Coluna

Ele nos ensina a ter alma no olho

    A obra de Zózimo Bulbul é uma bússola para o nosso fazer cinematográfico

    Antes de começar a escrever esse texto, coloquei Kulu Sé Mama para tocar, aquele disco do John Coltrane. Aconselho que você o escute. Lendo este texto ou indo trabalhar dentro de um transporte público apertado. Você pode ter uma viagem inesquecível. Pode até ver o que o cotidiano, às vezes, esconde de nós.

     

    Coloquei o disco para escrever esta coluna porque foi ele quem apresentou a obra de arte mais visceral e que me protege até hoje: o filme “Alma no olho”, de Zózimo Bulbul. Outra dica: seja você quem for, se dê a chance de assistir a esse filme. A única coisa que é necessária para vê-lo do jeito mais fiel é ter um coração aberto.

    Não imagino esse filme, rodado em 1974, com outra música.

    Foi exatamente assim que conheci Zózimo. Era uma noite de verão, na Tijuca, zona norte do Rio. Estávamos em um bonde de 12 pessoas, a maioria mulheres, discutindo o que viria a ser o “Kbela”, filme que escrevi e dirigi. Fazíamos, naquela noite, uma primeira leitura do roteiro do filme, que pretendíamos rodar em poucos dias. No meio da conversa, o diretor de comunicação do filme, Bruno F. Duarte, deu play em um filme dizendo que poderia ajudar a construir algumas imagens.

    Eu chapei. Nunca tinha visto uma coisa parecida no cinema. Aliás, nunca tinha visto um filme que dissesse tanta coisa sem que o protagonista dissesse uma palavra. Ali, entendi que o cinema pode mais e que o que mais me fascinava nessa história de fazer cinema era a experimentação mesmo, coisa que a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu já tinha despertado dentro de mim. Ali, vendo aquelas imagens crescendo na tela, vi uma possibilidade materializada.

    Assim como John Coltrane, uma outra intelectual, mulher negra, que consegue dialogar diretamente com o filme de Zózimo é a escritora e psicanalista Neusa Santos Souza, autora do livro “Tornar-se negro – as vicissitudes da identidade do negro em ascensão social”.

    Nas primeiras linhas da introdução do livro, Neusa Santos escreveu que:

    Uma das formas de exercer autonomiaé possuir um discurso sobre si mesmo.Discurso que se faz muito mais significativoquanto mais fundamental no conhecimentoconcreto da realidade”.

    E continua nas linhas seguintes dizendo que o livro é uma

    “tentativa de elaborar uma gênero deconhecimento que viabilize a construçãode um discurso do negro sobre o negro,no que tange à sua emocionalidade”

    No filme, Zózimo, que é o ator, diretor, produtor e montador, foi pioneiro ao mostrar em 11 minutos as vicissitudes da identidade de um negro em ascensão social, inventando nesse transe de cinema uma linguagem e uma possibilidade estética para o que ele vai defender depois na ideia de um movimento de cinema negro no Brasil. Para mim, “Alma no olho” é uma bússola para o nosso fazer cinematográfico que deve ser olhado e revisitado diversas vezes, principalmente pelos futuros e presentes cineastas negros.

     

    Se hoje, mesmo com as mil possibilidades que os equipamentos digitais nos trazem, fazer filmes não é coisa fácil, imagine você na década de 1970? No livro “Zózimo Bulbul – uma alma carioca”, organizado por Jeferson De e Biza Vianna, Zózimo nos conta como o filme foi rodado.

    “Peguei a sobra do negativo preto e branco do filme ‘Compasso de Espera’, e usei para fazer o 'Alma no olho'. Naquela época tinha um preto e branco especial. O filme colorido estava chegando ao Brasil, todo mundo fazia preto e branco e os diretores de fotografia tinham o domínio do preto e branco. E esse negativo era da Kodak, se chamava Plus X e 4 X, o filme saía do preto para o branco e não passava pelo cinza, e é o que se vê no ‘Compasso de Espera’. Tem muito pouco cinza, como no filme ‘Alma no olho’. O que é preto é preto! O que é branco é branco! É o Plus X, e esse filme de repente sumiu. Eu e o diretor de fotografia, eu e ele, só com uma câmera que um amigo meu me emprestou, o Noberto, no estúdio dele em Botafogo, num sábado à tarde, aí ficamos até meia noite, por aí, fazendo ‘Alma no olho’ [...]”

