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Coluna

Desigualdade, violência, Estado e teimosia

    Dois livros nos fazem colocar em perspectiva a possibilidade de superar a desigualdade. Mas teimo em acreditar que é possível

    Sou fascinado pela explicação do por que sociedades se tornam desiguais, como perpetuam a desigualdade ao longo do tempo e quais são os efeitos da desigualdade para o seu desenvolvimento.

    Recentemente, li um livro impactante, “The great leveler”, do historiador e professor da Universidade Stanford Walter Scheidel. O autor se propõe a explicar a história da desigualdade da Idade da Pedra até os dias atuais. Seu principal argumento é que a desigualdade frutifica em momentos de estabilidade e reduz-se nas catástrofes violentas, como guerra, revolução, o colapso do Estado e desastres naturais.

    Grandes eventos históricos como a Peste Negra, uma epidemia que devastou a Europa na Idade Média, o colapso de dinastias como a Tang na China ou do Império Romano, a pauperização generalizada resultante de revoluções, como a russa iniciada em 1917, ou as duas grandes Guerras Mundiais, atacaram as bases dos respectivos sistemas econômico e político, de modo que se forjou uma redução da desigualdade.

    Para aqueles que trabalham com políticas públicas, como eu, se comprar totalmente o argumento de Scheidel, muda de profissão. O autor é bastante cético sobre a redistribuição de renda decorrente de crises financeiras ou reformas políticas. Já outros tipos de reforma, como a agrária ou abolição da escravidão, só teriam efeito equalizador da renda caso houvesse violência generalizada.

    Como consequência, para o historiador, um país que até hoje não passou por nenhuma guerra, revolução, colapso do Estado ou desastre natural em grandes proporções tem mais chance de ter ser mais desigual.

    Vamos imaginar um país desse tipo, o Brasil.

    Nos dias de hoje, a crise política e econômica são profundas, mas se olharmos numa perspectiva comparativa e histórica não é nada assustador. Em nossa recente história, o Brasil passou por uma independência, proclamação da República, uma série de ziguezagues entre democracias, de alguma forma, e ditaduras.  A classe mais abastada nunca viu um derretimento imediato de sua riqueza, pois nunca houve uma catástrofe generalizada para tal. A desigualdade social se aprofundou na ditadura, diminuiu na Nova Democracia, mas ainda assim é uma das maiores do planeta.

    Será que continuamos desiguais porque não houve uma catástrofe violenta em um dos países mais violentos do mundo?

    Creio que ninguém vai olhar para o céu à espera de um meteoro ou começar a planejar uma revolução para que o país tenha um choque de pobreza.

    Miguel Centeno, em seu livro  “Blood and Debt”, bastante inspirado na obra do cientista político e historiador Charles Tilly, argumenta que os países da América Latina não construíram um Estado forte devido à falta de guerra externa em grande proporção. Afinal, é nas guerras contra outros países que se exige uma maior organização dos Estados seja para cobrar impostos, seja para gastá-los da forma mais eficiente possível. Dessa forma, o poder redistributivo do Estado foi severamente afetado. Ainda pior, o alto índice de violência interna aos países da América Latina contribuiu ainda mais para a fragilidade da construção dos Estados nacionais, como também para o desenvolvimento da região.

    Embora as obras de Scheidel e Centeno tenham olhares completamente diferentes, é interessante notar que no Brasil, assim com outros países da América Latina, a ausência de choques externos de larga proporção pode ter contribuído para a perpetuação da desigualdade e para o enfraquecimento da única instituição que poderia combater as desigualdades: o Estado.

    Neste momento, você deve estar se perguntando por que eu ainda trabalho com políticas públicas. Pior, como é que vamos sair dessa pindaíba em que o Brasil se encontra.

    Acredito que olhar os problemas em uma perspectiva ampla, como essas duas obras nos oferecem, sugere a dimensão (reduzida) das ações que podemos tomar no longo prazo. Mas isso é suficiente para nos dar humildade, e também ambição.

    Por isso, prefiro teimar e continuar achando que é possível reduzir desigualdades de oportunidades por meio de  políticas públicas, sobretudo em um país em que tanto a taxação quanto a prestação de serviços públicos são regressivas. Eu também teimo que é possível construir um Estado mais eficiente sem a necessidade de guerra. Mas toda essa teimosia precisa ser coletiva – e esse é o grande desafio do desenvolvimento.

    Mesmo assim, quando deixar de teimar, assim como muitos outros colegas, será hora de mudar de profissão. Eu até gosto muito de cozinhar, mas acho que continuarei teimando mais um pouco.

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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