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Coluna

Lamentamos a violência, aplaudimos execuções em praça pública

10 de jul de 2017

    Precisamos pensar em nós, nas nossas atitudes, nos rostos que gostamos de ver amarrados e espancados, nos assobios entusiasmados que damos aos policiais que executam a sangue frio, e também quando vemos policiais mortos

    Tem algo acontecendo no Brasil há séculos. Aquela expressão do senso comum se faz necessária: está ficando cada vez pior. E está mesmo. Quem vem acompanhando os noticiários nos últimos meses sabe que a chapa tá quente. Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, Claudinéia dos Santos Melo foi baleada na barriga voltando do supermercado. Ela estava grávida de Arthur, que se encontra em estado grave. Na favela da Mangueira, no Rio, duas mulheres negras, mãe e filha, foram assassinadas na porta de casa. Em Salvador, na Bahia, foram registrados 15.751 casos de violência contra a mulher do início deste ano até meados de maio. Esses números são pessoas.

    São incontáveis os casos de violência direta no Brasil, eles aumentam a cada segundo. Ainda que essa narrativa, que muitas vezes resulta em mortes, traga em sua essência traumas coloniais carregados pelas instituições responsáveis pelas políticas públicas, principalmente as de segurança, é preciso pensar em outros modos de abordar a violência. Falo isso, talvez, de um lugar de direito que, infelizmente, tratamos como um lugar privilegiado, que é poder viver longe das miras dos fuzis. É claro que, no Brasil, qualquer um pode morrer violentamente a qualquer momento, mas uns podem ter sonos e sonhos mais tranquilos do que outros.

    Há uma sensação lamuriosa e de impotência, muito comum nas curtas conversas de elevador: “a gente nunca sabe o que fazer. Está todo mundo morrendo. Quem pode frear isso? A gente não aguenta mais!” Entre outras coisas.

    Nesse sentido, gosto sempre de me perguntar: quais são as violências que eu produzo diariamente? Quais são as violências que eu gero, que eu coloco no mundo?

    Essas questões me vieram numa aula que frequentei semestre passado na escola de comunicação da PUC-Rio. Chamava-se “mídias glocais”, uma chance de pensar a cidade por outras perspectivas e analisar os discursos produzidos tanto pelas mídias “tradicionais” quanto por mídias locais. Numa aula, discutíamos sobre os discursos de ódio na internet como disparadores de práticas homicidas no campo da vida off-line, como os “linchamentos virtuais”, em que pessoas que são expostas na internet em notícias falsas, que culminam num cerceamento do direito de ir e vir, além do risco de morte. A conversa ia no sentido de refletir sobre como a internet criou uma nova zona de violência e exposição. A meu ver ela não inaugura e sim potencializa o que já existe na vida off-line. Os casos da Escola Base e do pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo por jovens de classe média em Brasília, nos anos 1990, são dois dos episódios que comprovam que notícias falsas e grupos de extermínio já existem no Brasil há muito tempo.

    O fato é que nós também produzimos violência, cada um à sua maneira, numa escala considerável. Abusos, insultos, desrespeitos. E também aplaudimos linchamentos. Para exemplificar, uma cena muito recorrente é aquela que presenciamos no verão: garotos pretos correndo nas areias das praias cariocas e um batalhão de policiais ou guardas correndo armados atrás desses jovens. Com ou sem flagrante, o órgão público de segurança prende esses rapazes com muita violência e são aplaudidos com louvor e glória por nós, os “cidadãos de bem”.

    Sabemos que há uma violência macro que as instituições públicas devem resolver e é para já. Eu não sei como isso pode ser resolvido e tenho profunda admiração por quem trabalha dentro das instituições públicas e pensa, diariamente, em maneiras de diminuir esses índices de violência. Gosto mais ainda das lideranças e outros agentes trabalhadores que atuam na ponta fazendo projeto social e resolvendo coisas que o Estado jamais foi capaz de solucionar.

    Mas precisamos pensar em nós, nas nossas atitudes, nos rostos que gostamos de ver amarrados e espancados em praças públicas, nos assobios entusiasmados que damos aos policiais que executam a sangue frio, e também quando vemos policiais mortos. Precisamos pensar nas notícias, no que compartilhamos na internet, nos memes "engraçados" geradores de ódio, nos discursos dos nossos candidatos a presidente do país e suas propostas políticas cada vez mais armadas.

    É preciso pensar nas nossas violências. A sociedade não são os outros. A sociedade somos nós.

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    Dicas da Yasmin

    A escritora Dara Bandeira lança nesta quarta (12), no Bistrô da Multifoco, no Rio, o livro "Cartas a uma paixão simples". Começa às 19h.

    Na quinta, 13 de julho, o "Sarau um dedo de prosa e uma pitada de poesia", em Nova Iguaçu, recebe o Encontro de Avohais Outros Seres Poéticos. A partir das 20h!

    No dia 13 de julho, a ONG Criola lança o livro "Tramas e dramas de gênero e de cor: a violência doméstica contra mulheres negras" (Brado Negro, 2016). Vai ser às 18h!

    No dia 15 de julho, o Resiliência Espaço Cultural, no Rio, realizará a roda de conversa "Existências Lésbicas: Quem tem medo de Sapatão?" Às 14h!

    No dia 17 de julho terá a 2ª edição do "Julho negro", uma articulação protagonizada pelos movimentos de Mães e Familiares Vítimas das violências do Estado Brasileiro.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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