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Coluna

O que as pessoas acham e o que as pessoas fazem

    Eu acho que… Espera, o que importa o que eu acho?

    Pessoas têm as mais diversas opiniões. Umas são de direita, outras de esquerda. Uns acreditam em disco voador, outros em espírito, uns em horóscopo, outros em propaganda. Uns adoram jornal, outros curtem cinema, uns preferem sexo, outros televisão. Há quem torça pelo Corinthians, há quem tenha menos sorte. Opiniões são importantes – elas é que, em grande medida, definem nossa identidade.

    Mas tem uma coisa mais importante do que aquilo que as pessoas acham, que é aquilo que elas fazem. Elas salvam a vida de alguém, se a oportunidade surge? Elas cuidam das crianças, dedicam-se aos amigos, prestam atenção nos outros? Elas levam nossa carteira, se esquecemos em cima da mesa? Elas ouvem? Elas abusam? Elas respeitam? Elas enganam? Elas trabalham com dedicação, com cuidado, com paixão? Isso é mais importante do que suas opiniões, não é?

    O problema é que vivemos num mundo em que há uma quantidade brutal de informação sobre o que as pessoas acham, e quase nunca temos tempo para saber o que elas fazem de verdade. E, por causa de um bug que nós temos no cérebro, acabamos confundindo uma coisa com a outra: se alguém pensa algo diferente daquilo que pensamos, nos convencemos de que esse alguém é  burro, ou canalha.

    O especialista em comportamento humano Daniel Kahneman foi um dos cientistas que detectaram esse bug, que ele apelidou de efeito Wysiati, acrônimo de “What You See Is All There Is” (“o que você vê é tudo”). Ele fez um monte de pesquisas com voluntários que mostravam que, quando você só sabe uma coisa sobre alguém, essa coisa única vai servir de base para seu cérebro inventar toda uma história para todos os aspectos da vida de uma pessoa. Tipo se você não gosta do time de futebol dele, já conclui que o sujeito é um crápula pedófilo psicopata fascista incapaz.

    Neste mundo de hoje, em que há uma diversidade de opiniões quase infinita, é certeza que meio que não existe praticamente ninguém que concorde com você em tudo. O problema é que, no mundo das redes sociais, cada uma dessas mínimas discordâncias pode virar um ódio profundo.

    Fiquei pensando nisso na semana passada, quando assisti a este curioso vídeo.

    Não sei se você notou, mas o velhote simpático de terno que entrega o diploma para o Sakamoto e depois sorri abraçado com ele é o Rex Tillerson, secretário de Estado do Trump, ex-CEO da Exxon-Mobile, ícone do capitalismo conservador. À direita, claro, está a filha do presidente dos Estados Unidos, Ivanka Trump, aquela moça linda e paciente. Sakamoto foi encontrá-los para receber deles o título de “herói no combate à escravidão”, concedido para ele e para outras sete pessoas do mundo todo pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, país que apóia a causa antiescravista.

    Acho que todo mundo conhece Sakamoto, mais do que tudo por suas opiniões, que quase sempre se inclinam para a esquerda. Ele é colunista do UOL, e quase todo dia ele dá pitaco lá sobre a conjuntura política. Por causa dessas opiniões, ele é odiado do fundo do coração por boa parte da direita brasileira.

    Mas o trabalho independente de investigação que ele faz é muito mais relevante que suas opiniões, como aliás reconheceu o Departamento de Estado americano. Deveríamos ser capazes de enxergar isso, porque é importante para todo mundo, de esquerda ou de direita, que não haja escravidão. Alguém discorda disso? Parece que nem mesmo o Rex Tillerson ou a Ivanka Trump.

    Curioso é que há gente com interesses bem inconfessáveis pegando carona nesse fenômeno. Uma das empresas que foi afetada pelo trabalho de Sakamoto foi a JBS, que ele revelou que comprava carne de produtores que utilizavam trabalho análogo à escravidão. Pois, como vingança, a JBS começou a comprar clandestinamente anúncios no Google para disseminar mentiras sobre Sakamoto – como descobriu-se graças a uma ordem judicial. Muita gente que jamais confiaria na JBS para nada ajuda a disseminar os boatos que a empresa inventa, porque odeia o Sakamoto ainda mais, graças a suas opiniões.

