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Coluna

No debate sobre apropriação cultural, turbante e permissões, eu preferi ouvir

21 de fev de 2017

    Teve de tudo nessa discussão. Inclusive muita cagação de regra. É nessas horas que a gente vê o quanto de ‘historiador’ de Facebook surge para passar vergonha

    Nas duas últimas semanas, um assunto sacudiu as redes sociais e as amizades de uma galera: o caso da menina que relatou ter sido criticada por ser branca e usar turbante. Uma discussão antiga, longa e que, volta e meia, ressurge de uma maneira diferente. Dessa vez, o debate esteve mais acalorado, pelo menos na minha bolha virtual. Eu decidi ouvir. Para quem me perguntou o que eu achava, eu disse que não tinha respostas e estava, realmente, refletindo sobre a questão. Foi a melhor coisa que fiz.

    “Ouvir é participar”, certa vez ouvi essa frase, não me lembro quem disse e nem em que situação, mas é uma sabedoria que tem me regido desde o início do planeta 2017. Como é bom participar de um debate, seja ele qual for, ouvindo. Primeiro, porque é um exercício incrível para melhorar as ideias que você tem sobre o mundo. Segundo, porque quando a gente não domina um tema, a melhor coisa que temos a fazer é ouvir. A gente pode até duvidar de um argumento, mas ouvir pode ser bom. Terceiro, é porque se o assunto tem a ver ou não com o seu universo, e você não tá tão seguro assim para opinar, lembra da tua avó dizendo: “em boca fechada não entra mosca”? Então.

    Teve de tudo nessa discussão. Inclusive muita cagação de regra. É nessas horas que a gente vê o quanto de “historiador” de Facebook surge para passar vergonha: aqueles que dizem que o turbante veio da Índia, por exemplo. Risos. Ou aqueles que acham que debate é a mesma coisa que um ringue de luta: ganha quem deixar o adversário tonto o mais rápido possível. Parem as máquinas: tá tudo errado! Como podemos entrar num debate para ganhar? Para ver quem tem argumento mais forte? Pra ver quem sabe mais? Pra ver quem tem mais likes no comentário, na publicação? Quem expõe mais o outro na rede social? Quem perde mais amigos? Desde quando debate é feito de perdedores e vencedores? É isso que a gente chama de descolonizar o pensamento e o nosso jeito de agir no mundo?

    Parece que até no espaço de aprendizado estamos capturados e colonizados, não sabemos mais ouvir e desaprendemos o sentido real do debate, que é aprender com o outro.

    Não proponho um mandamento de “vamos dar as mãos, sermos todos irmãos, andar na mesma direção”. Não, eu sei que isso não vai rolar. O mundo é feito de diferenças e eu acho interessante experimentá-lo dessa perspectiva. O ruído que corta as nossas vidas pode ser capaz de nos deslocar para um lugar melhor. Debate, para mim, é isso e ser participante dele como ouvinte é uma maneira bastante eficaz de tornar essa passagem proveitosa e imensa.

    Apropriação cultural não é um assunto tão simples de ser discutido. É preciso mais que conhecimento empírico e achismos diversos para sustentar um debate rico, sem esvaziar as esquinas que ele tem a nos oferecer. É preciso que muitas águas escoem por baixo desse rio que é a vida. E a gente não altera a correnteza de um rio: o tempo de aprender é agora, e amanhã também. Às vezes esperar e estudar antes de dizer que o turbante era dos indianos e os povos africanos se apropriaram dele pode ser melhor do que herdar a síndrome de Pedro Álvares Cabral.

    Dia desses, um grande amigo, o Antônio Todeschini, esse boyzão que tanto me ensina a ser mais sagaz e a não perder o respeito por mim mesma, me mostrou um filme em que toda as pessoas do elenco falavam muito, eram dissimuladas em qualquer debate e não tinham cuidado algum com qualquer ser humano, nem com eles mesmos. Parecia que tinham passado o spray da efusividade por toda a atmosfera que o filme velejava, que antes do tiro, todo mundo queria largar na frente, uma medição de quem falava mais alto, quem ficava mais tempo falando. Até nos momentos em que a orquestra do filme dava o tom de que estava por vir um momento sincero, a voz de quem se abria pro outro, ia sumindo até ficar muda, porque parece que é assim: estamos o tempo todo apertando a tecla “mute” do controle remoto das relações sociais. Sem respeito algum, seguimos ignorando e ofendendo Deus e o Diabo na terra do sol.

    A mim, falta leitura sobre o tema. O debate sobre apropriação cultural não é sobre pessoas brancas poderem ou não usar turbante. Aliás, vejo isso como uma característica muito interessante da branquitude, que gosta muito de centralizar o debate nas suas próprias permissividades, como se não bastasse um mundo inteiro disponível e controlado por suas mãos. O caminho mais interessante que me coloco a pensar agora é sobre violação de direitos de alguns como trampolim do bem-estar de outros, como esta charge que fez muito bem em tornar nítida a questão que se quer discutir com apropriação cultural.

    Para estudo e respiro, deixo essa charge, as palavras de Paulo Mateus e Ana Maria Gonçalves. Foram as coisas mais lúcidas que li nessas últimas duas semanas.

    O meu desejo sincero é que a gente tenha aprendido alguma coisa nessa discussão. Se alguém saiu como vencedor, que sejam aqueles que aprenderam e não os que fizeram do debate um massageador de seus egos inflados. Um exercício antes do carnaval, pode ser esse: respire. Mantenha suas amizades, você pode precisar delas e elas podem estar te ensinando muito mais do que você acha que sabe. Seja ouvinte: isso pode ser mais revolucionário do que essa sua vontade tamanha de querer ser o novo Marx do país tropical.

     

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    E por falar em ouvir, um grande espaço para exercitar isso, de graça, a quem estiver no Rio de Janeiro: a Anistia Internacional Brasil lança, na próxima quarta-feira, 22 de fevereiro, um relatório sobre o estado dos Direitos Humanos no Mundo 2016-2017. Vai rolar uma roda de conversa com mulheres negras sobre violência, justiça e direitos humanos nas Américas com Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Djamila Ribeiro, mestre em Filosofia Política pela Unifesp, Marion Gray-Hopkins, ativista e mãe de Gary Hopkins, Jr (19), morto pela polícia nos EUA, Shackelia Jackson, ativista e irmã de Nakiea Jackson (27), morto pela polícia na Jamaica, e Vilma Reis, socióloga e ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia, com mediação de Sueli Carneiro, integrante do conselho consultivo da Anistia Internacional Brasil, doutora em Educação pela USP e diretora do Geledés Instituto da Mulher Negra.

    Vai lá: Dia 22 de fevereiro, 19h às 21h, Cine Odeon - Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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