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Coluna

O país traumatizado e a pessoa errada

    O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Compreensivelmente, quer um governante capaz de mudar isso. Não poderia haver alguém pior que Bolsonaro

    O Brasil é assustadoramente violento. A cada ano, 60 mil pessoas são assassinadas por aqui – mais do que em qualquer outro país, 10% de todos os homicídios cometidos sobre a Terra. Incríveis 50 milhões de brasileiros acima de 16 anos – mais do que um terço de todos nós – conheceu de perto alguém que já foi morto por outro alguém.

    Para piorar, homicídio é praticamente legalizado no país. Só 8% dos crimes letais são desvendados, e nem metade disso termina em punição. O Brasil, cujas cadeias estão entre as mais lotadas do mundo, encarcera a valer ladrões de galinha e pequenos traficantes, mas quase nunca um homicida é preso, porque nossa polícia é incapaz de investigar, de tão ocupada que está reprimindo. Não só somos um país tremendamente violento, mas essa violência é quase inteiramente impune.

    Esses números são horripilantes. Compreensivelmente, eles deixam a população apavorada. Uma porcentagem enorme dos brasileiros tem ansiedade, fobia, estresse pós-traumático – distúrbios psiquiátricos comuns em pessoas que sofreram traumas. Segundo um grande estudo da Organização Mundial da Saúde liderado pela Universidade Harvard, comparando diversas grandes cidades do mundo, São Paulo é recordista mundial em doenças mentais, e certamente outras grandes cidades brasileiras não ficam atrás. Somos um país doente de medo.

    O medo é produzido por uma pequena estrutura do cérebro parecida com uma amêndoa e por isso batizada com seu nome latino: amygdala. A amygdala é um troço tão primitivo que existe no cérebro de lagartos, lulas e galinhas. É rudimentar, incapaz de raciocínios muito complexos. Quando algo nos dá medo, a amygdala dispara muito rápido e silencia nosso córtex cerebral – a área nobre do raciocínio. Em outras palavras: medo nos deixa irracionais.

    É natural que alguém com muito medo queira se sentir protegido, ainda mais num momento de desordem extrema. A evolução nos ensinou a, quando assustados e indefesos, buscarmos figuras que emanem força, segurança.

    Acho que esse fato  ajuda a entender por que parte da população deste país assustado acha que é uma boa ideia eleger o deputado Jair Bolsonaro como presidente. Afinal, é alguém que nos diz, com convicção, que, se for presidente, vai colocar ordem no Brasil e acabar com a violência, sufocando-a com mais violência.

    O problema é que não poderia haver alguém menos indicado para esse trabalho. Bolsonaro, embora aparente saber o que diz, é um completo incompetente, um político incapaz. Difícil lembrar de algum que ao longo da carreira tenha conseguido realizar tão ridiculamente pouco: em 26 anos de Congresso, ele só conseguiu convencer seus pares de que suas ideias mereciam virar lei duas únicas vezes.

    Ele é, também, um advogado de causa própria. A grande maioria dos projetos que redigiu foram leis corporativas, criadas para aumentar os benefícios de sua própria classe profissional, a dos militares. Por exemplo, um projeto solicitava ao Estado que pagasse parte das mensalidades escolares de filhos de milicos, inclusive de seus próprios.

    Mas o pior não é isso. O mais irônico é que esse político, que está sendo visto como alguém que pode trazer ordem ao país, é inquestionavelmente um baderneiro. Bolsonaro fez seu nome fazendo desordem, de um jeito inacreditável.

    Ele estreou na vida pública no final dos anos 1980, quando era capitão do Exército, o Brasil estava mergulhado em hiperinflação e os salários dos militares estavam defasados. Foi nesse momento que, desrespeitando a hierarquia do Exército, publicou um artigo na Veja para reclamar e pedir aumento. Na época, ele escreveu que um homem que dedica os melhores anos de sua vida à carreira militar “não pode simplesmente pensar em patriotismo – como querem muitos – quando não pode sequer sonhar em constituir condignamente uma família”.

    A partir daí, virou uma espécie de líder sindical clandestino dos militares – clandestino porque militares, por lei, não têm sindicatos nem podem fazer greve. Sua estratégia era a da bagunça. Em 1987, uma repórter da mesma Veja descobriu que o capitão Bolsonaro tinha um plano de explodir bombas em quartéis para gerar caos e desestabilizar o governo, forçando-o a conceder o aumento que ele queria. Segundo a revista, Bolsonaro confessou o plano para a repórter, mas a ameaçou, caso ela publicasse. Ela publicou. (Bolsonaro depois negou tudo.)

    Uma confissão de conspiração terrorista seria suficiente para uma condenação por traição em boa parte do mundo – e para um fuzilamento em países menos ciosos dos direitos humanos que Bolsonaro quer suprimir. Mas o capitão viu uma saída: deixou o Exército e no ano seguinte elegeu-se vereador pelo Rio de Janeiro, onde se especializou em defender mamatas. De lá para cá, vive bem, fartando-se nas generosas tetas do Estado, ganhando como legislador, mas sem quase nunca legislar.

    Se foi um parlamentar ineficaz, teve muito sucesso como falastrão. Passou três décadas provocando esquerdistas, gays, mulheres. Mau legislador, revelou-se um gênio como bagunceiro. Sua especialidade é o bullying: fala coisas ultrajantes que ninguém julgava possíveis de serem ditas em público. Ganhou popularidade não pelo que fez – praticamente nada –, mas pelo que falou. E não por ter falado coisas certas, mas por ofender com agressividade, o que faz sucesso nestes nossos tempos de raiva e frustração.

    De uns anos para cá, sentindo que o Brasil estava apavorado com a violência, Bolsonaro resolveu mudar seus interesses: passou a falar cada vez mais sobre segurança pública. E a falar o que as pessoas queriam ouvir: que exterminaria os bandidos. Mês passado, por exemplo, disse que, quando for presidente, muita coisa vai mudar. “Se eu chegar lá, soldado meu que vai para a guerra não senta no banco dos réus”, disse. “Se o Estado bota uma arma na cintura de vocês ou um fuzil no peito, é para usá-lo. E, uma vez usando, você responde e não tem punição.” Em outras palavras, ele prometeu impunidade total a qualquer policial que matar no exercício de seu trabalho.

    Como se precisasse. A polícia brasileira já é, de longe, a que mais mata no mundo – mais de 3.000 pessoas por ano – e já tem impunidade praticamente completa. É quase impossível um policial ser punido depois de matar alguém: apenas 4% dos policiais que matam são sequer indiciados – e quase nenhum é condenado.

    O que Bolsonaro prometeu é que, se ele for eleito, os policiais estarão acima da lei – que eles poderão fazer o que quiserem sem jamais temerem ser punidos. Ele disse isso neste país onde já é rotina a polícia descumprir a lei e desrespeitar a vida. Por exemplo, atirar mesmo sem que haja uma ameaça, como aconteceu com uma turista espanhola esta semana no Rio de Janeiro ou alguns meses atrás com um carroceiro desarmado em São Paulo. É rotina nas grandes cidades brasileiros que o agente do Estado dispare tiros sem nenhum cuidado, e é bem comum que esses tiros acabem dentro de gente inocente, inclusive crianças. Só no Rio, a polícia mata três pessoas a cada dia.

    Não estou aqui demonizando a polícia – há muitos bons policiais. Mas é óbvio que, num país traumatizado, com policiais traumatizados, num clima de impunidade completa e medo sem fim, fica dado o incentivo para que se atire antes e se pense depois – muita amygdala, pouco córtex. E isso só serve para deixar todo mundo mais apavorado e violento.

    O que Bolsonaro está prometendo é mais baderna e mais violência. É mais ressentimento, mais vingança, mais balas zunindo Brasil afora. Mais morte, mais homicídios. Ele está prometendo o inferno para policiais honestos e bons servidores, que acabam assassinados em vingança pelos atos cometidos por colegas psicopatas ou traumatizados que jamais são punidos (e o Brasil é também o país onde mais policiais são assassinados no mundo). É o contrário do que precisamos. Ele deveria ser preso, não eleito.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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