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Coluna

No longo prazo, estaremos todos mortos (mas está encurtando esse prazo)

    Enquanto a Amazônia queima, Trump declara guerra à ciência. Aguarde as consequências

    A Amazônia está cercada. Cada vez mais encurralada no cantinho de cima, à esquerda, do triângulo que é o Brasil, a floresta está acuada por uma larga faixa de queimadas, assassinato e destruição que rasga o país ao meio, do Acre ao Maranhão – o chamado “arco do desmatamento”. Não bastasse a violência do avanço dessa fronteira, que queima dois campos de futebol de floresta a cada minuto, lá em Brasília, uma quadrilha de bandidos que tomou o poder vai rapidamente rasgando toda lei e perseguindo toda instituição que possa ficar no caminho da destruição.

    O desmatamento na Amazônia, que há pouco mais de uma década estava a caminho de ficar sob controle, voltou em ritmo total, e está crescendo rápido. A destruição que vemos hoje é fruto de políticas desastrosas do governo Dilma, como o absurdo Código Florestal, que incentiva grilagem ao garantir impunidade para quem havia desmatado ilegalmente. Pior ainda é a destruição que veremos nos próximos anos, fruto do completo desmando que reina em Brasília neste triste momento da história.

    O que está acontecendo agora é um crime e as maiores vítimas serão os nossos filhos e os filhos dos filhos dos filhos deles. A destruição da Amazônia muito provavelmente vai desligar a bomba biótica que puxa umidade dos oceanos e a espalha pela América do Sul. Espere para breve grandes secas no Centro-Oeste, no Sudeste, no Sul, matando nossa agroindústria, nossa proverbial fertilidade e provavelmente causando fome.

    Quando a floresta tiver queimado inteira, toda a matéria da qual ela é feita terá se gaseificado na forma de fumaça e ficará presa no teto da atmosfera por mais ou menos 100 anos. Essa fumaça criminosa será a grande contribuição brasileira para uma outra tragédia: a mudança do clima global. Nossa floresta queimada legará ao futuro quase tanto gás de efeito estufa quanto os escapamentos dos carros do mundo.

    O que o Brasil está fazendo é terrível, mas não é o único crime ambiental atualmente sendo cometido por governos. Ao norte, Donald Trump transformou a ciência em inimiga e iniciou uma cruzada para queimar combustível fóssil desnecessariamente. Trump é um idiota e, como tal, está sendo basicamente ignorado pelos Estados e pelas empresas. Ainda assim, vai gerar distração suficiente para atrasar ainda mais um processo de adaptação que já vinha bem atrasado. Espere furacões, tufões, tempestades, secas cada vez maiores, cada vez mais frequentes, cada vez mais imprevisíveis.

    O que está acontecendo é grave e vai implicar em consequências muito concretas para bilhões de pessoas, inclusive nossos descendentes – nossa incapacidade de mudar hoje vai piorar a vida de muita gente amanhã. Ainda assim, esse processo de colapso ambiental que estamos vivendo tem algo de etéreo demais – ele não parece real. O que é real é nosso emprego, é o trânsito, é o almoço: difícil para a humanidade se mobilizar por algo que acontece aos poucos, longe da maioria de nós e que só dá para sentir no longo prazo.

    Afinal, no longo prazo estaremos todos mortos. Espécie nenhuma dura para sempre na Terra. Se não fosse um colapso ambiental ia acabar sendo a explosão do Sol ou algum outro inconveniente desses. Né?

    É. Mas tem algo de muito anti-ético nisso que nossa geração está fazendo: estamos roubando da geração seguinte. Estamos objetivamente tornando o mundo onde eles vão viver mais árido, mais pobre, mais duro. No longo prazo estaremos todos mortos sim, mas estamos irresponsavelmente encurtando esse prazo.

    E o pior é que esse prejuízo no futuro não vem em troca de ganhos razoáveis no presente. Do jeito que acontece, esse processo de destruição gera só violência para as comunidades, as riquezas ficam na mão de meia dúzia, que são justamente os financiadores dos políticos. No Brasil, são empresas como a JBS, que incentiva o roubo de terra pública para poder produzir carne barata, ou a Odebrecht, que quer fazer grandes obras no meio da floresta. Em quase toda parte, o interesse difuso e amplo de bilhões de pessoas, no presente e no futuro, está sendo atropelado por um interesse muito firme de pouquíssimos.

    Sinto uma atitude meio que de resignação a esse cenário – na linha “já foi”. Já foi sim: já deixamos o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis irem muito mais longe do que deveríamos ter deixado. Mas nada é tão ruim que não possa ficar muito pior. O fato de que levamos tempo demais para mudar não acaba com a urgência da mudança, pelo contrário.

    O cenário da política no Brasil não nos autoriza a encarar o futuro com otimismo. Verdade que podemos torcer para que ao menos o presidente da República, sobre quem pairam provas abundantes de estar no bolso de empresas depredadoras do futuro, caia logo. Mas é bom ter consciência de que sua queda dificilmente mudaria muito no cenário ambiental. O Congresso está infestado de gente que pensa como ele e que é financiada pelos mesmos patrocinadores.

    Minha esperança é que esse assunto seja ao menos levado em conta nas eleições do ano que vem – já que, por absurdo que pareça, ele está fora do centro do debate político há mais de uma década. No Brasil, mais quatro anos nas mãos desses bandidos provavelmente seriam uma tragédia irreversível para a floresta e para o resto de nós. Mudar de rumo já faria muita diferença.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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