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Coluna

Da arte de estar ‘dentro’ e ‘fora’

    Se, quando estou no Brasil, sou a primeira a desconfiar do nacionalismo essencial e da patriotada alvissareira, já no exterior sou contaminada por esses sentimentos

    A cada ano - e já faz quase dez anos -, passo uma temporada na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.  Nesta semana começo minhas aulas por aqui, e é sempre uma sensação ambivalente que me invade nessa ocasião: aquela que revela as dificuldades de estar “fora” e de estar “dentro”.

    De um lado, sair um pouco do país, nesta época tão marcada por “essa nossa  crise de cada dia”, por tanta intolerância e gestos diários de discriminação, causa um certo alívio. Mas o que pega mesmo é a segurança, oposta à insegurança que já virou lugar comum no Brasil.  A quantidade de energia que dispendemos aferrolhando nossas casas, deixando de andar livremente pelas ruas, segurando bolsas e fechando bolsos para evitar o roubo, trancando nossos carros ou evitando ficar parado em  lugares públicos é proporcional à naturalização com que acabamos nos submetendo a esses expedientes, por certo, violentos .

    Andar nas ruas, a qualquer hora, e sem ter medo, é uma experiência quase que libertadora, não fossem  as loucuras próprias aos EUA, que vem sofrendo com atentados inexplicáveis vindos de “dentro” – como esse que acaba de ocorrer numa igreja no Texas – e de “fora”.

    Assisti à chegada da maratona de Nova York, no domingo passado, e o tamanho e o peso das pedras que foram colocadas nas calçadas, para evitar essa nova modalidade de terrorismo, que implica o uso de automóveis para atropelar vítimas inocentes, explica bem o outro tipo de insegurança que aflige também este país.

    Mas há vários problemas em ser de  “fora”; de se sentir estrangeiro em um país. O historiador Boris Fausto explica que, se a comida socializa, a  língua nos aparta. Conforme Camões poetou, e Caetano colocou nos versos da canção, “a língua é minha pátria, e eu não tenho pátria, tenho mátria, e quero frátria”.

     

    Pois sim, toda imigração, de longa ou de curta duração, significa um processo de infantilização, com uma pessoa adulta, até bem formada, passando por verdadeiros rituais de iniciação, e diuturnamente.  Faltam termos para comprar o bilhete do trem; palavras para explicar as necessidades mais cotidianas; expressões que nos ajudem a vencer a lida do dia a dia. Como definiu um amigo meu, André Botelho, a operação é de desapego. Uma conversa qualquer pede uma concentração de elefante; uma palestra vira prova de adivinhação, e a sensação que se tem, mesmo com muitos anos de janela, é que quando se abre a boca para uma observação caprichada, só se ouve sair dela algo que soa como um “nenê qué papá”.

    Passei por muitas e boas, quando trabalhando no exterior. Gostaria de lembrar de alguns desses micos, uma vez que eles viraram emblemáticos, quase simbólicos, na minha carreira no exterior.

    O primeiro deles foi quando, anos atrás, fui dar uma palestra em Oxford sobre o Império brasileiro. Vim com meu paper pronto e treinado: li tudo, sem erros (apenas com o coração batendo forte), em contados (e corretos)  20 minutos. Sim, pois por aqui não existe essa de ficar descontando ou aumentando o tempo.

    Quando acabei de falar, e achei que minha missão estava terminada,  fui apresentada à dura realidade: um especialista em história mexicana (considerado um expert em Brasil, não sei bem por que) teria os mesmos 20 minutos para comentar e fazer questões acerca da minha apresentação.

    Gelei, ainda mais porque o sotaque de Oxford de meu colega mexicano era basicamente incompreensível. O professor  falava com uma batata (assim eu imaginava) na boca, e vivi 10 minutos de puro terror! Eu teria que reagir às observações dele e a princípio não consegui entender uma palavra sequer! Com o passar dos minutos, que corriam urgentes, consegui captar alguma coisa: fiz o que pude.  Mas a sensação de frustração ficou comigo, e o suor do momento também.

    Há outra experiência que me lembra, ainda mais, esse sentimento de “estar fora”, quando se quer ficar “dentro”.  A despeito do quase desastre que narrei acima, Oxford acabou se convertendo na minha primeira experiência de morar e trabalhar no estrangeiro.  Desambarquei cheia de planos, com a mala em uma das mãos e a vontade de vencer na outra. 

