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Coluna

Evoluindo no bistrô

15 de fev de 2017

    Não sei o que a dra. Leleca, paleontóloga de bistrô, vai responder, mas logo me vêm à cabeça tipos como Trump e Bolsonaro, provas vivas de que a seleção natural ainda tem muito chão pela frente

    – Não vamos mais evoluir.

    É o que a loira-mel de pele trigueira informa aos seus companheiros de mesa. Não tenho outra alternativa ali senão ouvir a conversa dos dois casais que confraternizam na mesa ao lado no ambiente ainda semivazio. Marquei de encontrar minha mulher nesse bistrô francês de Pinheiros, um dos seus preferidos em São Paulo, com posters de ilustres músicos, cantores e cantoras de jazz pelas paredes, como Billy Holiday, Nina Simone, Chet Baker, John Coltrane, Louis Armstrong e Thelonious Monk. Eles, mais o jazz ambiente, num volume discreto, e um saboroso patê de campagne acompanhado de uma taça de kir royal me fazem boa companhia enquanto a espero.

    Eu podia aproveitar esse tempo de espera pra tentar evoluir um pouco, na contramão do que acaba de dizer a moça, que não leva muito jeito de ser nenhuma paleontóloga certificada por Harvard. Não que eu saiba que jeito têm as paleontólogas harvardianas, ou mesmo uspianas, mas, enfim, apostaria minhas fichas como ela se vira em algo como publicidade, marketing, algum treco ligado à informática. Ou nada disso, vai saber.

    Mas, em vez de evoluir, enfio o nariz na tela do celular como faz todo mundo que não tem companhia num lugar público. E até quem está acompanhado também. Basta que duas pessoas fiquem momentaneamente sem assunto pras telas de seus respectivos smartphones logo se iluminarem com assuntos caçados na grande nuvem digital que nos governa desde lugar nenhum. Ninguém mais sente tédio, ninguém se deixa estar num bistrô sem fazer tchongas, contemplando o nada, entregue a devaneios ou a especulações gratuitas sobre tudo e qualquer coisa, enquanto debica seu vinho esperando alguém ou a comida chegar.

    Mas, não: cá estou eu às voltas com meu dispositivo antitédio fabricado na Coreia do Sul. Os sul-coreanos viviam até outro dia numa nação subdesenvolvida sob o jugo de uma longa ditadura militar, meio que pareada com a brasileira, no tempo e no grau de imbricação dos milicos com os barões do PIB nacional e a mentalidade mais atrasada e repressiva quanto a costumes. Como o Brasil, a Coreia do Sul também se livrou da ditadura, apesar da última presidente, recentemente deposta, ser filha do último ditador do país. Mas, enquanto a gente aqui patina na rotina bipolar de voos de galinha socioeconômicos seguidos de longas aterrissagens de emergência, com pena voando pra todo lado, os sul-coreanos estão hoje no topo da cadeia tecnológica mundial, com um dos melhores sistemas educacionais do planeta, um parque  industrial de ponta e de altíssima produtividade, e uma renda per capita de fazer inveja a americanos e europeus. E, mesmo assim, segundo a loira aí ao lado, nem os sul-coreanos lograrão evoluir mais a partir de agora.

    Mas, por quê? – é o que me seguro de vontade de perguntar a ela. Quem toma essa iniciativa, no entanto, é um dos dois caras da mesa, o fortão de cabeça raspada, com jeito de ser seu namorado ou marido. O casal de amigos deles, uma gordinha e um gordão de camisa de mafioso cubano em Miami, se diverte com o assunto. O careca se mostra até meio alarmado:

    – Como assim, não vamos mais evoluir, Leleca?! Você tá falando do corpo ou do cérebro humano?

    Leleca, talvez pra justificar o ar intelectual que seus óculos de aro de tartaruga semiarredondados lhe conferem, e animada pelo Côtes du Rhône que ela degusta a cada dois minutos, replica:

    – Me refiro ao corpo e também ao cérebro, que, se não me engano, também faz parte do corpo.

