesmo um poeta que consegue subverter essa ideia da diversidade muito presente nos discursos atuais. O que quero dizer é sobre o perigo da ideia que essa palavra carrega, pois está, quase sempre, apontando um centro, onde a “borda”, composta pela maioria da população brasileira, dita como parte diversa (pessoas negras, trans, mulheres, etc). E para um poeta, o que importa é um sentimento, de que forma ele bate, de que maneira acontece a magia “das almas atentas, antenas entre si, entrelaçadas”. Portanto, Chico celebra o afeto na sua holística significação.

    Ainda sobre essa ideia de “estado de poesia” ser um disco agênero, lá em “Guru”, anuncia, ainda que de maneira sutil:

    “Não diz o nome da entidade à tôaNão atua, éCriatura que o divino lambeE onde quer que andeAnda como quer”

    No campo pessoal, dos sentimentos, sensações e aprendizados, este disco marca um momento importante na minha vida, de um amor difícil, mas que me fez ponte, como um corpo num ritual de passagem. Aliás, gosto dos rituais, das nascentes, do som das coisas, de quem canta, de quem dança, e Chico faz tudo isso, com esse disco que, para mim, é o hino do único estado que me governa: o estado de poesia.

    Passei o final de semana ouvindo esse disco que me lembrou a ideia de fronteira, discutida em um filme belíssimo do Carlos Nader, “Viagens na fronteira”. Nele, Waly Salomão inicia a viagem dizendo:

    “O que é fronteira? É a delimitação de territórios. A partir daqui é uma coisa e aqui já é outra”.

    Logo depois, diz Waly.

    “A fronteira, a linha demarcatória, a fronteira, a linha de fronteira. Quem está falando é um borderline, quer dizer, alguém fronteiriço, alguém que não se sabe direito onde termina a lucidez e começa a loucura”.

    Não sei de quem Chico é filho, qual seu orixá, mas a experiência que vivo ao ouvir o disco é a mesma que sinto quando observo, no filme, Waly atravessando uma fronteira, navegando de barco em um rio que abre os caminhos da mata. Ao chegar nessa “terra desconhecida”, ele observa a natureza, sente o vento, o balançar das folhas e canta

    “Quem manda na mata é OxóssiOxóssi é caçadorOxóssi é caçador”

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    Dicas da Yasmin

    No dia 1º de julho o Cineclube Atlântico Negro apresenta uma sessão especial, seguida de bate-papo, sobre quem foi Ousmane Sembene, citado por muitos como Pai do Cinema Africano e o pioneiro no continente a realizar um filme retratando as questões coloniais na África a partir do Senegal. Entrada franca.

    De 3 a 11 de julho o Ficine (Fórum Itinerante de Cinema Negro) vai realizar no Cinemaison, Rio de Janeiro, um minicurso gratuito sobre cinema africano. Inscrições abertas.

    De 4 a 7 de julho rola na UFF (Universidade Federal Fluminense) o 1º Colóquio Sentidos e Tecnologias: Rituais da Percepção, um evento voltado à reflexão e discussão sobre o modo como as mudanças tecnológicas implicam transformações da percepção na experiência contemporânea. Inscrições abertas.

    No dia 6 de julho o historiador Luiz Antonio Simas vai dar uma aula aberta na praça Agripino Grieco, no Méier, sobre a construção do imaginário do Rio a partir de suas festividades populares e propor uma perspectiva histórica menos eurocêntrica e mais norteada pelas 'frestas', pela ancestralidade e histórias africana e afro-brasileira.

    No dia 7 de julho, no Espaço Éden, Centro do Rio, rola a primeira edição da plataforma Mariwô, que se propõe a ser um espaço de encontro aberto para a manifestação de diversas linguagens artísticas.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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