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Coluna

Depois da tempestade

    Me ocorre agora que o meu infortúnio idiota é uma metáfora natural do que ocorre hoje no Brasil, pra não dizer no mundo

    Diz o ditado que, depois da tempestade, vem a bonança. Mas pude ver com meus próprios olhos que depois da tempestade o que vem é a bagunça, especialmente se você deixou as janelas do seu apartamento abertas ao sair de casa num desses dias abafados de verão, com nuvens enfezadas comendo o firmamento pelas bordas, a indicar tempestade à vista.

    Ao voltar pra casa à noite, constatei que a ventania aquática tinha botado tudo que não pesa mais de uma tonelada de pernas pro ar: papéis, livros, quadros, luminárias e um sem-número de pequenos itens da decoração. E tudo devidamente encharcado pela chuva, o que incluía tapetes, sofás, poltronas, cortinas e camas.

    "O horror tem uma cara", suspirou o tresloucado Coronel Kurtz, vivido por Marlon Brando em “Apocalipse Now”, o filme genial de Francis Coppola. E a cara do horror naquela noite era a visão do meu apartamento devastado pela tempestade.

    O que eu aprendi com isso, além de que é de lei fechar as janelas antes de sair de casa, sobretudo no verão? Nada que eu já não soubesse. O que é que se pode aprender com os pequenos desastres que engolfam nossa vidinha cotidiana? Nada vezes nada. Só te resta lamentar a má sorte, imprecar contra a fúria dos elementos e, eventualmente, desejar não ter nascido. E olha que me refiro aqui apenas a prejuízos materiais de pouca monta e à trabalheira danada que dá botar a casa em ordem depois da visita de uma típica tempestade de verão.

    Me ocorre agora que o meu infortúnio idiota é uma metáfora natural do que ocorre hoje no Brasil, pra não dizer no mundo. Depois da tempestade Dilma, sobreveio a bagunça Temer, com ministros corruptos entrando e saindo de seus ministérios com uma taxa de rotatividade própria de quarto de prostíbulo barato. Vivemos hoje à matroca, sujeitos à bandidagem crônica dos políticos e administradores públicos brasileiros, a qual enseja níveis de incompetência e precariedade dos serviços providenciados pelo Estado poucas vezes superados na história do país.

    A fortíssima - e tristíssima - impressão que se tem é que saúde, transporte, educação, segurança, habitação e a própria economia, tão tudo na mão de criminosos e picaretas, ínfima parcela dos quais encarcerada hoje em presídios de Curitiba e do Rio de Janeiro. Ou de gente que até pode ser pessoalmente honesta, mas se acha tolhida ou desmotivada pelo caos administrativo e moral imprimido pela politicagem à administração da coisa pública. Que outra percepção da realidade nacional pode ter quem consome as notícias diárias provenientes seja da "mídia golpista" ou da "engajada"?

    Falando em mídia engajada, não resisto a encaixar aqui um breve parênteses. Há um ano exatamente, uma revista "de esquerda" me pediu um artigo para uma edição especial. O cachê prometido não era nenhuma ópera, mas arregacei as mangas, em plenas férias na praia, e mandei o texto pra eles. O artigo foi publicado, mas o cachê nunca veio, apesar das minhas reiteradas cobranças. Dia desses, leio que uma delação da Lava-Jato apontava um aporte duvidoso de um punhado de milhões de reais, saído dos cofres da generosa Odebrecht, a dona do Brasil, para a editora que publica a tal revista esquerdista. Porra, bradei para o universo inumerável. E não sobrou nem uns caraminguás pra me pagar?!

    Lendo essas considerações ranzinzas, o leitor de Nexo dirá: o cara esqueceu as janelas do apartamento abertas em época de previsíveis temporais, tomou um cano de uma revista claramente vinculada ao PT, e vem agora destilar seu pessimismo cósmico pra cima da gente? Ora, compre um rodo, uma batelada de panos de chão, bote a sua casa em ordem, engula o cano que levou do "jornalismo companheiro," a exemplo de tantos brasileiros que engolem sapos bem piores que esse todos os dias, e vá plantar batata!

    Tivesse eu uma terrinha e algum conhecimento de agricultura, é isso mesmo o que eu faria: plantar batata, feijão, couve, mandioca, rabanetes (adoro rabanete, com um fio de azeite e uma pitada de sal!) e até alguma cannabis sativa, caso fosse modernizada, em sentido descriminalizante, a legislação facistoide que pretende reger as relações dos cidadãos com as drogas, a contrapelo do que já rola em lugares mais civilizados do planeta.

    Por ora, o que me resta é grudar um aviso de "Fechar todas as janelas!!!!" na porta de casa e sair em busca de um bar com amigos onde eu possa tentar esquecer, nos copos e na prosa afiada, que temos um velho raposão na presidência, cercado de um bando de larápios, pelo que nos informam as delações colhidas pelo Ministério Público. E que nos vemos diante da perspectiva de outra quadrilha de pilantras, demagogos e incompetentes velhos de guerra tomarem de assalto o poder no Brasil nas próximas eleições presidenciais.

    A quem pedir socorro? Às nuvens tempestuosas do céu, que encharcaram meu apartamento? À Samarco, que arrasou Mariana, em Minas Gerais, graças à incúria dos órgãos de vigilância ambiental? Aos notórios fregueses do "departamento de operações estruturadas" da Odebrecht, tais como Romero "Caju" Jucá, Eliseu "Primo" Padilha, Renan "Justiça" Calheiros, Moreira "Angorá" Franco, Eduardo "Caranguejo" Cunha, Geraldo "Santo" Alckmin, Geddel "Babel" Vieira, Lula "Brahma" da Silva, Antônio "Italiano" Palocci?

    Num tal beco sem saída só me resta recorrer ao meu velho guru americano, Mr. Charles "Hank" Bukowski, que disse num poema:

    Eu queria chorarmas o remorso é estúpido.Eu queria acreditarmas a crença é umcemitério.

    Ah, antes que eu me esqueça: feliz ano novo a todos! (E não se esqueçam de fechar as janelas ao sair de casa, crianças!)

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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