Coluna

E 'o mercado' com isso?

    Hoje eu gostaria de conversar com meus amigos da elite econômica do Brasil

    As pessoas que trabalham no mercado financeiro ou no alto comando das grandes empresas instaladas no país costumam autointitular-se como “do mercado”. Embora eles não sejam o mercado em sua plenitude – a economia brasileira–, nem homogêneos entre si, vou me referir ao grande capital como eles gostam de ser chamados.  

    Antes de começar, deixo claro que acredito no livre mercado como o melhor sistema econômico. Defendo a competição na economia, como também a regulação inteligente. Mas também sou um entusiasta da economia política e do desenvolvimento. E é sobre isso que gostaria de dialogar com “o mercado”.

    “O mercado” brasileiro parece que é obcecado por si mesmo. Essa obsessão o alivia no curto prazo, mas o trai no longo prazo, tendo efeitos ainda mais danosos para quem não faz parte do “mercado”, os 99% da população brasileira. Se notarmos que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, em renda e em oportunidades, não é difícil de adivinhar que isso ocorre há muito tempo. Além disso, o “mercado” conhece seu poder de influência na política, até porque sempre a financiou. Mas parece que somente no caos enxerga que a política afeta-lhe de forma sistêmica, especialmente nesse tipo de caos que vivemos hoje.

    O mais problemático é que nossa elite econômica parece não aprender com os erros do passado, nem lidar bem com a ideia de democracia em sua plenitude, sobretudo quando os governantes não lhes agradam. “O mercado” exerce sua influência sobre a política para que esta garanta-lhe  oportunidades ou estabilidade em seus negócios, bem como portentosos rendimentos ou subsídios implícitos ou explícitos. É legítimo (e fundamental) que o empresário busque a maximização dos lucros, mas não quando isso é às custas de políticas que poderiam guiar o Brasil rumo à prosperidade. Na história recente, há alguns acontecimentos que saltam aos olhos.

    Em 1964, uma relevante parte do empresariado brasileiro, inclusive a FIESP, apoiou o golpe militar em nome da “estabilidade”, um conceito tão caro à economia. Não preciso refrescar a memória de ninguém para afirmar que, certamente, não foi em nome da “estabilidade” política, muito menos da construção de instituições democráticas resilientes e efetivas.

    Em 2002, a possível eleição de Lula secou o capital externo no Brasil. Muitos brasileiros abastados mandaram dinheiro para o exterior. O medo do “mercado” era que Lula virasse a mesa. Aos invés disso, sentou-se à mesa para jogar suas cartas. Compôs com “o mercado” e passou a seduzi-lo com recursos públicos. Elencou várias empresas como “campeões nacionais” e fez uma magnânima transferência de recursos dos mais pobres para alguns poucos ricos. Foi maior do que qualquer Bolsa Família. O caso de mais “sucesso” da política de desenvolvimento industrial de Lula foi justamente a JBS. Nessa época de bônus em alta, quase ninguém do “mercado” criticava abertamente as políticas do então presidente Lula.

    Em 2016, “o mercado”, em algum momento, apostou todas suas fichas no impeachment da presidente Dilma. As artimanhas contábeis praticadas pela presidente configuraram crime de responsabilidade, mas ela certamente sofreu impeachment pela sua inabilidade política, pela dramática queda de popularidade e teimosa barbeiragem no comando da economia. Porém o discurso que realmente encantou uma parcela do empresariado nacional, que se empenhou inclusive em financiar movimentos pró-impeachment, era o de salvar a economia. A pauta de combate à corrupção foi útil para mobilizar as pessoas a saírem às ruas, mas ninguém minimamente informado e racional poderia pensar que o PMDB de Michel Temer seria uma alternativa para combater a corrupção ou não a usar como método de governo.

    Na semana passada, a maioria dos deputados votaram contra o processo de impeachment do primeiro presidente brasileiro a responder por crime durante mandato. O crime, neste caso, nem precisou de criatividade, foi mala de dinheiro sujo mesmo. Mesmo assim, a maior parte dos discursos favoráveis a Michel Temer batia na mesma tecla: estabilidade. O tema da corrupção parece que caiu em desuso de 2016 para cá. A Esplanada  dos Ministérios em Brasília não precisou ser dividida em dois campos, até porque não havia ninguém nas ruas. O pato amarelo da FIESP nem levantou voo.

    Se o Ibovespa ou a cotação do dólar estão relativamente estabilizados, por conta de uma pretensa (e ingênua) blindagem da equipe econômica, o presidente de plantão tem 5% de aprovação e tem um ministério recheado por investigados por crime de corrupção. Mas mantê-lo ainda é argumento para alguns que acreditam que isso traz “estabilidade” para “o mercado”. Nas palavras do deputado Baleia Rossi, presidente do PMDB paulista, "neste momento, não é razoável afastar o presidente... para levar o país para uma instabilidade política, para uma incerteza econômica." Se você googlar rapidamente o nome do deputado, verá que ele foi citado na delação de Duda Mendonça, investigado por receber propinas do esquema de desvio de merendas escolares no estado de São Paulo e por receber ilegalmente R$ 660 mil  de um empresário de Ribeirão Preto.

    Essas digressões apontam contradições patentes da relação do “mercado” com a política na história recente do país. As apostas de curto prazo na política, visando a ganhos ou oportunidades momentâneas somente, não necessariamente trazem as consequências desejadas para o longo prazo.

    O setor privado é o principal motor de geração de riqueza para o desenvolvimento de um país. Em uma democracia adepta do capitalismo de mercado, o seu desenvolvimento requer instituições que garantam as regras do jogo e a resolução de conflitos. Fazer lobby para que tais instituições estejam de pé e funcionem de forma igual e eficiente para todos, poderia ter retornos futuros maiores do que o lobby pequeno do dia a dia. Até porque seria um investimento mais efetivo na própria estabilidade.  

    O desafio da renovação de ideias não está somente no Congresso Nacional, mas também no “mercado”. Talvez seja a hora de trabalharmos com os olhos no longo prazo, no futuro. E, para isso acontecer, “o mercado” terá um papel fundamental.

    <>

    No mesmo dia em que ocorreu a votação da denúncia contra o presidente Michel Temer na Câmara dos Deputados nasceu minha filha, Olivia. Pelo menos para mim, dia 2 de agosto mostrou que a esperança no amanhã é maior do que a descrença do presente.

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: