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Coluna

Os reis do Brasil

    Mais uma república começou e terminou – foi pelo menos a terceira, nos últimos 60 anos. A monarquia, no entanto, continua a mesma

    O príncipe das empreiteiras Marcelo Odebrecht disse numa entrevista que sua família nunca teve a coroa real no Brasil – no máximo ele exerceu o cargo de bobo da corte. Se é verdade isso, Marcelo era o bobo da corte mais bem pago do mundo – o único a figurar na lista de bilionários da “Forbes”.

    Aliás, o único não: os donos da Camargo Corrêa, que realizavam serviços bem semelhantes para os generais da Ditadura, também são habitués da lista. Com os probleminhas de caixa que a família Odebrecht vem enfrentando (e a palavra “caixa” pode ser entendida de pelo menos dois jeitos diferentes), as irmãs Rossana, Renata e Regina Camargo, felizes herdeiras da construtora fundada pelo pai, Sebastião, ultrapassaram a família germânico-baiana na “Forbes”. Cada uma tem US$ 3,1 bilhões para chamar de seus. E eu aqui achando a passagem de ônibus cara.

    A Ditadura Militar foi um período dourado para as grandes construtoras, em especial para a Camargo Corrêa e a Odebrecht. Era uma maravilha, naquele tempo que era bom: contratações governamentais sem licitação, nenhum órgão de controle, nenhuma agência fiscalizadora, transparência zero, autonomia zero para a Polícia Federal investigar, nacionalismo dos ditadores privilegiando “o empresário nacional”, grandes obras a rodo. Reinavam os compadrios entre os poderosos de dentro do governo e os donos das construtoras, trocando favores uns com os outros.

    O esquema básico é simples de entender: as construtoras dão um pouco de dinheiro aos poderosos, em troca os poderosos mandam um caminhão de dinheiro público para as construtoras. Dinheiro público, no caso, significa o meu e o seu dinheiro. O que me faz pensar que bobos da corte mesmo somos nós. E ainda por cima ganhamos mal pela função.

    Esse esquema floresceu na Ditadura, como eu disse, mas já vigorava antes dela, nos tempos de JK. O cara gostava de uma obrinha, você sabe. Foi com a construção de Brasília, no final dos anos 1950, que as mega-obras viraram rotina no Brasil. Foi aí que pela primeira vez as grandes construtoras se reuniram e montaram o cartel que mordeu grande parte do PIB brasileiro nos últimos 60 anos (história bem contada na excelente reportagem As Quatro Irmãs, da Agência Pública).

    De lá para cá, pelo menos três repúblicas nasceram e morreram – a república liberal populista de JK, a ditadura dos generais, os avanços institucionais e a democracia de coalizão. A história da República brasileira é cheia de turbulências: nenhuma fase tem vida muito longa. Desde que o Marechal Deodoro montou num cavalo baio e proclamou a República, em 1889, só cinco presidentes eleitos pelo voto popular terminaram seu mandato. Vira e mexe nossas frágeis instituições são chacoalhadas por crises terríveis e mudam em sua essência, às vezes para melhor, às vezes para pior. É de se esperar que estejamos à beira de mais uma grande mudança dessas. Um novo período de nossa República tende a começar em breve, diante da falência evidente do nosso sistema político atual.

    Mas, em contraste com a constante tempestade que agita nossa história republicana, a aristocracia que concentra o PIB permanece notavelmente estável. As famílias que comandam as grandes construtoras, por exemplo, têm sido basicamente as mesmas desde os tempos de Juscelino – cujo líder no Congresso era irmão dos donos da Andrade Gutierrez. São elas – sempre elas – que mordem um naco gigantesco do orçamento federal. O que significa dizer que elas ficam com grande parte de toda a riqueza que circula no Brasil, faz 60 anos.

    A favor de Marcelo Odebrecht, há que se reconhecer que os donos das construtoras realmente não se comportam em público como reis. Sua postura é quase de serviçais. Em boa parte daquelas fotos “de autoridades”, que ilustram as capas dos jornais mostrando o presidente assinando alguma coisa importante – Juscelino, Jânio, Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo, Collor, Sarney, Itamar, FHC, Lula, Dilma – há, entre os sujeitos engravatados ao fundo, algum dono de construtora, quase sempre das mesmas famílias. Eles andam atrás de quem tem poder, anotando pedidos. Uma capital? Pois não. Ponte entre Rio e Niterói? Opa, é prá já. Um estádio para o seu time? Vai, Corinthians! Cabem aos políticos os holofotes, o empreiteiro fica com as sombras. E a grana.

    Pelo que li no blog do Bruno Carazza, que mergulhou nos números, a delação premiada da Odebrecht saiu uma pechincha para a empresa. Por R$ 7 bilhões, a construtora limpou sua ficha e logo vai poder voltar a trabalhar para o governo. Não que sete bilhõezinhos sejam troco, mas estamos falando de uma empresa que faturou R$ 132 bi de receitas em 2015. Hoje as coisas estão meio paradas, mas até o ano retrasado a construtora faturava R$ 7 bi numa quinzena boa. A crise atual talvez até devaste a política, mas pode ser que preserve intocada a monarquia que há décadas floresce à sua sombra.

    Para mim, o Brasil precisa responder algumas perguntas cruciais ao longo dos próximos anos, enquanto supera esta crise e cria um modelo novo, depois que o desastroso governo Temer finalmente terminar. Como fazer com que a próxima república seja estável e gere oportunidades para todo mundo, não só para meia dúzia de famílias? Como dar estabilidade à democracia e, ao mesmo tempo, criar um mercado dinâmico o suficiente para ser convidativo para os pequenos e os inovadores? Por enquanto, não vi ninguém no centro do sistema político dar uma resposta realmente interessante a nenhuma dessas questões.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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