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Coluna

Não consigo pensar em outra coisa

    Para a saúde, no limite, a natureza é mais forte do que a vontade humana

    Não costumo escrever sobre meus problemas pessoais, mas, hoje, não consigo pensar em outra coisa. Após sete meses de tratamento contra um câncer de esôfago, quase três semanas na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), a Patricia, minha mãe, faleceu na semana passada.

    Para mim, câncer sempre foi uma palavra ligada à morte. Construí esse viés durante a adolescência, quando perdi de forma sequencial três tios paternos vitimados pela doença. Quando fiquei sabendo do diagnóstico da minha mãe, em maio deste ano, fui pesquisar um pouco mais sobre o assunto. Logo descobri que o local em que a doença se instalou é um dos mais graves, na parte superior do esôfago. O curioso é que é um diagnóstico típico de quem bebe e fuma (muito), embora a Patricia nunca tenha fumado ou bebido (nada).

    E ela viveria? Fui consultar os dados frios. A Sociedade Americana de Câncer estima que a taxa de sobrevida de cinco anos para um paciente com câncer de esôfago é de 43% quando diagnosticado em estágio inicial. Já as pesquisas do Instituto Nacional do Câncer mostram que a razão incidência sobre mortalidade para mulheres é de 1,9. Os médicos do ICESP (Instituto do Câncer de São Paulo), onde minha mãe se tratou, sempre alertaram para a gravidade do caso. No final, a cirurgia dela foi exitosa, sendo que uma infecção oportunista tomou seu corpo frágil, tirando-lhe a vida.

    Eu aprendi muito nos últimos meses como ser humano. Frequentando a maioria dos 28 andares do ICESP, convivi com brasileiros de todos os lugares, escutei histórias incríveis de vida e de superação, presenciei a força extraordinária que algumas pessoas estão dispostas a fazer para viver, mesmo que com sequelas inevitáveis. Vi que para a saúde, no limite, a natureza é mais forte do que a vontade humana.

    Testemunhei também o alto nível do serviço público do ICESP. A qualidade ímpar dos profissionais e da infraestrutura hospitalar, bem como o tratamento humanizado dos pacientes, explicam por que o ICESP é considerado uma referência no tratamento de câncer na América Latina. Se toda a rede do SUS funcionasse como o ICESP, saúde não seria o primeiro item de queixa das pessoas em qualquer pesquisa de opinião disponível. A excelência de centros como este aponta que é possível fazer bem feito. Por outro lado, aponta também que a prestação de serviços de saúde pública no Brasil ainda é muito desigual. Por que outros estados não têm um ICESP? Por que não há hospitais ou serviços de saúde padrão ICESP para todos?

    Uma característica importante do Instituto do Câncer é o fato de ser um hospital pertencente ao governo paulista e gerenciada por uma Organização Social de Saúde, que é uma espécie de parceria público-privada. O governo de São Paulo repassa o orçamento para a Fundação Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, uma organização privada sem fins lucrativos, que é responsável por cumprir um contrato de gestão do hospital. As evidências disponíveis mostram que esse tipo de arranjo, não livre de desafios, apresenta resultados positivos em termos de agilidade e desempenho quando comparados ao modelo tradicional de hospital público. 

    A discussão sobre como prestar um serviço público é longa, na política e na literatura acadêmica. Pessoalmente, acho que o que mais importa para o cidadão é se todos têm acesso igualitário a serviços públicos de qualidade. Independentemente de quem preste o serviço, é preciso que se faça bom uso dos recursos e haja transparência absoluta. O que eu vi no ICESP, como acompanhante de um usuário, me agradou muito. Minha mãe foi tratada com profissionalismo e dignidade. Curiosamente, a construção do Instituto do Câncer foi um dos projetos que gerenciava quando trabalhava na Secretaria Estadual de Planejamento entre os anos 2005 e 2006. Como pesquisador na área de economia do desenvolvimento, ainda acredito que há espaço para a realização de avaliações de impacto mais amplas e robustas sobre o efeito das Organizações Sociais na saúde das pessoas atendidas, relativamente aos hospitais públicos e privados existentes.

    Mas, hoje, se pudesse falar apenas uma palavra para os profissionais do ICESP, eu diria: muito obrigado. Se pudesse mandar uma mensagem para todos aqueles que acham que o SUS não funciona, diria: experimente. (Se não gostou, a boa notícia é que essa realidade pode ser mudada por políticas públicas. Afinal, é o contribuinte quem paga.) Se pudesse dizer uma última palavra para a Patricia, seria: muito obrigado. Foi um orgulho ter sido seu filho. Foi uma honra ter aprendido a ser uma pessoa muito mais humana com você.

    A vida segue. Até o próximo texto.

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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