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Coluna

Eu é um outro

16 de mar de 2017

    Confesso que gostei desse ‘Rei’, talvez devido às tendências absolutistas do meu psiquismo profundo. Foi um alívio quando o Rei assumiu o poder, destronando o incômodo Reinaldo e o excessivamente infantil Reinaldinho

    Sempre experimentei um desconforto com esse nome que meus pais me deram: Reinaldo. Na infância, nos anos 50, eu simplesmente não encontrava ninguém com esse nome nas classes ou nas ruas, ou ainda entre a parentela. Eu era o único Reinaldo do mundo. E ainda por cima, sou filho único. Só podia ser por isso que eu tinha esse nome que me soava pernóstico, balofo, esquisito e sumamente raro.

    Por que raios do céu eu não me chamava Fernando ou Marcelo? E, se era pra começar com R, por que não Renato, Ricardo, Rafael, nomes que me pareciam tão mais atraentes e anunciadores de uma vida de grandes realizações? Nomes tradicionais que nunca eram confundidos com outros nomes. Comigo, isso acontecia direto, e ainda acontece. Sempre viro Reginaldo ou Ronaldo pra muita gente que ouve meu nome pela primeira vez.

    "Seu nome, por favor?"

    "Reinaldo."

    "Ok, Ronaldo, sua consulta está marcada para quarta-feira."

    Ou:

    "Pois não, seu Reginaldo, em que posso ajudá-lo?"

    Meus amigos de juventude, buscando tornar meu nome mais palatável, passaram a me chamar de Reinaldinho, até que alguém veio com esse Rei que acabou vingando. Hoje, as pessoas próximas só me chamam de Reinaldo quando estão chateadas comigo. Confesso que gostei desse "Rei", talvez devido às tendências absolutistas do meu psiquismo profundo. Foi um alívio quando o Rei assumiu o poder, destronando o incômodo Reinaldo e o excessivamente infantil Reinaldinho.

    Essa minha encanação com meu nome tinha, afinal de contas, sua razão de ser, já que nossa autopercepção identitária é, em grande parte, "carimbada" pelo nome pelo qual somos reconhecidos em sociedade. É o que nos confere a primeira camada de individualidade nesse vasto mundo onomástico, mesmo que você seja o feliz proprietário de um nome multitudinário como José, Paulo, Antônio ou João. Ou ainda Fernando, Marcelo e Renato, como eu queria que tivessem me batizado.

    Há mesmo quem credite a nossa sina na vida ao nome que carregamos, por meio de uma complexa teia de relações místicas, psicológicas, mágicas, históricas, étnicas e culturais que pode envolver também os astros, os números e até a sonoridade das letras e sílabas que formam o nosso nome.

    Um dos meus escritores preferidos, o contista, cronista e dramaturgo Sam Shepard, que é também um conhecido ator hollywoodiano, conta como conheceu Bob Dylan, em fins dos anos 70. Na época, Shepard era um dramaturgo que apenas despontava na cena teatral americana. Era conhecido em alguns meios intelectuais, mas não tinha ainda ganhado o Pulitzer de 79 pela peça "A criança enterrada". O fato é que ele tomou um susto ao chegar em casa, em San Anselmo, Califórnia, e encontrar um bilhete que alguém lhe deixara ao lado do telefone: "O Dylan ligou."

    Grande fã do famosérrimo compositor e cantor de música folk-pop-rock - e desde o ano passado também prêmio Nobel de literatura, como todos sabemos -, Shepard não conseguia acreditar que o Dylan do bilhete era o compositor de "Like a rolling stone". Em todo caso, passou a mão no telefone e ligou pro número anotado no bilhete, o que lhe deu acesso a uma série de secretárias, assessores, advogados e empresários, todos com um pé atrás, querendo saber quem exatamente queria falar com mr. Dylan. A última dessas figuras perguntou:

    "Shepard? Que Shepard? Você é o cara que matou a mulher?"

