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Coluna

Fora Temer, volta Belchior

    Fora do Carnaval, não há solução

    São tempos difíceis, você está vendo.

    Semana passada, a Organização Mundial da Saúde divulgou um estudo mostrando que depressão e ansiedade estão crescendo muito rápido no mundo todo – quase 20% numa década – e já se tornaram as maiores causas globais de invalidez. Um país aparece com destaque na pesquisa: o Brasil. Em meio a toda essa turbulência e violência que estamos vivendo, não é surpresa que a terrinha tenha se tornado o país mais deprimido de toda a América Latina, o segundo das Américas. Somos também a nação mais ansiosa de todo o planeta.

    No meio de toda essa pressão, por sorte, chegou o Carnaval.

    Uns amigos, que têm filhos na mesma escola onde minha filha estuda, resolveram este ano criar um bloco. Batizaram a novidade com dois versos de Belchior que expressavam bem a forma como eles estavam se sentindo: “Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”. A nova agremiação do recém-renascido Carnaval de rua paulistano fez pequenas alterações em cinco músicas do ídolo cearense, seu grande homenageado, juntou uns instrumentos e começou a ensaiar.

    Como havia no grupo um punhado de pernambucanos, eles logo enquadraram o resto da rapaziada. “Carnaval é coisa séria”, avisaram. Criar um bloco não é só arrumar um nome espertinho e sair no Carnaval: há que se trabalhar duro antes. Em pouco tempo, estava estabelecida a rotina de ralação: encontros dia sim dia não para ensaiar as músicas, confeccionar chocalhos, costurar o estandarte, fazer as fantasias, preparar cartazes, planejar a saída. E, claro, beber e dar risada.

    Assisti aos dois últimos desses encontros, divertidíssimos. Engraçado que, naquelas reuniões, ao contrário de quase todas as outras a que tenho ido ultimamente, mal se falou em política. Ela estava lá presente, é claro, na inspiração do bloco – e também nos detalhes da decoração da festa, como o capacho com o rosto do Temer e o cartaz dizendo “fora Temer, volta Belchior”. Mas tínhamos a sensação de que aquele dia de celebração e trabalho não merecia ser desperdiçado falando sobre Romero Jucá, Moreira Franco ou Alexandre de Moraes.

    Na terça-feira de Carnaval, às 3 da tarde, o bloco saiu triunfal numa pracinha da Pompeia, em São Paulo, por baixo da qual, sem que ninguém se desse conta, corria um riacho enterrado por alguma das tristes administrações municipais do passado. As letras de Belchior, que embalavam a festa, tampouco eram exatamente alegres: “se você vier me perguntar por onde andei / no tempo em que você sonhava, / de olhos abertos lhe direi: / amigo, eu me desesperava”. Mas, por trás do desânimo, havia um tom de desafio – “tenho sangrado demais, / tenho chorado prá cachorro. / Ano passado eu morri, / Mas este ano eu não morro”. Afinal, “fora do Carnaval não há salvação”, como avisava um outro clássico do sumido ídolo bigodudo, enquanto a turma se entregava. “Você não sente não vê, / mas eu não posso deixar / de dizer, meu amigo / que uma nova mudança em breve / vai acontecer”, torcíamos, empapados de suor, liderados pelo estandarte, que girava firme em mãos experientes de carnavais olindenses.

    Muitos de nós estávamos acompanhados por nossas crianças, meio maravilhadas com aquela súbita suspensão na normalidade da vida em São Paulo. O bloco entrou por um beco estreito, cujas curvas tinham sido desenhadas pelo riacho que hoje corre encanado debaixo do chão de concreto. Minha filha de quase 4 anos avistou no beco um poço, construído ali por algum artista para chamar atenção para a água natural lá embaixo. Ela pediu para eu levantá-la e pôde ver o riacho correndo uns 5 metros abaixo da rua.

    Encontrei uma amiga pernambucana, veterana de blocos. “O problema agora é que vamos ter que sair no Carnaval com este bloco pelos próximos 30 anos”. O clima era de desforra: nos divertimos, apesar de tudo.

    Fiquei sonhando na rua que construir um país deveria ser mais parecido com criar um bloco: um trabalho coletivo, divertido e intenso, que a gente faz por amor, inspirados pelo prazer de compartilhar trabalho uns com os outros. A administração do nosso futuro e do das nossas crianças não deveria ficar na mão de gente de quinta categoria, propineira e egoísta – deveria ficar nas nossas próprias mãos. Quem sabe assim vivêssemos num mundo menos deprimido e ansioso.

    Ao final da noite, quando fomos embora, minha filha estava contando para todo mundo que “quando eu crescer, o riacho vai correr por cima do chão e eu vou nadar nele”. Tinha um monte de confete embaraçado nos cachinhos dela.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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