Boa parte dos sistemas que regulam nossa sociedade é baseada na premissa de que cada um de nós é um. Só que essa premissa está incompleta. Acredite: todos nós somos um. E cada um de nós é muitos

Muito da lógica segundo a qual nossa sociedade se organiza é baseada numa premissa: somos indivíduos. Eu sou eu, você é você. Trata-se de uma premissa tão fundamental para nossa maneira de nos enxergar no mundo que soa óbvia – como poderia ser diferente? No entanto, ela não contém toda a verdade. Contém alguma, sem dúvida: sim, cada um de nós é um. Mas essa verdade convive com outras duas: também é verdade que todos nós somos um. E que cada um de nós é muitos.

Opa, opa, opa. Você continua aí ou desistiu do texto? Fique só mais um pouquinho, que explico. Juro que não estou viajando: falo de fatos científicos bem aceitos.

Primeiro: cada um de nós é muitos. É sério. Ficou claro para a microbiologia na última década que cada ser humano é uma colônia de seres de várias espécies diferentes. Cada pessoa carrega dentro de si um número de bactérias maior do que o número de suas próprias células – em torno de 40 trilhões de bactérias para 30 trilhões de células próprias, segundo um estudo recente. Essa multidão de seres vivos que nos habita – a microbiota – não está apenas de carona. Eles tomam parte de vários dos nossos processos biológicos mais fundamentais. Não apenas gerenciam todo nosso processo de digestão, mas, conforme se provou recentemente, estão intimamente conectados ao nosso sistema nervoso e influenciam nosso humor, nossa personalidade, nossas emoções, nossa saúde mental. Eles são nós – e não poderíamos existir sem eles.

Ao mesmo tempo, todos nós juntos somos um: e novamente falo aqui de uma ideia científica muito bem aceita, reforçada por várias descobertas recentes. Assim como um formigueiro ou uma revoada de pássaros, uma comunidade humana se comporta como uma espécie de superorganismo – um ser vivo composto de outros seres vivos.

Da mesma forma que há processos biológicos circulando dentro de nosso organismo, há processos que circulam entre uma pessoa e outra, transmitindo informação. Ideias, por exemplo, saltam entre nós da mesma maneira que impulsos elétricos e mensagens químicas pulam entre nossas células. Ideias são contagiosas e, quando as apanhamos, logo passamos a acreditar que elas nos pertencem. Descrevi numa coluna recente um dos processos pelo qual isso acontece: a normalização. Se muita gente ao nosso redor acha que alguma coisa é normal – por mais anormal que seja – tendemos também a acreditar nisso. E rapidamente ajustamos nosso sistema de valores morais de acordo: se nos convencemos de que algo é normal passamos a acreditar também que essa coisa é correta. Esse é só um entre inúmeros mecanismos pelos quais os outros à nossa volta modificam aquilo que somos.

Humanos são seres sociais, assim como as formigas e muitos pássaros. Seres sociais basicamente não existem isolados uns dos outros – eles são moldados pela convivência. Nossos laços afetivos estão enraizados nas nossas conexões nervosas, e influem na nossa mente, em como nos comportamos, no funcionamento do nosso corpo todo.

Enfim, existimos em diferentes escalas. Numa escala micro, somos trilhões de células e de bactérias competindo e cooperando. Numa escala macro, somos um superorganismo do qual cada pessoa não passa de uma célula. No meio das duas, aí sim, eu sou eu e você é você. As três escalas convivem – e todas são imensamente relevantes para nossas vidas. No entanto, quase todas as estruturas da nossa sociedade são pensadas apenas do ponto de vista da escala intermediária, às vezes com efeitos devastadores para as outras duas.

O mais incrível é que as três escalas nas quais vivemos são interligadas – uma afeta a outra

Nossa sociedade quase sempre tenta lidar com as dificuldades da vida de maneira inteiramente individual. Pegue como exemplo nosso sistema de previdência: cada pessoa paga uma certa quantia em dinheiro todo mês ao longo de sua vida produtiva e, ao final dela, com alguma sorte, passa a receber um dinheiro mensal para se sustentar. É uma solução individual para um problema que quase todos nós vamos ter. Não é estranho que, enquanto discutimos meios de reformar a Previdência, todos péssimos, ninguém nem sugira soluções coletivas, do tipo tornar a sociedade toda mais acolhedora para idosos?

Neste mundo pautado pelo indivíduo, o cuidado dos idosos é uma questão. O cuidado das crianças pequenas é outra, separada (cada um é um indivíduo diferente). Pois então, esta reportagem da Atlantic conta a história de um tipo novo de instituição, na qual idosos e crianças pequenas passam os dias juntos. É ótimo para as crianças, que ganham muito mais afeto, é ótimo para os idosos, que ficam mais motivados e felizes, e pode-se fazer num só prédio algo que normalmente demandaria dois. Enfim: nesse caso, a solução coletiva funciona melhor e custa menos do que a solução individual.

Ao longo do século 20, quase todas as decisões que tomamos como sociedade levavam em conta o indivíduo e ignoravam as outras duas escalas. Um exemplo são nossos modelos de trabalho e de educação, que forçam pais e filhos a passarem os dias longe uns dos outros e criam grandes problemas na escala macro.

Da mesma forma, o foco exclusivo nos indivíduos teve consequências mortíferas nas comunidades que vivem dentro de nós. O modelo industrial de produção de alimentos, que pautou o último século, baseado numa imensa redução da diversidade daquilo que comemos e numa escolha por alimentos “mortos”, desprovidos de colônias de micro-organismos, matou boa parte das bactérias que vivem em nós. Alguns cientistas estão especulando que esse genocídio da nossa microbiota pode ajudar a explicar grandes epidemias de saúde do nosso tempo, como as de ansiedade e obesidade.

O mais incrível é que as três escalas nas quais vivemos são interligadas – uma afeta a outra. Por exemplo: as bactérias da nossa escala micro são transmitidas de um humano a outro, afetando a comunidade inteira na escala macro. Mães com a microbiota doente transmitem o problema aos filhos. Numa sociedade onde todo mundo tem a microbiota doente, a nossa fica doente também. Aliás, tem muita coisa doente nas nossas sociedades: basicamente tudo aquilo que ocorre numa escala diferente daquela do indivíduo.

Foi uma ilusão acreditar que podíamos colocar todo o foco no indivíduo e abandonar à própria sorte tanto os nossos micro-organismos quanto as nossas comunidades. Muito da crise que nossa civilização enfrenta hoje tem a ver com esse erro. Muito da solução vai exigir de nós enxergar que não somos apenas indivíduos.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

 

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