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Coluna

Eu sou um corrupto

    Na semana da prisão do Eike, o momento é de confissões. Aproveito então para fazer a minha

    Oi, tudo bem? Prazer, meu nome é Denis. Eu sou um corrupto.

    Não me olhe assim, vai. Juro que foi sem querer. Quer ver, julgue você mesmo. Escute minha história e ponha-se no meu lugar.

    Sou um motorista cuidadoso, seguidor das regras. Mais ainda desde que passei a carregar no banco de trás cadeirinha para levar criança pequena. Dirijo pouco, já que sempre que posso prefiro pegar ônibus, metrô, caminhar ou pedalar. Ainda assim, um belo dia, chegou pelo correio para mim uma carta avisando que eu tinha um porrilhão de pontos por multas de trânsito e iria perder minha habilitação.

    Eu não merecia a punição. Emprestei meu carro três vezes, e nas três dei azar. Meu cunhado recifense foi buscar a família no aeroporto e, sem conhecer bem o lugar, parou na área de desembarque para pegar as crianças e foi canetado. Meu pai, que cuidou do meu carro enquanto eu viajava ao exterior, levou duas multas, uma das quais bem estranha, já que era por falar ao celular no volante, sendo que meu pai não usava celular. Enquanto eu viajava, uma amiga minha que tinha uma kombi pegou meu carro emprestado para ir ao litoral e, desacostumada com a potência do carrão, levou duas multas de velocidade no caminho. Por vergonha e preguiça, não transferi os pontos de nenhuma dessas multas. Bobeei.

    Só que eu não podia perder minha habilitação naquele momento. Minha mulher estava grávida do nosso segundo filho e eu não queria ficar sem poder dirigir na hora do parto. Então me informei sobre os procedimentos legais e preparei, sozinho, uma defesa, que, modéstia à parte, ficou bem boa. Juntei provas definitivas de que eu nem estava no país na data da maioria das multas, reuni cartas assinadas do meu cunhado, do meu pai e da minha amiga contando o ocorrido, expliquei o que tinha acontecido com clareza, autentiquei tudo em cartório e, no último dia do prazo, mandei ao Detran pelo correio (único jeito possível).

    Só não lembrei de conferir se o tal prazo era referente à data de envio ou à de recebimento. Era a de recebimento. Recebi de volta do Detran uma carta curta dizendo que, como eles não haviam recebido defesa alguma no prazo, eu entregasse minha habilitação imediatamente. Não havia nenhum número de telefone para o qual eu pudesse ligar para explicar a história a algum ser humano.

    Paniquei. Um amigo viu e sugeriu uma empresa que ele conhecia e me ajudaria com a situação. Liguei lá, eles me explicaram que têm vários advogados que conhecem bem os procedimentos do Detran e que cuidariam da minha defesa. Estranhei um pouco que a moça nem tenha se interessado muito pela minha história – ela parecia convicta de que eles me ajudariam a manter minha habilitação independentemente do que tivesse acontecido. Mas, diabos, minha mulher estava do tamanho de um pequeno planeta, para parir a qualquer momento, e eu precisava de ajuda para não ficar sem poder dirigir.

    Ainda assim, me vem a consciência de que eu paguei a uma empresa para que eles mentissem em meu nome

    Meses depois, com o bebê já nascido, a tal empresa enviou ao Detran uma defesa e me mandou uma cópia. Aí percebi que eles nem tinham chegado a mencionar meu cunhado, meu pai ou a kombi da minha amiga. Eles alegavam que eu não havia recebido a primeira intimação (o que não era verdade) e aí usavam uma série de brechas na lei para pedir a suspensão do processo. A moça, solícita, me explicou que eles conheciam bem essas brechas e que portanto conseguiam livrar qualquer um por esse caminho.

    Fiquei aliviado e deixei o processo correr – continua correndo. Tenho a consciência tranquila de que não fiz nada que qualquer outra pessoa não pudesse ter feito e que é justo que eu não perdesse a habilitação. E, ainda assim, de tempos em tempos, me vem a consciência de que eu paguei a uma empresa para que eles mentissem em meu nome. Enfim, eu sou um corrupto. Não queria, não pedi. Mas sou.

    Aliás, a maioria de nós é. A gente tende a achar que a propensão para a trapaça é uma questão moral: só os canalhas trapaceiam. Tendemos também a acreditar que há muito mais trapaceiros em certos lugares (o Brasil, por exemplo) do que em outros, tipo a Suécia. A verdade é muito mais complexa – e interessante – do que isso.

    É o que mostram as pesquisas de comportamento humano, como por exemplo as de Dan Ariely, cientista da Universidade Duke, especialista em trapaça. Ariely bolou um estudo sensacional. Ele distribui a voluntários provas de matemática, com 20 problemas bem fáceis de resolver, mas um prazo impossível – apenas 5 minutos. Ao final do tempo, ele convida os voluntários a destruírem a prova numa daquelas máquinas de picotar papel. Aí pergunta a cada um quantas questões tinham conseguido resolver – e paga 1 dólar por problema terminado. O voluntário sabe que pode mentir à vontade para ganhar mais dinheiro, já que todas as provas do crime tinham sido trituradas.

    Só que Ariely é especialista em trapaça e, como tal, ele trapaceia magistralmente. Na verdade, a máquina de picotar é adulterada. Ela corta apenas umas tirinhas dos dois lados da prova, para dar a sensação de que ela está sendo destruída, mas deixa a maior parte passar ilesa. Ou seja, os cientistas sabem quantas questões cada um acertou de verdade e podem comparar o resultado com o que as pessoas dizem, com a convicção da impunidade. A conclusão é chocante: quase todo mundo mente. Das 35 mil pessoas que fizeram o teste, 25 mil exageraram um pouquinho seus acertos. Na média, cada um acertava 4 problemas – mas dizia que tinha acertado mais de 6, quase 7.