     

    Mesmo assim, o cineasta não escapou da ditadura. Disse ele que:

    "‘Alma no olho’ também foi preso pela censura, aqui no Rio de Janeiro, na Praça Mauá. Os caras conseguiram me achar porque eu mandei o filme e tinha meu endereço e meu telefone na ficha. Não fui torturado, não levei tapa na cara porque falei pro cara: se desse, eu também ia dar. Não venha com essa frescura, não, que eu não sou molequezinho, não, isso aqui é um filme, isso aqui é uma coisa de arte e tal. E os caras falavam – ‘É, vocês artistas, viados’... Provocou o máximo possível, não tive medo, não. O cara com aquela gravatinha dele... Os caras ainda me disseram: ‘você não tem consciência para fazer um filme desse. Quem mandou você arrebentar essa corrente? Quem mandou?’”

    Daqui uns dias, em 21 de setembro, o ator, diretor e roteirista carioca, Zózimo Bulbul, completaria 80 anos de idade no mesmo ano em que o Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe acabou de completar seus 10 anos numa edição linda e histórica para o cinema brasileiro. Zózimo criou esse encontro e o Centro Afrocarioca de Cinema, na Lapa, centro do Rio, porque queria exibir os filmes que os festivais de cinema brasileiro não gostavam de exibir: aqueles feitos por cineastas negros. De lá para cá, muita coisa mudou, mas ainda se faz necessário o debate e a pressão para que a produção feita por negros e indígenas neste país estejam presentes nas filmografias ditas "oficiais", ensinadas nas escolas de cinema brasileiro ou até mesmo em territórios estrangeiros em que se ensina sobre a nossa cinematografia. É por isso que se faz necessária a existência da Apan, Associação d@s Profissionais do Audiovisual Negro.

    “Kbela” é fruto de muitas coisas, mas carrega na sua essência ‘Alma no olho’. É graças a esse filme, que vi, revi, revisitei – e faço isso até hoje –, que fui capaz de atingir a experiência do cinema. Esse filme é escola pra mim. É por meio dele que posso recontar a minha história, de quando o tornar-se negra foi possível para mim, agora não mais somente pela experiência do racismo, mas por poder transicionar, sentindo imagens feitas por um negro que eu nunca abracei, não tive o prazer de conhecê-lo em vida, mas que me ensinou que viver e permanecer vivo é ter alma no olho.

    Valeu, Zozó. Obrigada por me proteger quando tudo parece desmoronar. De onde você estiver, tenha a certeza de que nós, cineastas negros brasileiros, vamos continuar criando outros imaginários sobre ser negro no Brasil. É como disse a cineasta baiana Safira Moreira esse ano, no 8° Festival de Documentários de Cachoeira (Cachoeira Doc), em seu discurso de premiação: ninguém vai falar por nós.

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    Dicas da Yasmin

    Para participar: Seminário Um Olhar sobre as Experiências de Comunicação Popular. Dia 23 de setembro das 9h às 14h, no auditório da Faculdade Estácio de Sá - R9, na Taquara, no Rio.

    Para repensar: O tráfico atlântico de africanos: uma perspectiva humana. Será realizado em São Paulo, mas conta com transmissão ao vivo. Dia 28 de setembro, às 15h.

    Para conhecer: Sessão Visibilidade Lésbica no Cineclube Em Ação. Dia 25 de setembro, 18h30, no Cultural da Ação da Cidadania, no Rio.

    Para cuidar: Mulheres Negras, autocuidado e a prevenção ao suicídio. Dia 30 de setembro, no Espaço Resiliência Cultural, no Rio.

    Para mergulhar: abertura da exposição Diálogos Ausentes, no Galpão Bela Maré, no Rio. Dia 30 de setembro, às 19h.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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