    O careca rebate, depois de ter tomado um largo gole de vinho:

    – Você acha mesmo que a seleção natural acabou seu trabalho com os humanos, Leleca? Não me diga isso, em pleno jantar...

    A gag do careca faz sucesso. Não sei o que a dra. Leleca, paleontóloga de bistrô, vai responder, mas logo me vêm à cabeça tipos como Trump e Bolsonaro, provas vivas de que a seleção natural ainda tem muito chão pela frente. Billy Holiday me dá uma piscadela, aprovando minha observação mental, decerto referindo-se ao ogroalfa que passou a governar seu país.

    A loira puxa uma lousa pra explicar:

    – Exatamente. Os humanos não vão mais evoluir porque já não estão expostos à seleção natural, e sim à social. O ser humano cada vez mais controla a natureza através da ciência. E, claro, do braço prático da ciência, que é a tecnologia.

    O gordão, que não parece saído de uma aula de balé clássico ou de filosofia pura, ataca, sem pudor:

    – Mas nem o pênis do homem vai evoluir um pouquinho?

    A observação rampeira é acolhida com estrondosa gargalhada. A gordinha, claramente sua partner, faz um shshsh! enérgico:

    – Olha a baixaria, Artur! Cê não tá no boteco da esquina.

    Que preconceituosa, rumino eu. Desde quando boteco é lugar de baixaria? Claro que alguém sempre pode perder as estribeiras verbais ou físicas num boteco, mas isso pode acontecer absolutamente em qualquer outro lugar, de igrejas a ringues de patinação.

    O fofão se defende:

    – Pô, Cintiá, se até o Vinícius de Moraes falou isso. Sério! Ele dizia pros amigos que, se nascesse de novo, queria ser exatamente quem era, só que com um pau uns cinco centímetros maior.

    Mas Cintiá não deixa barato:

    – Esse negócio de tamanho de pau é a mais rídicula obsessão masculina. A mulher, a partir de uns 12 centimetros, já tá fazendo negócio.

    – Há controvérsias – diz a loira, dando uma mordidinha sacana no braço do careca, tipo atlético, que se sente o rei dos animais à mesa. Depois, retoma a cátedra:

    – De qualquer maneira, mesmo essa conversinha de boteco tem tudo a ver com o que eu tava dizendo. Se a seleção natural continuasse agindo no ser humano, a tendência seria um aumento progressivo no tamanho médio do pênis do macho.

    – Ué? Por quê, fessora? – desafia a gordinha.

    – Porque, se as fêmeas humanas tivessem total preferência pelos machos de pau grande, iam cruzar bem menos com os de pau pequeno. E os genes da tribo dos paugrande iam acabar prevalecendo na raça humana.

    – Que injustiça! – solta o do camisão caribenho, produzindo um estrondo de riso galhofeiro na roda.

    A conferencista da mesa emenda:

    – Só que não, né? Os homens podem viver tão bem quanto mal com um pênis de qualquer tamanho. Sem falar que as expectativas da mulher em relação ao companheiro vão muito além disso.

    – Vão muito além, quanto? – galhofa o galhofeiro. – Uns dez centímetros?!

    Não consigo ouvir a resposta da Leleca, afogada pelas gargalhadas da confraria e também porque mais gente adentra o restaurante, falando, arrastando cadeiras, ocupando os últimos lugares disponíveis.

    O ruído ambiente sobe de patamar, encobrindo o simpósio sobre evolução humana na mesa ao lado. Um saxofonista toca "In a sentimental mood" no áudio. E minha doce consorte finalmente dá o ar de sua gracinha. Cada vez que a vejo, gosto mais do que a seleção natural tem feito com ela.

    Minha amada se senta, dá uma bicada no meu kyr, olha em volta e pergunta, distraída:

    – Que cê ficou fazendo enquanto me esperava?

    – Fiquei evoluindo.

    Ela deu mais uma bicada no kyr antes de dar a réplica previsível:

    – Como assim?

    – Te mostro quando a gente chegar em casa.

    – Bobo!

    – Linda!

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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