O Brasil está dominado pelo ódio, rachado ao meio entre duas turbas que se odeiam, né? Então… Na verdade, não.

Como todos sabemos, o Brasil inteiro surtou, e mergulhou aos gritos numa espiral infinita de ódio. Nosso país cordial rachou ao meio, e agora está conflagrado numa guerra cultural irreconciliável entre duas turbas enfurecidas. De um lado, querem proibir a arte, reinstaurar a censura, entregar o poder a uma ditadura compartilhada entre banqueiros e militares torturadores, forçar mulheres a terem filhos de estupradores, caçar professores esquerdistas, distribuir rifles para as crianças se defenderem umas das outras (e dos eventuais professores esquerdistas) na escola. Do outro, o plano é controlar a imprensa, aumentar os impostos até não sobrar uma empresa aberta, fabricar dinheiro como se não houvesse amanhã, proibir homens brancos de se expressarem, impor uma nova língua politicamente correta e reformar as instituições a partir da inspiração da Venezuela. Os dois lados concordam numa só proposta: a de fuzilar o campo oposto num imenso paredão. Né?

Então… Não.

Na verdade, o Brasil é um país até que bastante moderado, apesar dos pesares. Se, vista à distância, pela tela azul e cinza do Facebook, esta terra é um poço de ódio, basta chegar mais perto das pessoas e dar bom dia para perceber que a maioria é até que tranquila, razoavelmente tolerante com o outro, pacífica no mais das vezes. É isso que eu sinto claramente quando saio por aí batendo perna para fazer a parte mais central do meu trabalho de jornalista, que é escutar os outros.

Mas é óbvio que aquilo que eu sinto não é representativo deste país-continente. Vale a pena então olhar para as pesquisas, se queremos saber como os brasileiros pensam. E há várias. Exemplo: em junho o Datafolha entrevistou quase 3.000 pessoas para obter uma amostragem representativa da população inteira. Descobriu que 74% dos brasileiros declaram-se tolerantes com homossexuais, 70% aceitam a chegada de migrantes pobres, 55% não querem que todo mundo possa ter uma arma. A maioria quer pagar menos imposto (51%) e depender menos do governo (54%).

Uma outra pesquisa, feita no mês passado pelo instituto Ideia Big Data, com amostragem semelhante, também encontrou um país bastante razoável. Noventa e três por cento dos brasileiros acham que tem que haver igualdade de oportunidades no país, 66% são a favor do casamento gay, 63% acham ok que esses casais gays possam adotar crianças, 62% defendem que os direitos humanos têm que valer para todo mundo, 60% são contrários a mandar mulheres que precisam abortar para a cadeia, 57% defendem cotas para negros nas universidades. Setenta e três por cento sabem que não existe salvador da pátria na política.

Mesmo nos ambientes mais radicalizados, quando se olha de perto, o que se encontra não é uma turba, nem um pensamento único. Em 2015, cientistas da USP e da Unifesp fizeram uma pesquisa em dois protestos anti-Dilma, em São Paulo. Descobriram que 89% dos manifestantes eram a favor da saúde pública para todos, 93% a favor da educação pública universal – um retrato bem diferente daquele que se imagina na “bolha da direita”.

Ouço muito por aí que São Paulo é ultraconservadora – ou fascista, dependendo de quem critica. Pois uma outra pesquisa, realizada em 2016 pelo mesmo grupo que mencionei acima, entrevistou mais de 1.000 paulistanos para entender como eles pensam. Descobriu um quadro bem mais complexo – e moderado – do que o que costuma ser pintado no Facebook. Se por um lado 50% dos paulistanos concordam que o Estado deveria diminuir o número de funcionários, por outro 89% acham que, na crise, não se deve cortar em saúde e educação. Cinquenta e sete por cento discordam que só a união de homem com mulher constitui uma família, 87% acham que a mulher tem direito de vestir o que quiser sem ser incomodada, 95% querem que as terras indígenas sejam respeitadas.