    "Não, sou o astronauta," referindo-se ao Alan Shepard, primeiro norte-americano a ir ao espaço em 1961.

    Um homônimo do escritor estava em cana por aqueles dias, condenado à prisão perpétua, sob a acusação de ter matado a esposa. A pergunta soou no mínimo estapafúrdia aos ouvidos do Shepard escritor, que resolveu sarrear seu interlocutor.

    O caro do outro lado ainda quis saber o que ele queria do Dylan.

    "Estou ligando pra saber o que ele quer de mim," respondeu o Shepard.

    Trava-se do convite pra aderir à trupe do cantor em sua próxima turnê no papel de escrivão de bordo. Daí nasceria um livro fantástico, fartamente ilustrado por fotos: o “Rolling Thunder Logbook”, em que Shepard conta essa história do primeiro contato com o mundo de Bob Dylan.

    Seria uma espécie de terapia onomástico-existencial, que faria um grande bem a todos nós, mostrando que é perfeitamente possível sobreviver com esse nome

    Não por outro motivo, sempre que alguém me liga perguntando pelo Reinaldo Moraes, preciso travar a língua pra não responder: “Que Reinaldo Moraes? O grande criador de porcos e frangos do Paraná, autor do livro ‘Segredos de Pai para Filho’? O cantor gospel de Macapá, líder da banda The Crentes e compositor do clássico ‘Quero me humilhar’? O agente funerário de Pontal Dos Ilhéus, Bahia? O diretor-executivo da Moraes Projetos e Construções LTDA, de Poços de Caldas? O prestador de serviços de babá em Brasília? O skatista da empresa Foundation Skateboards? Ou o cabeleireiro do Salão Master, em Sinop?”.

    E eu poderia atormentar ainda mais a pessoa ao telefone elencando quase uma centena de outros homônimos meus rastreáveis nas redes sociais. Eles vão de administradores de empresa a vendedores, de engenheiros a operários, passando pelo professor de educação física de Mauá, pelo motorista da empresa Rápido Luxo, de Campinas, e pelo protético dentário de Bragança Paulista.

    Pensei até em mandar um convite a essa legião de Reinaldos da subespécie Moraes, convidando a todos para um grande conclave em algum hotel de montanha, que eu patrocinaria por meio de um crowdfunding. Aconchegados pela natureza, cada qual daria seu depoimento sobre como o nome que carrega influenciou seu destino.

    Seria uma espécie de terapia onomástico-existencial, que, imagino eu, faria um grande bem a todos nós, mostrando que é perfeitamente possível sobreviver com esse nome, o que inclui casamentos, filhos, viagens a lugares bacanas, realizações profissionais e artísticas, algum dindim (pouco) e outras conquistas igualmente amealhadas por pessoas detentoras de nomes mais encontradiços, como os Fernandos, Marcelos e Renatos que eu invejava, agregados a uma infinidade de sobrenomes.

    Claro que, em algum momento, nós, os Reinaldos Moraes, prestaríamos alguma homenagem a Sam Shepard, via Rimbaud, que escreveu numa carta a um amigo, falando sobre a criação artística: “Je est un autre”.

    Eu é um outro, sacada paradoxal, de gramática propositalmente arrevezada, que estabelece um vínculo inusitado entre o sujeito da fala e seu suposto contrário, o outro, figura indefinida e sempre meio estranha. Isso, na certa, em muito contribuiria pra que surgisse um forte sentimento de irmandade entre "eus" tão dessemelhantes até de si mesmos.

    Outra coisa que morro de curiosidade de saber dos meus xarás, e que fatalmente faria parte desses depoimentos, seria quais sentimentos eles experimentam e qual resposta costumam dar quando alguém os chama de Reginaldo ou de Ronaldo. Desconfio que seria a parte mais engraçada do conclave, com algumas respostas previsivelmente impublicáveis.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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