    Lembro bem dessa minha entrada – nada triunfal. Cheguei sozinha, como convém a toda aquela que quer se reconhecer independente. Eu fora informada de que deveria procurar a zeladoria, e que por lá receberia a chave do meu novo apartamento. Tudo parecia fácil e quase autoexplicativo. Reconheci logo o local indicado, dentro do meu College, e, segura, tratei de ir me apresentando: nome, país, função. Todas marcas seguras de identidade, que logo iriam “melt into the air”: derreter. Dei de cara com um funcionário, um tanto mal humorado, que me perguntou algo, que nem com a maior das boas vontades eu teria condição de entender: “Where is your P O A L...?” Compreendi que ele havia mencionado algo importante, mas por mais que apurasse o ouvido, nada de inteligível se apresentava. Vexada, me saí com um sonoro: “What”? Ao que o senhor, já mostrando claros  sinais de irritação, repetiu a mesma frase, da qual captei (e com esforço) apenas a metade:  “where is your... hall?”. Mais uns minutos de verdadeira tortura e consegui depurar a frase toda: “Where is your pigeonhole?”, me perguntava o outrora pacato zelador, cada vez mais zangado com meu péssimo desempenho.

    Entretanto, compreender a frase em nada ajudou. Por isso fui obrigada a dar continuidade àquele sofrível debate: “what a pigeonhole is?”, perguntei eu, a essas alturas completamente sem jeito. Nervoso, pra valer, o funcionário indagou com uma voz ríspida e muito sonora: “you do not know where your pigeonhole is?” Ao que  eu reagi, já meio cética, e com um fio de voz: “how can I know if I have a pigeonhole, if I have no idea about what a pigeonhole is”? Tal confissão de derrota foi demais; bufando, o até então imóvel cidadão britânico saiu de seu recinto seguro, me levou a meu escaninho, onde encontrei um pequeno cubículo com meu nome, alguns documentos e... minha chave! Enfim, prateleira era sinônimo de “casa de pombo”; nada mais óbvio e mais inesperado para um estrangeiro recém-chegado na tradição milenar de Oxford.

    Entrei tão cansada  em meu apartamento, que tive a certeza de que nada daria certo. Até que deu, e repeti muitas vezes essa experiência de me construir como brasileira no estrangeiro.    Quem sabe é só no exterior que se entende o significado da palavra “estrangeiro”. Manuela Carneiro da Cunha, em seu livro “Negros estrangeiros", conta a sina de alguns libertos residentes na Bahia, que no Brasil eram considerados  “africanos”  e que quando foram para a África passaram a ser chamados de “brasileiros”. Exemplo radical dessa condição de estrangeiro, o caso revela como o processo de construção de identidades é feito por meio da eleição de alguns traços (em detrimento de outros) e sempre por contraste e contraposição.

    No meu humilde caso particular, não é difícil perceber como fora do Brasil me converto imediatamente em brasileira. Torço pelos times nacionais, canto e defendo as músicas da terra, me emociono quando vejo um artista brasileiro fazer parte das coleções de museus norte-americanos, e assim por diante. Mais ainda, assim como os “brasileiros da África”, passo a criar culturas. Em Lagos, os ex-escravizados viraram católicos e construíram igrejas “brasileiras”. Já na minha experiência singular, me vejo falando de Brasil como quem discute time de futebol.

    Se, quando estou no Brasil, sou a primeira a desconfiar do nacionalismo essencial e da patriotada alvissareira, já no exterior sou contaminada por esses sentimentos. Como professora, se não me cuidar, vou me pegar falando apenas de capoeira, candomblé, samba, malandragem e, nos dias de hoje, de corrupção. Como se esses traços da cultura virassem marcas, rígidas e a-históricas, de identidade.

    Talvez seja por isso que Franz Boas tenha definido a cultura como uma “segunda pele”; temos a tendência de naturalizar o que não passa de estratégia de inserção e de pertencimento.

    No Brasil, somos muitos. Hoje em dia, com as dicotomias lançadas na cena pública, usamos das estratégias de identidade para nos definirmos em termos de gênero, raça, condição social, região, religião ou geração. Esses marcadores viraram, mesmo, RG por opção. No exterior, entretanto, ninguém escapa da armadilha da ambiguidade: é fácil carregar a mala inteira e virar um “nativo exótico” ou um “brasileiro essencial”.  Como escreveu Fernando Pessoa: “para viajar,  basta existir”. 

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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