Coluna

Dona Ivone Lara, uma joia rara

    Com 70 anos de carreira, ela construiu um legado importantíssimo para o Brasil, para nós, mulheres negras, para os seus admiradores, para quem gosta de samba, para quem resiste, para quem sonha em permanecer vivo

    Eu tenho muito respeito por quem faz samba no Brasil. Mais ainda pelas mulheres negras que conseguiram chegar aos 96 anos de idade defendendo o samba com suor, amor e dedicação, como é o caso da nossa rainha ancestral Dona Ivone Lara.

    Não sou uma especialista nem grande conhecedora de sua obra, mas sempre que ouço uma música de Dona Ivone, numa roda de samba ou em casa, me sinto mais forte e com mais coragem para seguir acreditando num Brasil melhor, com condições mais justas para populações que fundaram este país: os negros e os indígenas.

    Estamos vivendo num tempo em que o Brasil é o país em que mais se mata no mundo. Onde, também, morrem 30 mil jovens por ano, 2.500 por mês, 82 por dia, sete a cada duas horas. Desses mortos, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado com armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.

    Tempo também de Claudia Ferreira da Silva, Luana Barbosa dos Reis Santos, Amarildo Dias de Souza, Rafael Braga Vieira e tantos outros casos que viraram símbolos dessa barbárie que vivemos com a falência das políticas públicas em geral, principalmente as de segurança.

    E isso não é de hoje. Por isso que ouvir Dona Ivone Lara é viver nas suas entrelinhas musicais a confrontação com um passado tão presente. Não podemos esquecer que, ainda no período da ditadura militar no país, nossa mestra lançou alguns discos. Entre eles, "Alegria, minha gente!" e "Sorriso negro", cujos títulos e as músicas revelam a história que escolheu contar naquele momento. Acessar essa memória que Dona Ivone deixou para nós é ter a possibilidade de estar mais perto da nossa plenitude, desse samba que é um modo de viver e de revelar a riqueza do nosso pessoal, do nosso povo!

    Dona Ivone, com o seu samba feito para dançar e cantar, desde a década de 1940 já era uma compositora (que não pôde assinar suas músicas devido ao machismo, que impedia o acesso pleno de mulheres ao meio musical). Mas só na década de 1970 é que lança seu disco " Samba minha verdade, samba minha raiz". A música que mais me marca nesse disco é a “Nas sombras da vida”, porque faz todo sentido a reflexão que a música traz dentro do contexto passado e do presente também. Ela diz: “Segue meu lamento / E a tormenta está pra se acabar / Há uma luz abrindo a escuridão / Um jeito de alegria / Um canto de perdão / E é minha vez de poder cantar / E desabafar tudo que senti / Dias de sol / Mãos procurando por mim / Trazendo amor sem fim”

     

    Com 70 anos de trajetória artística, Dona Ivone Lara construiu um legado importantíssimo para o Brasil, para nós, mulheres negras, para os seus admiradores, para quem gosta de samba, para quem resiste, para quem sonha em permanecer vivo. Dona Ivone nos ensina que “são os sofrimentos do mar, que ele joga pra lá, ameniza a dor, faz a gente sonhar o encanto que traz o desejo de amar”.

    Revisitar a obra de Dona Ivone Lara nesses tempos é olhar o passado para entender o presente e seguir lutando em busca de um futuro das retomadas das terras, dos valores, dos povos, dos direitos, da cultura e das vidas. Sem perder a ternura!

    É uma honra e um prazer imenso viver em seu tempo. Melhoras, Dona Ivone Lara! O Brasil precisa da senhora.

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    Dicas da Yasmin

    Até o dia 21 de agosto está rolando a Mostra Baixada Em Cena no Galpão Gamboa, no Rio.

    Sábado, dia 26 de agosto, rola o Sarau Donana em Belford Roxo, no Rio.

    De 30 de agosto a 9 de setembro, o Rio de Janeiro recebe o “Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe”. São 10 anos de história!

    No dia 31 de agosto, em São Paulo, rola a exposição "Agora somos todxs negrxs?", no Galpão da Videobrasil, com curadoria de Daniel Lima. Essa é a primeira exposição a reunir a jovem produção negra brasileira a artistas consagrados.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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