    Não que a esquerda não cometa o mesmo pecado na hora de julgar direitistas que fazem bem o seu trabalho ou conduzem bem sua vida. Bem aplicado, um rótulo como “fascista”, “golpista” ou “coxinha” muitas vezes acaba colando em gente boa, respeitosa, dedicada, que nunca foi autoritária ou preconceituosa, mas que apoiou conceitualmente algo que alguém da esquerda ache odiável. Também nesses casos, o efeito Wysiati faz com que uma mera discordância contamine toda a percepção sobre uma pessoa.

    Esse ódio à opinião diversa me parece ser hoje uma grande força conservadora no mundo. Estamos vivendo uma crise profunda de paradigmas, mas ninguém mais quer dar ideia original sobre nada, por medo de alguém discordar e concluir que o sujeito é Hitler por causa de uma opinião.

    Além disso, o efeito Wysiati cria condições para que nos manipulem. Está cheio de gente por aí dizendo o que os outros querem ouvir, enquanto faz o contrário, e ninguém parece se importar.

    Para mim o caso mais interessante é o de Jair Bolsonaro. Bolsonaro entrou para a vida pública no papel de uma espécie de sindicalista, que representava os militares de baixa patente, em 1986. Insatisfeito com os baixos salários da tropa, ele reclamou em público sem consultar a hierarquia. O mais assustador é que foram encontrados planos, aparentemente produzidos por ele, para explodir bombas-relógio no quartel (um laudo da Polícia Federal confirmou que os rascunhos dos planos eram de autoria dele, mas ele nega e outros laudos foram inconclusivos). Bolsonaro acabou detido por indisciplina e deslealdade com seus superiores – talvez em outro país fosse acusado de traição – e saiu do Exército em 1988, para virar político.

    Interessante é que, a partir daí, o cara construiu nas redes sociais uma persona que é meio que o contrário daquilo que ele realmente havia feito até então. Com um discurso de ódio no qual ele ridiculariza sindicalistas, gente insubmissa, indisciplinada ou antipatriótica e políticos profissionais, ele conseguiu angariar apoio entre gente que concorda com o que ele diz. E essas pessoas ou não sabem ou não se importam com o que ele realmente fez, que está em flagrante contradição com tudo isso.

    Para mim está bem claro que só teremos alguma chance de um dia viver numa sociedade saudável se as pessoas entre nós que fazem coisas boas e fazem bem as coisas tornarem-se capazes de trabalhar juntas, apesar de suas diferenças de opinião. Só haverá resposta para os problemas profundos dos nossos tempos quando aprendermos a somar nossas perspectivas em algo que nenhum de nós sozinhos seria capaz de conceber. A opinião de cada um de nós é importante, claro, mas apenas como parte de uma realidade muito mais ampla e multifacetada, que só conseguiremos apreender no dia em que estivermos dispostos a aprender com a opinião alheia. Temos que achar menos e fazer mais.

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    Aliás, alguém aí percebeu a contradição fundamental deste texto que terminou no parágrafo anterior? Eu aqui, colunista, “autor de opinião”, dizendo que a gente tem que ficar achando menos. Sendo que meu trabalho aqui no Nexo é basicamente esse: achar.

    Quero então aproveitar para contar que, a partir de hoje, a periodicidade desta coluna vai se espaçar: passa a ser quinzenal, em vez de semanal. Mudo para conseguir me dedicar a alguns projetos grandes, inclusive um livro, sobre o qual conto mais um dia desses. E para ter tempo de acumular informação mais concreta entre uma coluna e outra: algo que vá além de minha opinião.

    Retomarei a periodicidade semanal assim que conseguir.

    ESTAVA ERRADO: a primeira versão deste texto dizia que Ivanka Trump é a primeira-dama dos Estados Unidos. Ela é, na verdade, filha do presidente Donald Trump. A informação foi corrigida no dia 21 de julho de 2017 às 11h23.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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