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Coluna

Os presentes do Estado ao Crime

    O crime organizado tem tanto poder no Brasil porque ganha de bandeja do Estado o monopólio sem fiscalização de um mercado lucrativo e um sistema grátis de recrutamento e formação de soldados, as prisões

    O roteiro é tão manjado que dá para prever o que vai acontecer em seguida.

    Acontece o horror, as cenas tétricas, a descida ao inferno. Um monte de mortos. A maioria de nós, ocupados com a tarefa suficientemente dura de tocar nossas próprias vidas nesses tempos difíceis, prefere nem ficar sabendo dos detalhes.

    Logo aparecem os políticos, responsáveis pelo Estado que permitiu tal horror. Falarão com firmeza, olhando a câmera nos olhos, garantindo que têm pleno controle da situação, que não nos preocupemos  com nada. Talvez algum deles, mais bonachão, dê uma piscadinha, e solte uma piadinha, “tinha que fazer uma chacina por semana”, ou algo assim. Desinformados, rimos amarelo.

    O plano dos políticos em resposta ao horror será abrir mais presídios, para poder prender mais gente.

    E aí mais e mais brasileiros cairão nos pegajosos tentáculos do sistema prisional do país, o inferno na terra, completamente abandonado pelo Estado. Lá chegando, esses presos, geralmente pequenos ladrões e, principalmente, funcionários subalternos do tráfico, serão recrutados para servir às fileiras do crime organizado no Brasil. Violentados pelo Estado e acolhidos pela máfia, terão uma escolha fácil. Quanto mais gente é presa, mais poder o PCC e o CV têm.

    Mas quem lucra de verdade com esse nosso sistema é o crime organizado, que ganha de presente do Estado um sistema de recrutamento e formação inteiramente grátis

    O sistema prisional brasileiro é a mais bem sucedida universidade brasileira. Forma milhões de funcionários do crime organizado, que se dedicarão ao um dos negócios mais lucrativos do país, nesses tempos de crise: vender substâncias proibidas pelo Estado. Quanto mais gente é presa, mais traficantes vão disputar o centímetro quadrado de território para vender drogas. Natural que esbarrem cada vez uns mais nos outros e que tudo fique cada vez violento.

    Não fica ruim para todo mundo. Enquanto o Brasil inteiro sofre com a crise financeira, alguns setores não têm nada do que reclamar. Os construtores e operadores de presídios vão muitíssimo bem, obrigado. Fabricantes de arma também geralmente gostam de um ambiente que beira a guerra civil. Ah, e certamente não falta trabalho para advogados que representam acusados de envolvimento com o crime organizado, como o hoje ministro da Justiça, Alexandre de Moraes.

    Mas quem lucra de verdade com esse nosso sistema é o crime organizado, que ganha de presente do Estado um sistema de recrutamento e formação inteiramente grátis. Sem falar no monopólio de um mercado grande e que cresce, algo que ninguém mais no Brasil tem. E não precisam nem se preocupar com a CLT, cortesia da proibição.

    A cada vez que o horror ocorre, praticamente todos os especialistas dirão o óbvio: prender mais não adianta. Só vai espalhar mais sangue e drogas. Dirão que o que é necessário é repensar o sistema, para que o Estado recupere o controle que loteou à máfia. Mostrarão soluções simples, lógicas e baratas: por exemplo, soltar hoje mesmo todos os inocentes, que são incríveis 20% dos presos.

    E, o mais óbvio: fechar a torneira de dinheiro que financia o PCC e o CV. Tirar deles o monopólio do mercado de drogas, cortando assim a verba que hoje compra as armas que transformam o Brasil num dos países mais violentos do mundo. No dia em que as drogas forem legalizadas, o PCC e o CV estarão na roubada.

    Mas será que o ministro da Justiça, que inclusive advogava frequentemente para uma cooperativa de transportes acusada de ser fachada para lavar dinheiro para o PCC, quer que isso aconteça?

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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