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Coluna

E agora?

    Não é que haja corrupção no Brasil. É mais profundo que isso: corrompeu-se a própria ideia de país. Que seja uma oportunidade

    Acabou a ilusão.

    Com as últimas revelações das delações da Odebrecht, não tem mais como negar. Corrupção no Brasil não é falha moral de uns ou de outros: é o jeito de funcionar da nossa democracia. É o modelo de negócios do nosso sistema político. É a forma pela qual o poder é exercido – quanto mais poder um partido tem, mais gente se enlameou, não importando a ideologia.

    Não é que haja infiltrações de esgoto vazando por rachaduras e escorrendo pelas paredes de nossa representação, é muito maior e mais profundo do que isso: o Estado todo está submerso nesse líquido viscoso e fétido. Não é que haja corrupção no Brasil: corrompeu-se foi o Brasil, ele todo. Corromperam-se as próprias ideias de república, de democracia, de direitos, de política, de poder, de Justiça, de Estado, de país.

    Tem um lado meu que sente alívio.

    Afinal, já fazia muitos anos que algo não cheirava bem. Bastava levantar o capô de cada uma de nossas instituições – os partidos, o Congresso, a Justiça, a mídia, a polícia, o negócio – para sentir um desconforto. Por fora, elas seguiam funcionando: máquinas girando engrenagens todos os dias, milhões de pessoas trabalhando de manhã até de noite e voltando para casa satisfeitas, com ar de missão cumprida. Mas, no fundo do meu estômago, faz tempo que eu sentia que algo não estava certo. Que não deveria ser assim. Que nada justificava tanta destruição ambiental, tantos projetos ruins, tantas opções erradas. Quase nunca o que se decidia nos bastidores do poder atendia aos interesses do país. Atendia ao interesse de quem então? Agora, com as denúncias explodindo, finalmente estamos entendendo a resposta.

    Desconfio que você soubesse também – no fundo, bem no fundo do estômago. Por anos, temi que o problema fosse comigo. Que o cheiro ruim estivesse impregnado nas minhas narinas: afinal, não era possível que tudo estivesse fedendo tanto. Seria paranoia? Loucura?

    Então é bom perceber que o problema não sou eu. Que o incômodo tinha razão de ser.

    Mas é claro que uma outra parte de mim está com muito medo. Este caldo no qual estamos flutuando é tão incrivelmente fértil para brotar intolerância, ódio, violência, medo, caos. Será que meus dois filhos pequenos vão viver até suas idades adultas num país em lento e inexorável desmoronamento? Será que dos escombros surgirão aventureiros truculentos tentando se aproveitar do nosso trauma para instituir regimes totalitários? Será que um dia conseguiremos nadar para fora desse redemoinho de ressentimento e trauma? Será que voltaremos a confiar uns nos outros e a acreditar na possibilidade de construir um país juntos?

    Para mim o primeiro passo é reconhecer que não foi esse ou aquele indivíduo que apodreceu. Não foi o PT. Não foi o PSDB. Não foi o PMDB. Não foi o FHC ou o Lula. Não foi o Congresso ou o Supremo. Não foram a agroindústria, ou os bancos, ou as construtoras. Foi o ar que eles todos respiravam, o ambiente inteiro. É o sistema que está podre. É o sistema que entrou em colapso.

    Não estou aqui tentando inocentar ninguém, claro. É o contrário disso: sobrou culpa para todo mundo. Todos os partidos políticos que compartilhavam o poder estavam envolvidos no esquema – os que não estavam tampouco tinham poder. Todos os setores econômicos que dependiam de relações com o Estado se lambuzaram. Todo mundo que jogou o jogo, mais cedo ou mais tarde, compactuou com a trapaça. E é compreensível que o país esteja com raiva, querendo punição aos culpados.

    Mas atribuir culpa, embora possa aplacar nossa raiva, não resolve o problema. Botar todo mundo na cadeia e manter o sistema inundado de uma cultura podre não adiantará de nada. Por isso que eu acho que, muito mais importante do que detectar culpados é compartilhar responsabilidades.

    E os responsáveis, precisamos reconhecer, somos todos nós – cada um dos 200 milhões. Não só quem jogou. Também todos que assistimos da arquibancada, eventualmente xingando a torcida do outro lado do estádio: cabe a cada um de nós assumirmos um pouquinho da responsabilidade por reerguer este país. Cabe a nós todos o trabalho de estabelecermos um novo pacto social, uma nova relação entre nossas vidas e nosso Estado, uma nova dinâmica de participação da coisa cívica.

    Ao longo dos próximos meses ouviremos muitos clamores dos representantes do sistema para que nada de muito profundo mude. Para que expiemos uma meia dúzia de bodes – ou umas 12 dúzias, que seja – em nome da preservação do resto do status quo. Ouviremos também clamores para que, em nome da estabilidade, o brasileiro abra mão de um pouco mais de democracia e direitos e ceda ainda mais poder e privilégios para aqueles que têm tanto.

    Já estamos ouvindo, na verdade: tem gente defendendo, por exemplo, a lista fechada para eleger deputados, de maneira a tirar um pouco mais de valor do nosso voto (significaria que nós votaríamos apenas no partido, e que caberia a cada partido escolher os nomes dos eleitos – eles quase certamente escolheriam os mais bem relacionados de cada sigla, que como regra têm sido os mais envolvidos em corrupção).

    Sou contra. Nesse aspecto, fico com os pensadores clássicos, como o francês Alexis de Tocqueville, que visitou a jovem república americana na primeira metade do século 19 e ficou encantado com a forma como “as doenças da democracia são tratadas com mais democracia”. Por mais que estejamos traumatizados, por maiores que sejam nossas desconfianças em relação à nossa própria capacidade, só haverá futuro para o Brasil com mais abertura, mais participação, mais transparência. Não menos, como querem tantos, inclusive boa parte da mídia tradicional, tão falida quanto a política.

    Por mais grave que seja a crise econômica que nos acomete, a hora não é de deixar que eles decidam, diante da urgência. Precisaremos de paciência. A hora é de reconstruir o país, de baixo para cima, convidando todos para participarem do processo. A hora é de escrever uma nova Constituição, armar um novo sistema político, erigir um novo pacto social. Que o trauma nos inspire para, desta vez, planejarmos um país justo, sem privilégios para ninguém, sustentável e inovador.

    Parece utópico, mas não acho que seja impossível. O Brasil já provou que sabe fazer isso, quando partiu de um amplo processo participativo para criar o Marco Civil da Internet, uma lei criada coletivamente, que justamente por isso é tão melhor do que quase todas as escritas pelos congressistas. O fato, inegável, é que as instituições brasileiras implodiram. Por mais assustador que isso seja, pode ser a maior oportunidade da nossa história.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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