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Coluna

O fim do PSDB (ou, no mínimo, o das ilusões)

    A não ser que se feche os olhos com muita força, ficou impossível defender o partido

    Não faz nem um ano, a mídia e a internet estavam cheias de gente anunciando o fim do PT. Naquela época – parece que foi séculos atrás –, o partido de Lula estava no centro da crise política (aliás, muitos sustentavam que ele era a crise política). Sua imagem havia sido devastada pelas delações do senador Delcídio do Amaral, detido em novembro de 2015, e a Operação Lava Jato ia fazendo o teto desabar sobre o partido. Junte a esse quadro de descalabro a decepção do seu próprio eleitorado, que lhe havia dado a vitória em 2014, na eleição para presidente, apenas para ser traído em seguida, quando Dilma montou um ministério que significava o exato oposto de tudo que foi prometido em campanha. Com seus inimigos furiosos e seus amigos desapontados, o PT perdeu mais do que votos: perdeu a narrativa que justificava sua existência. Ficou basicamente impossível defender o Partido dos Trabalhadores, a não ser fechando os olhos para a realidade com muita força.

    Pois, para mim, parece bem claro que hoje é o PSDB que está nesse mesmíssimo lugar. E que, se um ano atrás a conversa era sobre “o fim do PT”, faz sentido discutir agora “o fim do PSDB”. Após o presidente do partido ter sido flagrado falando como um mafioso ao telefone, conversando com naturalidade sobre matar delatores e apanhar malas de dinheiro, o discurso anticorrupção que havia feito tanto sucesso com candidatos tucanos na eleição de 2016, na qual o PT foi o maior perdedor, ficou meio prejudicado. Com as novas delações, como a da Odebrecht e da JBS, ficou claro que a corrupção está tão entranhada no PSDB quanto está no PT. Aí, nesta semana, o partido traiu praticamente todo o seu eleitorado e resolveu continuar apoiando o “inapoiável” governo Temer. Ficou impossível defender o PSDB, a não ser fechando os olhos com muita força.

    Não que falte gente por aí fechando os olhos com muita força, insistindo em defender tanto um quanto o outro. O clima polarizado favorece a autoilusão: defende-se um só porque é o único jeito de derrotar o outro, que é o mal absoluto. Mas é preciso reconhecer que esses dois partidos que balizaram a política brasileira nas últimas três décadas vivem as maiores crises existenciais de sua história.

    Não é exclusividade deles. Muito longe disso, aliás. A lama se espalhou por praticamente todo o sistema partidário. Nem menciono aqui PMDB, DEM, PP ou os micropartidos de aluguel, porque faz tempo que ninguém espera muito deles. Mas o fato é que as delações da Lava Jato pintam um quadro bem mais complexo do que muita gente supunha um ano atrás. A distribuição de propina pelo sistema político claramente não se concentra em partido algum: ela se dá de maneira bastante equânime, com a quantidade de dinheiro ilegal recebido variando na mesma proporção que a quantidade de poder que cada partido tem.

    A desmoralização, aliás, não se limita aos partidos. O Poder Judiciário, que vinha passando mais ou menos incólume diante da opinião pública, também está na berlinda agora. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que é o órgão responsável por fiscalizar eleições, saiu humilhado daquele que pode ter sido o caso mais importante de sua história, encerrado na semana passada. Ao escolher fechar os olhos para provas que não interessavam, o tribunal, distorcido por juízes indicados pelo próprio réu, tentou normalizar a situação do país, governado pelo presidente mais manchado de corrupção de toda a história. Se o TSE não é capaz de cassar um presidente tão obviamente culpado de ter favorecido financiadores de campanha em troca de dinheiro, para que ele serve então?

    A justificativa dos juízes e a do PSDB é semelhante: todos alegam que agiram pela estabilidade do país. Mas que estabilidade é essa, garantida por propinas, impermeável à opinião pública e ao interesse público? Como seguir em frente diante da obviedade de estarmos no caminho errado? Como confiar em quem está no comando, diante dos conflitos de interesse, da falta de transparência, da inadequação de seu jeito de pensar?

    Não sei se o que estamos vivendo agora é mesmo o fim do sistema partidário que vigorou nas últimas três décadas. Não sei se o PT vai acabar, ou o PSDB, ou o PMDB. Não sei se o TSE vai acabar. O que sei é que, a não ser que apelemos para o autoengano, as ilusões se acabaram.

    Não adianta mais seguir repetindo as narrativas nas quais ninguém mais põe fé. O Brasil não confia mais em seu sistema político. Ninguém em sã consciência acredita numa só palavra que os partidos repetem durante suas propagandas. Fingir que nada disso está acontecendo e seguir em frente em nome de uma fictícia “estabilidade” para mim é o caminho para um desgaste progressivo que não tem como dar em boa coisa. Se não restaurarmos a confiança no país, a crise não acabará e iremos ficando mais e mais vulneráveis a um ataque frontal à democracia.

    Para mim, a única alternativa a esse cenário sombrio é uma conversa realmente franca entre representantes e representados sobre o que deu errado neste país. E, a partir dessa conversa, precisamos ter a coragem de mudar: por mais que a mudança nos deixe apavorados com a possibilidade de instabilidade. Se tivermos essa coragem, talvez o que estamos vivendo não precise ser o fim – talvez ainda sobre alguma esperança de um recomeço.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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