Coluna

Imagens que se encontram

    O que há em comum entre um documentário de Dziga Vertov e uma comédia de Buster Keaton, ambos feitos na década de 1920

    “O homem das novidades” (1928), de Buster Keaton, e “O homem com uma câmera” (1929), de Dziga Vertov, são filmes essencialmente históricos. Não por terem sido feitos no final da década de 1920, mas por inaugurarem, de certa forma, narrativas e linguagens. Se Keaton enquanto personagem da história improvisa, a câmera de Vertov segue o mesmo caminho.

    “O homem das novidades” é aquele filme que começa de uma maneira misteriosa. Não se sabe, ao certo, o que vai acontecer, qual será o rumo da pessoa que vemos: um jovem, branco, que segura uma câmera na mão e parece filmar o apocalipse, uma guerra, o fim do mundo. Até que aparece Sally, uma garota jovem, branca, meio perdida e que chama atenção de Keaton. A partir desse encontro, a comédia, que às vezes parece um drama, se desenrola.

     

    O conflito está dado: Keaton, o protagonista do filme, quer um emprego para fotografar e permanecer ao lado de Sally, garota que ele retratou há pouco e por quem se apaixonou, mas ninguém o aceita. A persistência de Keaton ao filmar e elaborar o roteiro de “O homem das novidades”, me remete às imagens da velha Rússia de Vertov, onde o homem da câmera insiste em enquadrar uma cidade que conta história a partir dos seus detalhes.

    Aprendemos que, nessa época, o cinema silencioso começava a experimentar “filmes orquestrados”, ou seja, filmes que eram acompanhados por uma banda instrumental ao vivo durante as sessões dos filmes. Era por meio da experimentação, também, que a música ajudava a contar a história. Tanto em “O homem das novidades” quanto em “O homem com uma câmera”, a música é um fator que desenha as cenas. Para cada gesto, cada modo de pensar e de estar no mundo, ou seja, em cena, enquadrado, há um conjunto harmônico que nos faz ficar vidrados na ação. Aqui, o som não é uma mera abstração, uma “trilha de fundo”, mas um elemento narrativo, um personagem que se constrói ao longo da trajetória.

     

    Enquanto Keaton procura fazer um filme com um arco narrativo mais clássico, Vertov usa uma linguagem mais experimental, o que lembra, de certa forma, o movimento construtivista no modo em que “O homem com a câmera” é montado. Mas Keaton também inovou formalmente em certo sentido com movimentos de zoom e de câmera: há uma cena no filme em que Keaton observa um quadro. Do detalhe do personagem observando o objeto diante dele à paisagem, Keaton parece usar uma teleobjetiva e vai de um plano detalhe a um plano aberto, revelando que o personagem encontra-se no saguão de uma empresa, onde ele, insistentemente, procurará o seu trabalho como fotógrafo e descobrirá onde Sally trabalha.

    Jean-Claude Bernardet, em entrevista para a revista Continente, disse: “Como você vê, toda vez que se tentou definir o que é o documentário, ninguém conseguiu. Uma das posições que ainda me parece atual é a do cineasta francês Jean Vigo, em um texto sobre seu filme “A propósito de Nice” (1930), em que ele fala do ‘ponto de vista documentado’. Mas isso, um ponto de vista documentado, pode ser uma ficção.” Amaranta Cesar, também afirmou durante a “Vivência em curadoria da perspectiva das mulheres”, durante o Cachoeira.doc de 2016, que “Toda ficção também pode ser encarada como um documentário”.

    Diante da citação desses dois autores importantes para o cinema, a escolha de uma comédia e um documentário me pareceu muito interessante no desempenho de uma leitura comparativa. Keaton desloca o glamour de um fotógrafo. Não sei como a atividade era vista na época, mas, hoje, o que consigo enxergar nessa história é quase que “naturalizar” a figura do fotógrafo, que é visto como um ser “especial” — muitas vezes essa atividade é romantizada. Em  “ O homem das novidades”, o fotógrafo é um trabalhador como qualquer outro, cuja matéria-prima é a persistência, tanto em captar imagens quanto em lutar para permanecer em atividade. Aqui, vemos um profissional que é desrespeitado dentro do seu próprio ofício, que anda a cidade de ponta a ponta, que a observa, que caminha no fluxo cotidiano, que sua a camisa. Em “Um homem com uma câmera”, vemos tudo isso também, inclusive quem filma é personagem do documentário. Temos aqui uma obra feita por um cineasta que conversa muito com teorias de linguagem cinematográficas e os modos de representação do próprio documentário, buscando de maneira sistêmica “captar a realidade.”

    Todas as vezes que vemos as imagens de Keaton, somos inseridos num mundo cinematográfico que consegue dialogar com as imagens de Vertov. Keaton parece ser um “homem com a câmera”, que experimenta a corporeidade, como Vertov, a métrica de um tempo narrativo, ou seja, um tempo próprio para contar uma história, que segue uma lógica de montagem, um ritmo, uma métrica. O vazio de um corte é “syncado” com o silêncio entre uma nota e outra.

    Para fechar, deixo uma pequena reflexão sobre o modo como Keaton buscou representar a figura de Sally: enquanto o fotógrafo é um trabalhador, um herói, que faz de tudo para ficar com sua amada, inclusive salvar a sua vida, Sally é enquadrada num perfil de mocinha, confortável, que também se encanta por Keaton. Mas, em certo momento do filme, temos raiva de Sally, por trocar Keaton por um cara mais abastado, utilizando a figura do carro para simbolizar isso. Ou seja, um cara novo surge no pedaço e oferece uma carona com um baita carro. E assim, Sally bota Keaton para tomar chuva na parte de trás do automóvel. Apesar de deixar um legado de grandes contribuições estéticas para o cinema mundial, “O homem das novidades” retrata a figura feminina de maneira machista.

     

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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