Coluna

O corte seco da vida é a morte

    Um reflexão sobre a dura experiência de perder alguém querido e próximo

    A vida é um ciclo. É o que aprendemos desde que nascemos. Dependendo da casa, da família, da cultura, da visão de mundo que adquirimos ao longo da vida, pode-se seguir alguns caminhos para o depois: tudo acaba ali, quando o corpo não pulsa mais. Também tem gente que acredita nas conexões pós-morte, na reencarnação. Há vários ritos: os que choram e os que dançam. Mas todos, acredito, com o mesmo fim: o de que aquela pessoa querida faça uma boa passagem.

    A experiência da morte, de viver a morte de alguém que nos cuidou, é um corte pro vazio: o silêncio ensurdecedor de ir até o quarto em que a pessoa viveu os seus últimos suspiros de vida e saber que ela não volta mais. Se a pessoa cuidava de um jardim, quando morre, as plantas já não estão tão acesas no dia da partida. O vento da casa é um vento de acalanto, um vento que tenta acalmar, que acaricia.

    Tudo parece ser tudo e nada ao mesmo tempo. Repensamos a nossa vida, o nosso lugar no mundo. A morte nos obriga a refletir com uma  profundidade à qual não estamos acostumados e nem podemos estar; no caso, nós, que mantemos uma vida agitada e oca nas cidades movimentadas. Tanto que desejamos nos isolar quando temos folga ou férias porque precisamos nos conectar com nós mesmos e repensar as rotas.

    Desde pequena, tive medo da morte. Quando ouvia a canção de Gil, pensava: como pode alguém não ter medo da morte? Pensava se um dia seria assim, se também não teria medo dela. Mas sabia que, a qualquer hora, ela estaria diante de mim: sem preparos, sem avisos, porque ela é algo que acontece, que não se planeja, sobre a qual não se sabe e na qual só se acredita quando se constata. Mesmo assim, ela pode se demorar dentro da gente.

    Acho que esse medo da morte existia em mim porque tive a oportunidade de crescer dentro do avassalador universo de minha avó paterna, uma mulher imensa, com um oceano inteiro dentro de si. Como ela já era uma senhora quando vim a este mundo, cresci sabendo que ela morreria um dia em breve. Quando ela ficava doente, eu temia. Achava que o dia havia chegado. Mas não podia prever, o tempo é algo incontrolável.

    Mas esse dia chegou e, às vezes, eu me perguntava o que eu estava vivendo. Quando veio a notícia, constatada, sem nenhuma chance de voltar, o tempo passou a ser outro. Tudo parecia lento, sem vida, não havia sequência progressiva: vivi naquele instante o tempo da memória, das lembranças. Não era possível ser aquele tempo que o cinema me ensina, que posso voltar, cortar e manipular. É um tempo de corte seco, a vida reluta ali: é o corpo brigando com o tempo. Quando não se pode mais andar direito, quando o oxigênio falta, quando o olhar mira o infinito.

    Nas últimas horas de vida de minha avó-mãe, em cima de uma cama, dentro de um CTI, vi o seu oceano transbordar. Os seus olhos entreabertos me passavam a perturbadora sensação de que a vida havia de ser transmutada. De que tudo que poderia viver seria finalizado naquelas poucas horas que o coração suportava pulsar. O seu corpo já não mais vibrava, só o coração insistiu bater até o adeus do último familiar.

    No dia 3 de novembro que passou, nos despedimos sem saber que era para sempre. Nesse dia, acordei ao seu lado, no quarto de um hospital. Quando despertei, ela me olhou e cantou parabéns pelos meus 25 anos de vida. Comemorei muitos aniversários junto do dela, que é dia 1 de novembro. Este ano, completamos idades marcantes das nossas vidas, ela, 79, e eu, 25. 

    De todas as coisas que aprendi com a minha avó-mãe, sem dúvidas, a mais marcante é a vontade de viver, de estar viva. Ela não sabia escrever, mas eram de seu conhecimento coisas que nenhum livro jamais chegou perto de me trazer. Como sempre me avisa o meu amigo Bruno: a vida é urgente. E é mesmo: quando percebemos, ela não está mais ali e somos tomados pela dor do luto e a casca da saudade. De todas as coisas com as quais estou aprendendo a lidar, que têm acontecido pela primeira vez, a morte é uma delas. Minha avó-mãe partiu, fez sua passagem, mas está em todas as coisas que meus olhos e coração podem alcançar.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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