Coluna

Olha o golpe aí. E não estou nem falando do impeachment

    Não dá mais para negar que tem um golpe em curso. Só que não é aquele que você está pensando

    Esta semana foi decisiva no eletrizante enredo do drama político brasileiro, de fazer inveja aos roteiristas de “Game of Thrones” (nem vou mencionar “House of Cards”, que virou coisa de amador). Como acontece nas melhores séries gringas da TV, peças que pareciam tremendamente distantes no tabuleiro começaram subitamente a se mover de maneira sincronizada, rumo a um desfecho chocante, inesperado. E trágico.

    De um lado, tudo indica que o novo juiz do Supremo será mesmo um político amante do poder, umbilicalmente ligado ao PSDB e ao PMDB, com reputação de ser um soldado, desses que fazem o que precisa ser feito. Alexandre de Moraes não é o primeiro ministro do Supremo com forte conexão a um partido político. Gilmar Mendes trabalhou no governo de FHC e é obviamente próximo do PSDB, Dias Toffoli foi advogado do PT antes de trabalhar no governo Lula. Ambos são frequentemente acusados de fazer jogo partidário dentro do principal tribunal da Justiça brasileira – em geral um em oposição ao outro. O interessante é que Moraes, segundo apurou o Radar, da Veja, parece ter chegado ao cargo graças à articulação de ambos nos bastidores – Gilmar e Toffoli trabalharam juntos para escolher o novo colega. Indício de que as cúpulas dos arquirrivais PT e PSDB, assim como o pivô da discórdia entre eles, o PMDB, parecem estar alinhados, pelo menos em alguma coisa.

    Outro indício vem da Câmara dos Deputados, onde uma ampla articulação de praticamente todos os partidos – PT, PSDB e PMDB incluídos – prepara-se para usurpar o poder do Tribunal Superior Eleitoral. Nas palavras do colunista Josias de Sousa, o que os políticos estão prestes a conseguir é uma “licença para assaltar dinheiro público”. Simplesmente, os partidos ficariam blindados de punição, desobrigados de prestar contas dos bilhões de reais que recebem do Fundo Partidário, bancado pelo contribuinte. Enquanto isso, no Senado, um presidente com fortes suspeitas de corrupção é substituído por outro com fortes suspeitas de corrupção, numa clara demonstração de que nada está mudando e que Moraes não precisa se preocupar – vai ser mesmo confirmado como ministro.

    Junte a esse cenário a continuidade da gastança dos políticos – que fica intocada diante de uma estratégia de enfrentar a crise econômica apenas com a redução dos gastos sociais – e o enfraquecimento dos órgãos de controladoria e das agências que defendem o interesse público. Acrescente ainda as tentativas de eliminar da Matrix todos os partidos que não fazem parte do esquema (que já são pouquíssimos), pela imposição da cláusula de barreira. Aí fica difícil negar que tem um golpe em curso: um golpe perpetrado pela elite da classe política e pelos seus financiadores, contra o resto de nós.

    O golpe passa por um ataque brutal contra nossos recursos naturais, nossa diversidade cultural, nossos direitos humanos e o potencial de nossas crianças. Ao enfraquecer agências de controle, desprezar salvaguardas e direitos, relativizar a proteção da Constituição e sucatear saúde e educação, a classe política enche sua pança e a de seus aliados ao custo de devorar nosso futuro.

    a cada dia fica mais claro que as famílias de camisa amarela, os jovens de camisa vermelha e a turma de roupa colorida são todos vítimas desse golpe

    O golpe em curso não é da direita sobre a esquerda, nem vice-versa: é um golpe do sistema todo, tentando se perpetuar, sobre as pessoas. Não é, tampouco, uma questão meramente moral: é um colapso sistêmico que precisa ser enfrentado pela sociedade inteira, com coragem.

    O problema é que boa parte da população ainda não está nem enxergando a treta. Uns dormem tranquilos, convictos de que o pior já passou, com a queda de Dilma e o esfarelamento do PT. Outros estão ocupados demais denunciando a ilegalidade do impeachment de Dilma, ocorrido no ano passado, e não percebem que o tal “golpe” é muito mais amplo do que a derrubada de sua presidenta – ele começou bem antes disso, ainda com ela à frente, e segue se aprofundando com apoio de parte do próprio PT.

    E isso nem é tudo. Da mesma maneira que os heróis e vilões se engalfinham em “Game of Thrones” sem nem se lembrar dos mortos-vivos que podem surgir a qualquer momento, talvez a maior ameaça que nos aguarda nem esteja no centro do palco hoje. Com a falência da reputação de todos os grandes partidos políticos brasileiros, vai ganhando força uma narrativa simplista e violenta, que decreta guerra à política tradicional e aposta todas as fichas num salvador da pátria intolerante, ao estilo fascista. Bolsonaro tem atraído multidões cada vez maiores por onde passa, apesar de estar absolutamente claro que suas ideias toscas só piorariam nossos problemas, como está acontecendo no Reino Unido e nos Estados Unidos. Enfim, o quadro é tão sombrio quanto é possível ser.

    Resta torcer para que aquilo a que estamos assistindo não seja o final da série, mas apenas um season finale dramático – deprimente sim, mas a história não acabou ainda, esperemos a próxima temporada. Fosse mesmo um seriado dos bons, este seria o momento em que os mocinhos, encurralados, acabam descobrindo aliados onde menos esperavam, e encontrando uma saída que parecia impossível.

    Para mim, a cada dia fica mais claro que as famílias que protestavam contra a corrupção de camisa amarela e os jovens que apanhavam da polícia de camisa vermelha, sem falar na turma de roupa colorida que vem desde 2013 exigindo serviços públicos decentes, são todos vítimas desse golpe. E, a essa altura do drama, à parte os raros gatos pingados que sobreviveram íntegros no meio de um sistema podre, eles só têm uns aos outros. Afinal, diferenças ideológicas à parte, acho que podemos todos tolerar viver num país sem corrupção, com Estado que não nos espanque e serviços públicos de qualidade, não? O único jeito de parar esse golpe é gritarmos todos juntos e exigirmos uma nova forma de representação, diante da obviedade de que a maioria de nós não está sendo representada. Se não for isso, é bom começar a se acostumar com o som da expressão “presidente Bolsonaro”.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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