    Interessante é que a imensa maioria dos trapaceiros mente só um pouquinho. Dos 35 mil voluntários, apenas 20 pessoas – um em cada 1.750 – mentiu muito, para faturar o máximo possível de dinheiro. Ao contrário do que diz a teoria econômica, são raros os humanos que agem apenas de acordo com seus próprios interesses. A imensa maioria aumenta só um tiquinho – tipo reporta uma ou duas questões a mais do que a verdade, para embolsar uns trocados. Para explicar esse fato, os especialistas formularam o que ficou conhecido como a “teoria do autoconceito”. Significa o seguinte: a maioria de nós mente, mas ao mesmo tempo gostamos de nos ver como “pessoas honestas”. Por isso, a não ser os muito psicopatas, que são extremamente raros, estamos quase todos dispostos a trapacear um tiquinho, desde que consigamos racionalizar o fato e nos convencer de que não estávamos assim tão errados. Mais ou menos como eu fiz na história acima.

    Ariely e muitos de seus colegas têm repetido esse experimento e outros parecidos em vários cantos do mundo. Num estudo recente, ele comparou a taxa de trapaça de 5 países bem diferentes – Alemanha, Estados Unidos, Portugal, China e Colômbia, que não podiam estar mais distantes um do outro nos rankings internacionais de percepção de corrupção. O resultado foi surpreendente: não importa o país, os índices de trapaça são consistentemente similares no mundo todo. Embora haja farta evidência de que a Alemanha é na prática muuuuuuuuuuuito menos corrupta que a Colômbia, parece claro que, numa situação controlada em laboratório, indivíduos alemães e indivíduos colombianos são igualmente propensos a mentir para obter vantagem.

    Uma das questões centrais para construir o futuro é como fazer com que o serviço público pare de ser um ímã de picaretas

    Mas então por que tem tanta gente trapaceando no Brasil e na Colômbia e tão pouca na Suécia ou na Alemanha? A resposta é simples, mas é também complexa: o tal sistema. No Brasil, roubar é algo tremendamente entranhado na cultura, naturalizado – nós nem estranhamos que o presidente da República tenha nas costas dezenas de acusações e provas de que recebeu milhões de dólares em propinas. Assim, fica mais fácil racionalizar e manter o “autoconceito” mesmo trapaceando também, na linha “todo mundo aqui rouba, essa minha propininha não faz nem cócegas”. Já na Suécia, foi um escândalo quando tornou-se público que uma deputada usou cartão de crédito do Estado para comprar um Toblerone no free shop. Não tem clima lá para embolsar nem 1 euro e ainda assim manter o “autoconceito”.

    O tal “sistema” é como se fosse uma correnteza – algo que permeia tudo e vai nos empurrando. Na Suécia, quem se deixa levar pela cultura acaba fazendo tudo certo. No Brasil, o caminho de menor esforço é trapacear, como percebi na pele enquanto lidava com os problemas com minha habilitação de motorista. Tem que nadar muito para evitar as tentações – quem diz “não” à propina meio que se sente errado. Ou, pior: sente-se um trouxa.

    Em algumas sociedades, como a brasileira, o “sistema” – a forma como as coisas são organizadas, a cultura, a lei – é um convite à bandidagem. Em outras, não. Tem uma pesquisa que foi feita na Índia que mostra que, por lá, há uma proporção anormalmente alta de “grandes trapaceiros” no serviço público – gente que mente muito, como os 20 que Ariely encontrou em meio a 35 mil. Mas, na população indiana, não há mais desonestos do que em qualquer outro país. Ou seja: os verdadeiros trapaceiros, na Índia, acabam indo trabalhar no governo, porque sabem que o cargo lhes dará muitas oportunidades de roubar. Acontece que não é assim em todo lugar. Uma pesquisa semelhante feita na Dinamarca mostrou que por lá o mesmo não acontece: há no governo gente tão intrinsecamente honesta quanto na população em geral.

    Ao que tudo indica, o Brasil nisso se assemelha muito mais à Índia do que à Dinamarca. Isso explicaria a proporção gigantesca de salafrários no governo – hoje, tanto no primeiro escalão do Executivo quanto no Legislativo federais, a proporção de investigados por corrupção supera bem os 50%.

    Uma das questões centrais para construir o futuro é como fazer com que o serviço público pare de ser um ímã de picaretas. A ciência também tem respostas para essa questão, testadas em pesquisa. Bastaria para isso mudar radicalmente o “ambiente”, o sistema. Teria que haver grande transparência em todas as transações, que precisam ficar registradas – não podem ser destruídas em máquinas de triturar papéis. Outra coisa fundamental seria ter regras muito claras, muito justas, muito simples, que fossem mais fáceis de seguir do que de burlar, sem oferecer muita oportunidade de racionalização para esse nosso cérebro larápio. É bom que haja um atendimento humano, com rosto, com olhos olhando nos olhos – é bem mais difícil racionalizar trapaças quando a “vítima” é uma pessoa de verdade à sua frente. Outra coisa importante é o bom exemplo. Um ambiente em que todo mundo surrupia é um ambiente em que é convidativo surrupiar, ainda mais se os maiores larápios acabarem sendo os mais poderosos. Ou seja, não dá para um país querer combater a corrupção e ao mesmo tempo ter Michel Temer como presidente.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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