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Coluna

O que vai sair do caldeirão da política brasileira?

    A boa notícia é que tem coisas surgindo, mesmo que embrionárias. Coisas que saem dos extremos e tentam silenciar a histeria dualista com possibilidades reais de atualizar a política brasileira

    Eu sou um órfão político em meu próprio país. Há algum tempo. Você pode ser outro também.

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    Durante minha faculdade, eu era chamado de PSTU de manhã na Fundação Getulio Vargas e de PFL (antigo DEM) à noite na FFLCH/USP. Voltava para o Sul de Minas Gerais, de onde sou, e era chamado de petista. Ou tucano.

    Sempre convivi com os dualismos, tranquilamente. 

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    Votei no FHC e no Lula. Vi o Brasil, uma vez tomado pela hegemonia inflacionária, melhorar de vida, enriquecer-se e distribuir renda. Vi o Brasil, ingenuamente, achar que tinha ficado rico, antes de dar sinais de desenvolvimento. Vi o Brasil quebrar econômica e politicamente mais uma vez. Vi os posts dos raivosos e a vitória cotidiana da política simplista. Vi que o brasileiro, independentemente do viés ideológico, é apegado ao populismo – nossa cultura política é rasa como os espelhos d’água do Congresso Nacional.

    Vi muita coisa, mas, já faz algum tempo, sou tomado por uma profunda preocupação com o futuro do Brasil – e de como desperdiçamos oportunidades. Quando olho pra fora da janela, não vejo nada que possa melhorar substancialmente o país após 2018. Neste caldeirão de incertezas e de perplexidades, a solução para o futuro do Brasil não está no debate esquerda x direita, PT x PSDB, petralhas x coxinhas ou Fla x Flu.

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    O software que opera a política brasileira parou.

    A boa notícia é que tem coisas surgindo, mesmo que embrionárias. Coisas que saem dos extremos e tentam silenciar a histeria dualista com possibilidades reais de atualizar a política brasileira. Um centro progressista plural que acredita que a política não se faz com mágica (como os populistas vendem), mas com ciência (pois não existe mágica) e compromisso com os valores humanistas.

    O Nexo apresentou alguns desses movimentos no último domingo, tais como o Agora!, Acredito, Brasil 21 e Nova Democracia.

    Isso é uma parte importante do caminho.

    (Para deixar claro, sou cofundador do Agora! e tenho muitos amigos atuando nos demais movimentos. Sou, também, fundador do movimento socialdemocrata Onda Azul e contribui para o ainda incipiente Vem Pra Rua durante as eleições presidenciais de 2014.)

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    O engajamento da sociedade traz esperança, mas ainda traz dúvidas se será suficiente. Antes de entrar no mérito da questão, lembro que para tocar o impossível é preciso delimitar as fronteiras das possibilidades.

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    O primeiro inimigo desses movimentos são eles mesmos. A divisão só os enfraquece antes de se fortalecerem.

    O tempo está contra a renovação na política brasileira. Para a (fundamental) eleição de 2018, estão todos atrasados. Quem é conhecido? Quem financiará campanha sem recursos empresariais? Mesmo se conseguirem recursos de pessoas físicas, irão “comprar” votos, como a grande maioria faz hoje? Irão abrir mão da ética pela eleição?

    Ninguém entra numa eleição sem partido político. Não tem mudança sem ser eleito. Como ninguém gosta de partido político, a pergunta é: qual partido? Quem se filiará até 2 de abril de 2018? Terá legenda? O partido usará sua estrutura para ajudar os candidatos dos movimentos? Pelo que tenho visto, os partidos que serão mais abertos a tais movimentos são Livres (o novo nome do PSL), Rede e Novo. Claro, nenhum tem nome de partido. 

    Haverá efeito Tiririca? Sem tempo e sem dinheiro, candidaturas mais viáveis eleitoralmente tendem a ser de pessoas já conhecidas ou que terão mais facilidade de burlar o sistema eleitoral.

    O desafio de integrar de forma orgânica diferentes segmentos da sociedade e Estados do Brasil é diretamente proporcional à nossa desigualdade de renda e regional. Como fazer?

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    Posso estar errado, mas realmente acho que a presidência em 2018 não será vencida por nenhum cacique tradicional da política brasileira. Mas eles ainda terão muito poder nos Estados e nos parlamentos estaduais e federal.

    Mesmo discordando dos métodos e das ideias, não dá para não dizer que o poder de comunicação de Doria não mudou a cabeça do político médio. E da população, de certa forma. Luciano Huck saiu do Caldeirão e foi à Folha dizer que está na hora da geração dele (ou nossa, eu diria) exercer os cargos de comando do Brasil. Não posso discordar, pois disse isso ao Nexo no ano passado. A reputação ilibada de Marina Silva a coloca numa situação privilegiada no atual momento político. Fernando Haddad poderia ser uma alternativa do PT, mas perdeu a prefeitura de São Paulo.

    Digo isso porque se tais movimentos querem fazer a diferença na política brasileira terão que entrar de cabeça no debate eleitoral de 2018. E se posicionarem.

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    Admito que é difícil acreditar em muita coisa no atual momento do Brasil. É justamente por isso que acredito que esses novos movimentos democráticos são fundamentais para o futuro do país. Afinal, só se conserta a política na política.

    Como disse, o tempo é curto. Eu acredito que não há como construir um movimento relevante para mudar qualitativamente a política brasileira sem união. Mesmo que haja diferenças, é hora de concordar com o rumo a seguir.

    Por isso, acho que esses movimentos precisam se reunir para acordar um projeto que tire a política brasileira do buraco e negociar uma agenda de atuação coordenada. Não seria inteligente cometer os mesmos erros que os partidos tradicionais cometem. Não seria prudente seguir a mesma toada do esmorecimento que os movimentos pró-impeachment viram na última manifestação.

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    Talvez seja a hora de trabalhar para um futuro mais próspero. Pensar mais no coletivo e também ceder em algumas crenças individuais por um projeto negociado. Convergir e agir, sem perder tempo. Seguir em frente.

     

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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