Sei que parece exagero, mas não é. O preço de salvar Temer da Justiça vai ser muito alto. Se seguirmos nesse rumo por mais uma década, já era

O Brasil está sob ataque, em vias de se acabar.

Quando digo “se acabar”, não é assim cataclismicamente, num cogumelo nuclear. É algo mais gradual: ir se acabando, se esvaindo, se descolorindo nas fotos aéreas, se consumindo em fumaça e buracos e sangue e deserto e entulho. Se seguirmos no rumo em que estamos, daqui a uma década, as fotos de satélite de boa parte do Brasil mostrarão terra arrasada.

Antes que você me acuse de estar exagerando, talvez valha ler este texto, no qual o mineiro Bruno Carazza desvenda, entre um verso e outro de Drummond, os interesses por trás das mudanças das regras que estão acontecendo agora na mineração.

Dezenas de parlamentares, todos financiados por empresas em cuja existência a maioria de nós nem pensa (Companhia Brasileira de Mineração e Metalurgia, Companhia Brasileira de Alumínio, Anglo Gold, Votorantim, Vale, Kinross Mineração, Flapa Mineração, LMA Mineração, Mineração Polaris, Usiminas, Gerdau, Vallourec, Magnesita), estão reescrevendo a lei, sem perguntar para mais ninguém, sem nenhum debate, sem nenhuma pesquisa científica independente, sem nem convidar o sujeito que mora no lugar que será afetado. A mudança acontece por decreto.

Não é um caso isolado. Vem aí, talvez já na semana que vem, um novo sistema de regras para os agrotóxicos – aliás, “agrotóxicos” não, chamemos de “defensivos fitossanitários”, como querem os distintos parlamentares que estão reescrevendo a lei, todos eles financiados por empresas de agrotóxicos e outros industriais da agricultura. Os especialistas que estão acompanhando o tema dizem que uma das mudanças que querem nos empurrar pela goela é legalizar os agrotóxicos que matam lentamente, causando doenças crônicas como o câncer – só haveria fiscalização contra o envenenamento agudo, súbito. As empresas seriam poupadas de ter que fazer pesquisas de longo prazo. Ao que tudo indica, vem por decreto também, imposto de cima para baixo pelo governo, sem nenhum convite ao debate público, por mais que o câncer caiba a cada um de nós.

O mesmo vem acontecendo na legislação ambiental e climática e na proteção da terra indígena. Congressistas, praticamente todos eles envolvidos em escândalos de corrupção, absolutamente todos recebendo milhões de empresas com interesses financeiros de curto prazo bem específicos, estão a cargo de reescrever as regras. A abertura à discussão pública é inexistente.

Mas, quando falo em destruição, não me refiro só ao aspecto ambiental. A indústria bélica banca um bom número de bandidos ou suspeitos de bandidagem que agem todo dia em Brasília para garantir que haja cada vez mais armas no país, que já é aquele em que mais há assassinatos por arma de fogo no mundo. Brasília trabalha com afinco para o Brasil ficar mais violento do que já é.

Outra bancada fortíssima é sustentada por grandes indústrias da fé – igrejas imensas que financiam políticos para conseguirem isenções fiscais cada vez maiores, e também para descolar contratos lucrativos nas áreas de educação, saúde, assistência social. Também aí, uma indústria específica se acopla ao Estado como sanguessuga, chupando dinheiro público para si, em prejuízo do resto da sociedade.

O Congresso hoje está inteiramente dominado pela chamada Bancada BBB – Bala, Boi e Bíblia –, base de sustentação de Temer. Temer está nu em praça pública, fraco de não se aguentar em pé, e por isso ficou sujeito à chantagem aberta. Está loteando o futuro do Brasil em troca de uns meses a mais no cargo.

Em paralelo a esse ataque, vêm as restrições orçamentárias, com a crise econômica. Enquanto a Bancada BBB mama com gosto no orçamento público, os recursos vão rareando em outras áreas, que não têm lobby tão forte porque não compram políticos. Educação, ciência, tecnologia e inovação têm enfrentado fundos talhos em seus orçamentos. É também dessa maneira que se manifesta a destruição do Brasil: como se sabe, sem educação ou ciência, um país não tem futuro, ainda mais no século 21.

Não pense, no entanto, que estou atribuindo toda essa tragédia à turma de Temer. Nos tempos de Dilma, o saque já vinha ocorrendo de maneira acelerada. Como me explicou uma entrevistada que está me ajudando a entender o tema dos agrotóxicos, a engenheira agrônoma Marina Lacôrte, “no tempo do PT havia ao menos uma dualidade”. O grosso do poder já estava nas mãos de empresas específicas que financiavam centenas de parlamentares – de JBS e Odebrecht para baixo. Mas havia ao menos um pouco de militância para contrabalançar e o governo eventualmente abria pequenas brechas de participação pública. Agora não há mais freio ou contrapeso algum. A raposa foi promovida a diretora-geral de segurança no galinheiro.

Tudo isso vai reforçando e de certa forma perpetuando um problema antigo do Brasil: seguimos sendo um país sem inovação, que vive apenas de vender produtos primários, extraídos da natureza de maneira violenta e comercializados como commodity no mercado internacional. Não há jeito pior de existir no mundo. Commodity é um produto sem tecnologia alguma, sem criatividade, sem complexidade, sem valor agregado, sem nada de especial, refém das oscilações do mercado internacional.

Se você tiver interesse em entender esse fenômeno com mais profundidade, recomendo que passe umas horas fuçando o espetacular website do Observatório de Complexidade Econômica, do MIT. Note como os países bem sucedidos do mundo são aqueles de altíssima complexidade econômica, que lucram com indústrias que têm longas cadeias de produção, e que, portanto, empregam muita gente e enriquecem a sociedade toda. É o caso do Japão, da Coreia, do norte da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá. O Brasil, ao contrário, tem complexidade econômica muito abaixo do que se esperaria de um país com esse tamanho de economia. Vivemos de exportar soja, carne, petróleo, café, minério, produtos cujas cadeias destroem muito, produzem pouco valor e empregam pouca gente (a exceção a essa regra é a Embraer, única empresa brasileira de altíssima tecnologia que não faz feio em termos de mercado).

São essas indústrias de produtos primários que sequestraram o nosso sistema político e que o colocaram para trabalhar para si, em prejuízo do resto de nós. Nada contra eles defenderem seus interesses. Tudo contra um sistema político que faz com que apenas esses interesses míopes contem, e que deixe de lado todos os outros interesses da nação.

A situação é trágica, mas não é irreversível. Mais uma década de devastação e sucateamento provavelmente liquidarão quaisquer chances do Brasil neste século. Por sorte, há pelo caminho uma ou duas oportunidades de mudar de rumo antes que o pior aconteça. A mais importante delas é no ano que vem, na eleição geral. Para mim, o que está em jogo em 2018 é manter alguma chance de salvar este país da destruição. Não voto em ninguém que não faça dessa tarefa a mais absoluta das prioridades.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do NEXO.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.