Coluna

Não dá para fugir

    A crise nos segue aonde quer que vamos

    É mês de férias escolares, época de criança sem programação. Por sorte, temos uns amigos que moram na praia, no Nordeste, e que foram viajar para visitar a família, que vive longe. Pedimos a casa emprestada e me organizei para poder trabalhar à distância por um par de semanas. É daqui que lhe escrevo, da varanda, ao som das cigarras, em meio a um areal, sob a luz difusa da lua cheia por cima do tempo nublado.

    A casa fica no mato, tem um cajueiro no quintal e uma conexão bem decente de internet. Logo nos primeiros dias aqui, me dei conta de que a vida até que é simples. Não precisamos de tanta coisa assim. Dá para trabalhar bem. Já me enturmei com um peixeiro, que supre boa parte das nossas necessidades alimentares, vendendo o que compra dos pescadores daqui mesmo. Para serem felizes, as crianças não demandam nada além das surpresas que uma casa no mato reserva: visitas de saguis, areia para rolar, insetos variados, eventuais idas à praia. Passei os primeiros dias sentindo que não é assim tão difícil se bastar.

    A ilusão começou a evaporar depois de uns dois dias, quando a segunda-feira chegou junto com o som de uma obra na vizinhança. Me dei conta então de que a mata que envolve esta casa tem prazo para acabar, e é curto. A região já está toda loteada e os sinais das árvores caindo e das casas subindo estão por toda parte.

    Como em praticamente todo o Brasil, o sistema de proteção ambiental não tem força para conter o avanço inexorável da ocupação – e a ocupação ocorre sem regra, sem limite, sem inteligência, na base da depredação, da corrupção, de uma aliança espúria entre o setor imobiliário e uma elite política corrupta que domina quase que todo lugar. Não é à toa que cada curso d’água do Rio Grande do Sul ao Amapá acaba degradado no processo. Cada mata que dá o azar de crescer na frente do avanço do progresso hoje parece destinada a desaparecer.

    E, se as matas caem e os rios morrem, a sujeira escoa até o mar e vai se juntar à pesca predatória sem controle na ameaça brutal aos ecossistemas marinhos que envolvem boa parte deste país. Lembrei então do colapso iminente que paira sobre as populações de peixes que abastecem o comércio do meu amigo.

    Aí comecei a reparar nos muros altos na vizinhança toda, consequência do medo que se espalha com a terrível crise de segurança pública que assola o Brasil, sem solução à vista. Erguer muros altos sabidamente é o jeito errado de melhorar a segurança: bloqueia a vista da rua para as casas, diminui a convivência, cria todas as condições para um país mais violento ainda. E vai matando a cidade e seus encontros – sintoma de um país que sofre de estresse pós-traumático. É incrível como parecemos estar tomando todas as decisões erradas, uma atrás da outra.

    Um dos motivos é que a aliança do poder econômico com a corrupção política é fenômeno fractal no Brasil: ocorre nas mínimas comunidades e ocorre também em Brasília, no governo central. Tem sido assim há décadas, chegou a haver esperança de melhorar, não mais. Está pior que nunca agora. No momento atual, uma quadrilha acintosamente tomou o poder do Brasil e está aos poucos desmontando toda garantia que a República nos dá: a defesa do ambiente, os órgãos independentes de investigação e controle, a educação e a pesquisa científica.

    É um pensamento deprimente e, nos dias de hoje, todo pensamento deprimente acaba nos recordando da presidência da República. Ao final da primeira semana aqui me veio com força a lembrança de que o ocupante do cargo está usando-o com a única finalidade de se proteger de acusações criminais. Enquanto a economia faz água, o presidente entrega dinheiro público na mão de políticos corruptos, na tentativa de comprar sua inocência – são bilhões de reais em emendas parlamentares oferecidos a quem votar a favor, sem nenhuma consideração com o bem público. E é esse seu único projeto de governo, além do desmonte dos direitos.

    Nos últimos meses, lá em Brasília, nem mesmo as aparências importam. Perdeu-se a vergonha. Assumiu-se que quem tem o poder irá usá-lo, independentemente do que é moral, do que é legal ou do que é justo. Mesmo aqui na varanda, iluminado apenas pela lua cheia, estou à mercê dessa dinâmica, queira ou não queira.

    Não nos bastamos. Ninguém se basta. Vivemos numa sociedade disfuncional, e os defeitos dela respingam em cada casa onde mora cada um dos 200 e tantos milhões de brasileiros. Enquanto o Brasil mergulha na mais profunda crise de confiança de toda sua história, ninguém pode dormir tranquilo. Afinal, só se fica tranquilo quando é possível confiar nos outros de quem dependemos. Com o país sem um projeto que o una e a política transformada num cada um por si sem regra ou plano, não dá para fugir: a crise nos segue.

    Precisei de mais alguns dias brincando com as crianças e ouvindo o estrondo do mar lá longe para sentir essa angústia se dissolver um pouco. Fui lembrando que, num mundo complexo, é inútil querer controlar tudo. Ninguém controla: nem Temer, nem Joesley, nem Rodrigo Maia, nem Aécio, nem a Globo. Todo mundo influencia, até eu e você, mas ninguém controla.

    Num mundo complexo, a realidade não é moldada por ninguém: ela emerge da imponderável soma das influências dos milhões de nós. E, se é assim, não adianta perder o sono com o que está fora do nosso raio de ação. Se não há como ignorar o incômodo da certeza de fazer parte de um sistema falido, tampouco adianta sofrer com ele mais do que o necessário. Só nos resta atuar do melhor jeito possível naquilo que alcançamos.

    Ao menos sinto que o incômodo não é só meu – é meio que quase de todo mundo. E isso é promissor porque gente incomodada muda. Quem sabe dessas minúsculas mudanças individuais, frutos dos incômodos de cada um, não possa emergir a grande mudança da qual precisamos urgentemente?

    As crianças estão dormindo agora – estavam exaustas de mar e riso. Já não há mais dúvidas de que minha geração legará a elas esse incômodo – que nossas decisões erradas dificultarão a vida delas quando nos formos. É um pensamento doloroso, mas que vem acompanhado de uma esperança: a de que elas saibam melhor do que nós o que fazer desse incômodo.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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