Há sim um tema que tira os brasileiros do sério, e por razões compreensíveis: violência. Num país onde um terço da população teve um parente ou amigo assassinado, é de se esperar que boa parte das pessoas tenha uma atitude punitiva. Mas, ainda assim, o retrato está longe de mostrar uma população inteira sedenta de sangue. De acordo com a primeira pesquisa que citei, 55% dos brasileiros são contra a pena de morte. Já a segunda delas perguntou quem concorda com a frase “bandido bom é bandido morto” – deu 45% de “sim”.

Mas, se os brasileiros são moderados, por que então o debate público está tão radical? Certamente a resposta passa pelo fato de que nada é tão mobilizador quanto a indignação (só o medo chega perto). E, neste mundo de hoje, com grande parte das pessoas conectadas por redes sociais ou aplicativos de chat, a indignação (e o medo) viajam sem freio nenhum.

Para piorar, não faltam no Brasil razões para se indignar, independentemente de qual seja a bolha onde você viva. Não falta nos dois lados gente histérica berrando seu ultraje com algum absurdo medonho do lado de lá. E aí essa histeria alimenta a histeria oposta, num ciclo vicioso.

No mundo real, a evolução nos ensinou a acalmar os histéricos, ou ignorá-los. O cara que joga a cadeira no vizinho na reunião de condomínio, ou que briga aos socos no futebol de domingo acaba pagando multa ou vai deixando de ser convidado. Muitas vezes, é possível acalmá-lo, com um conversa com olhos nos olhos. Mas não no Facebook, onde seus olhos não encontram outros olhos – só coraçõezinhos, carinhas felizes e raivosas. Os incentivos lá não ajudam: quem grita mais alto ganha mais like. Quem bate mais forte chega mais longe. Natural que o debate acabe dominado por bullies, mentirosos e malucos.

Contei na minha última coluna da minha pesquisa na direita brasileira. Passei meses conversando com dezenas de pessoas – a absoluta maioria razoável, racional, disposta a ouvir, capaz de discordar com polidez. Mas, se você olhar a linha do tempo de grande parte dessas pessoas tranquilas, vai notar que ela é dominada por berros de malucos – como o falso movimento que citei no mês passado, os colunistas fabricantes de realidades alternativas, os pseudoespecialistas que inventam dados para convencer os outros de qualquer coisa, os políticos desonestos que manipulam medos para subir nas pesquisas. Critiquei ali o excesso de tolerância dos liberais razoáveis com esses doidos varridos caçadores de likes.

Mas algo bem parecido – embora não idêntico – acontece na outra bolha. Também do outro lado da polarização, há uma maioria razoável pagando com sua atenção e seus likes para gente descompensada defender qualquer coisa em nome de vencer a guerra cultural. Tem notícia falsa de monte, tem simplificação a rodo, tem relativização dos pecados dos nossos e negação dos méritos do outro a dar com o pau.

É que moderação não dá Ibope – estou prevendo uma audiência de umas duas pessoas para este texto aqui (beijo, mãe). Sem indignação para carregar, a informação não se espalha. Os incentivos estão colocados de modo a acirrar a guerra cultural: quanto mais indignação, mais indignação, e portanto mais indignação. E essa indignação toda se dirige à bolha oposta inteira, como se todo mundo lá tivesse ideias ultrajantes, mas não é esse o caso: a maioria é razoável.

Só vejo um jeito de cortar esse ciclo: tentar, por conta própria, mudar os incentivos que você coloca no sistema. Por um lado é preciso ativamente buscar conversas com quem discorda com respeito e inteligência de você, para aprender a ver mais facetas das coisas. Por outro, há que se excluir os malucos da conversa – ou ao menos tirá-los do centro dela. Não significa calar frente ao que está errado, ao que é injusto. Nem se furtar a essa obrigação de todo mundo que é, na medida do possível, tentar encontrar a verdade sobre os fatos. Há indignações legítimas, é óbvio. Mas a indignação pela indignação, aquela estratégica, calculada, transformada em arma só para atacar o inimigo (por pior que ele seja), que independe da verdade, essa precisa ser combatida todos os dias. Senão, vai acabar chegando a hora em que esse povo moderado e razoável vai estar verdadeiramente disposto a alinhar os inimigos num paredão.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

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