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Coluna

E aí? Tudo tranquilo?

    Então: não. Como é que pode estar tudo tranquilo se, a cada quatro cidades brasileiras, uma encontra-se em estado de emergência?

    Foi manchete da Folha na segunda-feira: neste momento, 1.296 municípios no Brasil têm estado de emergência decretado, geralmente por causa da destruição causada por chuva demais ou chuva de menos. É um número 35% mais alto que o do ano passado, que já tinha sido historicamente alto. O recorde é grotesco, assustador. Pense no que é uma emergência. Agora pense que, a cada quatro cidades brasileiras, uma está tendo que lidar com algo assim – as ruínas, os desabrigados, os corpos.

    Apesar da manchete de segunda-feira, o tema passou longe de dominar o noticiário da semana e as rodas de conversa de Brasília. A primazia coube aos furacões habituais da política – juiz fazendo tráfico de influência, presidente fugindo da Justiça, deputado passando ridículo, a rotina de sempre. Nenhuma das altas autoridades da República se pronunciou sobre a emergência climática.

    Claro que o problema do clima não é exclusivo do Brasil. Também esta semana, o furacão Harvey ensopou o sul dos Estados Unidos de maneira tão extrema que o serviço nacional de meteorologia teve que colocar cores novas nos seus gráficos, porque nunca antes tinha tido que representar tanta água. No mundo inteiro, eventos climáticos extremos estão tornando-se mais extremos e mais frequentes, como aliás todos os modelos climáticos vinham prevendo há décadas. É um problema global.

    Mas, no Brasil, fica mais grave, por causa da desconexão entre os interesses dos poderes políticos e a realidade do clima lá fora. Não estamos nos preparando para enfrentar a emergência climática, nem fazendo nada para reduzi-la. Não estamos formando equipes de remoção e socorro realmente eficazes, nem reflorestando margens de rios, nem dando saneamento básico a bairros erguidos em áreas de risco, nem salvando ecossistemas para melhorar o escoamento da água, nem tentando descobrir jeitos menos destrutivos de viver da terra. Estamos em negação.

    É um completo absurdo que, neste momento da história, quase toda a movimentação do Congresso Nacional em relação à Amazônia seja no sentido de facilitar seu desmatamento – aumentando muito a emissão de gases de efeito estufa e prejudicando as dinâmicas climáticas continentais. Não é só que não estamos fazendo o que deveríamos – tendemos a fazer o contrário.

    Muita gente, inclusive quase todos os políticos com poder, trata da discussão sobre o clima como se fosse uma platitude, importante e tal, mas estou com o orçamento apertado, conversamos outra hora. O que eles não percebem é que a conta chega – já está chegando, e vai aumentar rápido. Recentemente, três economistas da UFRJ se puseram a colocar preços nos prejuízos que o clima já está nos provocando. Descobriram que, entre 2002 e 2012, o Brasil gastou mais de um quarto de trilhão de reais só com enxurradas, inundações e deslizamentos, deixando de fora o maior custo, que é humano. Ao longo das últimas duas décadas, 46 milhões de pessoas foram afetadas no Brasil por esses desastres naturais, o que corresponde a um quarto da população – 4 milhões ficaram desabrigados, quase 4 mil morreram. Os números ficam mais altos a cada ano.

    Acho meio chocante nossa capacidade de naturalizar esses fatos. Vemos essas estatísticas absurdas e a óbvia tendência exponencial que elas apontam e tocamos a normalidade da vida. A imprensa registra os recordes, até dá manchetes, desde que numa segunda-feira, dia lento para as notícias. Mas ninguém parece ligar os pontos. A matéria de capa da Folha, por exemplo, nem menciona as mudanças climáticas – muito menos critica o modelo de produção e de ocupação do espaço no Brasil. É o que é. E os políticos seguem gerindo as cidades e os estados como se nada estivesse acontecendo. Velocidades sobem, árvores caem, assim é a vida.

    E seguimos nós, cada um de nós, a normalidade da vida, enquanto a emergência não vem.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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