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Coluna

E se trocassem congressistas por robôs?

    Há um sentimento difundido no Brasil de total descrença na classe política e de que é preciso haver uma ruptura. Mas o risco maior que se coloca é uma renovação sem qualidade e sem inovação

    As redes neurais artificiais formalizam, matematicamente, o sistema de funcionamento não linear do cérebro humano, adquirindo conhecimento por meio de aprendizado. Esses sistemas são capazes de receber uma quantidade imensa de informações e processá-las para que seja possível reconhecer padrões, agrupar e classificar as variáveis. As redes neurais ajudam a dar clareza a um cenário de complexidade, facilitando a compreensão dos fatos e, possivelmente, a tomada de decisão.

    Se o governo brasileiro e o Congresso Nacional fossem substituídos por uma grande rede neural para captar as demandas dos brasileiros (inputs), processar tais informações considerando sua complexidade (sinapses), e produzir peças legislativas e votos coerentes com tais demandas (outputs), o Brasil não estaria nessa crise política.

    Não estou sugerindo que a política seja substituída por inteligência artificial. Mas, nos dias atuais, parece que o resultado vindo dos algoritmos seriam mais populares do que dos políticos em Brasília.

    Ontem vi uma foto de um adesivo (“see through”) mimetizando um título de eleitor que cobria todo o vidro traseiro do carro. No nome do eleitor constava “Não vamos reeleger ninguém”, no espaço do município, “Essa é a nossa arma”. A data de emissão não poderia ser diferente: “chega”. Uma tarja abaixo convocava: “Saia da inércia, compartilhe essa ideia”.

    O sentimento estampado nesse carro parece que se espalha como pólvora pelo Brasil. É o que mostram as pesquisas de opinião. 94% das pessoas acreditam que os políticos no poder não representam a sociedade. 79% prefeririam candidatos de fora da política tradicional para as eleições de 2018. Os desvendamentos de diversos casos de corrupção ao longo dos últimos anos, a exemplo da operação Lava Jato, foram os maiores impulsionadores da rejeição da classe política. Ainda recordo a frase do governador Geraldo Alckmin em 2013, “faltaria guilhotina se o povo soubesse o que se passa”.

    Nesse meio tempo, o Congresso Nacional aprova uma reforma política que protege os políticos e prejudica a renovação. A despeito da desaprovação recorde do governo Temer, 233 congressistas ainda o apoiam formalmente. Governadores, enquanto optam pelo silêncio, abaixam a cabeça para o governo em nome de recursos federais. Alguns partidos, como o PSDB ou PSB, dividem-se entre aqueles que apoiam o governo Temer e aqueles que acreditam que não se trata corrupção com seletividade.

    Ainda há muitos políticos que dizem não entender o descrédito da classe à qual pertencem. Recentemente li num grupo de WhatsApp que os políticos estavam sofrendo bullying. Bullying é o cidadão quem sofre ao pedir A e receber B, insistentemente. Mais recentemente, a falta de humildade da classe política em escutar e a carência  de respostas aos anseios populares se dão porque a maioria dos políticos, em nível naciona,l estão gastando suas energias para erguerem barreiras para a desincentivar a entrada de novatos no jogo. É por puro instinto de sobrevivência – individual, e não coletivo ou partidário.

    A maioria dos movimentos e iniciativas que buscam a renovação na e da política, por exemplo, não querem se aproximar de políticos eleitos. Não é um cenário ideal, até porque há, mesmo que poucos, políticos sérios e experiência tem seu valor. Mas parece ser o cenário viável, inclusive para facilitar o diálogo com a sociedade. O sentimento partilhado por segmentos da sociedade de que é preciso haver uma ruptura, neste momento, renovando os atores e as ideias que ocupam a política, resulta do próprio cenário político.

    Assim como em outros lugares do mundo, o risco maior que se coloca é uma renovação sem qualidade e sem inovação. Por isso, a qualificação desses candidatos será crucial. Ironicamente, os partidos políticos aqui têm um papel relevante, pois são aqueles que poderiam não aceitar candidaturas de aventureiros. Alternativamente, um projeto da sociedade civil, a iniciativa Renova BR, por exemplo, seleciona potenciais lideranças e oferece bolsas de estudos para pessoas interessadas em se candidatar a cargos do Legislativo em 2018.

    Os desafios e as restrições para a democracia brasileira estão postos. É bom lembrar que em 2018 não elegeremos um computador para presidente, mas sim um político. Não elegeremos uma “App Store”, mas um Congresso. Não votaremos em uma marca de smartphone, mas em um partido. Por isso, será fundamental que os representantes públicos estejam mais conectados com as preocupações cotidianas do cidadão, combinem a responsividade das redes neurais com a habilidade política focada no bem público. Só assim se atualiza o software da política brasileira. Caso contrário, o risco do sistema parar  é crescente. E preocupante.  

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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