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Coluna

Jesus, alegria dos homens. (Mas, e as mulheres?)

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    O convívio com uma mulher dentro do casamento pode não ser um passeio no parque para o homem, como sugere Joyce. Mas é ele que identifica no próprio homem a possível raiz desse mal-estar conjugal: a inabilidade masculina de harmonizar os elementos masculinos e femininos dentro de seu psiquismo

    James Joyce, irlandês de família católica dublinense, que estudou em escolas de jesuítas, escreveu um dia a um amigo: "Jesus era solteiro e nunca viveu com uma mulher. Viver com uma mulher é, com certeza, uma das coisas mais difíceis que um homem tem a fazer na vida, e ele nunca fez isso."

    Teríamos aqui um Joyce misógino e machista, insinuando que mulher é osso duro de roer, e que os homens são uns doces de coco do mais fácil convívio, sobretudo se não forem atazanados por suas companheiras?

    Um herege hediondo, por equiparar uma figura sagrada como Jesus aos homens comuns que não se dizem filhos de Deus e que nasceram de mulheres que copularam com homens?

    E um homófobo mal-disfarçado, por insinuar que o compromisso dos homens é com as mulheres, e vice-versa, ignorando que há homens que preferem viver com homens, e mulheres que amam mulheres e passam muito bem, obrigada?

    Minha tendência é dar respostas negativas a todas essas questões de gênero. Nem misógino, herege ou homófobo, o Joyce daquele parágrafo sobre Jesus é só um escritor heterossexual, casado com a mesma e única mulher, Nora Barnacle, por toda a vida, e um dos maiores artistas da palavra que já andaram pela face da Terra. O que ele fez escrevendo ao amigo foi só desabafar um pouco sobre as vicissitudes da sua vida conjugal.

    A questão da conjugalidade, no entanto, é central na obra de Joyce, tanto quanto, eu diria, a própria linguagem verbal, que ele leva em "Ulisses" e, depois, no "Finnegan's wake", aos mais extremos limites expressivos. O romance "Ulisses", de 1922, (no qual, aliás, não há nenhum personagem chamado Ulisses) teve seus 18 episódios estruturados, segundo o autor, a partir dos episódios da Odisseia, de Homero, livro que narra as peripécias de um marido, Odisseu/Ulisses, em seu longo e conturbado - e sumamente divertido - retorno ao lar, depois de 20 anos ausente, dez deles lutando na guerra de Troia, os outros dez gastos na viagem de volta.

    O Odisseu joyceano é o judeu Leopold Bloom, um dos personagens principais do "Ulisses", um pacífico pequeno-burguês dublinense que jamais fez correr sangue de nenhum inimigo. Sua mulher, a emoliente Molly Bloom, uma soprano bonitona de sangue espanhol que o trai sem excessiva discrição com outro cantor lírico, em nada se parece com Penélope, a fidelíssima mulher de Odisseu, que ficava fiando e desfiando tecidos em sua roca, de modo a manter seus pretendentes longe do seu leito conjugal, pois sabia que tudo que eles queriam era matar Telêmaco, seu filho único com Odisseu, e usurpar o trono de Ítaca.

    Ideia extravagante essa do escritor irlandês de fazer o pacato, anônimo e medíocre Leopold Bloom de avatar do antigo rei de Ítaca, herói da guerra de Troia,  uma guerra, por sinal, conduzida por outro marido traído, Menelau, para reaver sua bela esposa Helena, seduzida e raptada por Páris, o guapo filho do rei de Troia.

    Bloom é o herói que não inflige morte e sofrimento aos outros, nem mesmo ao cara que está comendo sua amada consorte. Seu heroísmo consiste em suportar as frustrações crônicas da vidinha cotidiana ao lado da mulher infiel, um tremendo vulcão sexual como podemos ler nas lendárias últimas 60 páginas de "Ulisses", um monólogo da Molly Bloom, sem parágrafos nem outra pontuação que a palavra yes, repetida inúmeras vezes nesse jorro libertário dos anseios de uma alma feminina auto-empoderada. O extenso monólogo termina assim, na excelente tradução de Caetano Galindo:

    "...e Gibraltar eu menina onde fui uma Flor da montanha sim quando eu pus a rosa no cabelo que nem as andaluzas faziam ou será que hei de usar uma vermelha sim e como ele me beijou no pé do muro mourisco e eu pensei ora tanto faz ele quanto outro e aí pedi com os olhos pra ele pedir de novo sim e aí ele me perguntou se eu sim diria sim minha flor da montanha e primeiro eu passei os braços em volta dele sim e puxei ele pra baixo pra perto de mim pra ele poder sentir os meus peitos só perfume sim e o coração dele batia que nem louco e sim eu disse sim eu quero Sim."

    Mulher assim, diria alguém, não é pra ficar aprisionada no domus conjugal, à disposição de um homem só. Se bem que Joyce dá à sua personagem um pretexto nobre para as suas traições: o trauma da morte do segundo filho que deixou como sequela emocional a aversão física ao marido, com quem ela se recusa a transar dali em diante. Molly pune o procriador que não soube gerar um filho imune à morte precoce, mas se abre como flor da montanha a outro homem em busca apenas de prazer erótico e de confirmação da própria feminilidade.

    De qualquer maneira, mesmo se sabendo corneado, é ao leito de Molly que Leopold Bloom quer voltar, ao cabo de seu movimentado dia perambulando por Dublin de vícios e descaminhos, em parte na companhia do jovem Stephen Dedalus, o intelectual em formação que rejeita raivosamente o machismo da sociedade irlandesa, a começar pelo de seu próprio pai, um beberrão todo metido a besta.

    Aqui, o espelhamento do livro de Joyce com a trajetória do Ulisses da Odisseia é total, pois o herói grego também queria por toda lei retornar a Ítaca e reassumir seu papel de rei e marido, mesmo sabendo que Penélope poderia já estar nos braços de outro sujeito, por julgá-lo definitivamente desaparecido.

    O convívio com uma mulher dentro do casamento pode não ser um passeio no parque para o homem, como sugere Joyce ao amigo. Mas é ele também quem identifica no próprio homem a possível raiz desse mal-estar conjugal:  a inabilidade masculina de harmonizar os elementos masculinos e femininos dentro de seu psiquismo. Dessa perspectiva, o marido perfeito seria o andrógino perfeito, o "homulher" capaz de ver sua companheira através de um olhar feminino. Uma façanha para verdadeiros heróis, convenhamos.

    Entretanto, remeto a refinada leitora e o atilado leitor ao longo e brilhante ensaio de Declan Kiberd que abre a edição brasileira de “Ulisses”, da Penguin-Companhia. Ali são discutidas, em alto nível e com alta legibilidade, todas essas questões. E, claro, ao próprio texto do "Ulisses" do Joyce, uma aventura intelectual empolgante e totalmente ao alcance do leitor médio, que, imagino, seja um sujeito entre 1,67 m e 1,82 m, se homem, e 1,58 m e 1,73 m, se mulher. É agarrar a ler e não largar mais.

     

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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