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Coluna

Como viver ‘feliz para sempre’

    (e sem um príncipe encantado)

    Em tempos de distopia, só mesmo um filme infantil para prometer um mundo feito de bons prognósticos, modelos éticos e saídas morais. Apenas no terreno saudável do desenho animado parece existir espaço para imaginar uma heroína com atitudes democráticas e que não precisa encontrar um príncipe encantado para ganhar uma legenda final, do tipo: “viveram felizes para sempre”.

    Estou me referindo a “Moana”, o mais recente filme dos estúdios Disney, que traz uma princesa feminista como protagonista; uma jovem polinésia que embarca sozinha em uma viagem pelo Pacífico procurando assim mudar o destino de seu povo.

    Não é que faltassem, até então, heroínas e princesas com atitudes mais arrojadas ou até guerreiras. Basta lembrar, para ficarmos no caso da Disney, do exemplo de “Mulan”, que se vestia como homem, batalhava melhor que eles, mas não escapou do “derradeiro destino”: felicidade, e daquelas duradouras, apenas com um marido ao lado!

    “Moana” também não é totalmente fora da curva quando comparada a outras protagonistas. Ela lembra figuras como Tiana, de “A princesa e o sapo”, com a diferença de que esta última é feminista “até” (...) encontrar seu sapo em forma de príncipe. Há também outra diferença fundamental; nesse último filme é absolutamente enervante a maneira como aparecem estereotipados, e até demonizados, todos os elementos de religião de matriz africana.

    Prefiro assim voltar à nossa personagem da polinésia. Ela também poderia evocar Ariel, a heroína de “A pequena sereia” que ousa enfrentar seu pai, Netuno, pois tem certeza de que os humanos não são tão ruins como se pensa. Mas, ainda assim, sucumbe diante da autoridade e do amor masculinos, expressos pelo sempre belo e galante príncipe Eric.

    A nova aventura da Disney também abusa, com grandes doses de exagero, da cantoria estridente, e não esquece de comover o público com simpáticos bichos de estimação. Pretensamente secundários, eles geralmente roubam a cena. Nesse caso, o personagem mais engraçado é o galo Hei Hei,  que não tem qualquer ideia do que se passa a seu lado, mas, como sempre, acaba salvando a princesa numa hora difícil.

    Como vai ficando claro, tudo é parecido mas também muito diferente. Vamos lá: Moana começa e termina o filme sem namorado. Além disso, não precisa romper com a família para se afirmar. Também não é obrigada a transformar o semideus, Maui, em humano (e assim se casar com ele). Tampouco ocorre o oposto: ela não abre mão do seu mundo para entrar no dele. Ao contrário, nesse jogo de inversões, até a divindade é pra lá de imperfeita: é vaidoso, muito centrado em si, e, ademais, complexado com as besteiras que fez no passado. Para completar a figura, é um pouco gordinho (ao menos na métrica severa da Disney, que prefere príncipes atléticos), com cabelos mechados que lhes caem nos olhos, haja sol ou haja chuva.

    É claro que não há apenas “ousadia” por parte da indústria norte-americana. Na verdade, a cultura é o que ela faz, e assim a relação com o contexto é muito mais reflexiva do que apenas pautada na ideia mecânica de causa e consequência.

    todos nós, durante muito tempo, acreditamos numa espécie de régua da antiguidade clássica, que impunha ponderar que qualquer passado digno de relevância só poderia ter origem grega, romana ou egípcia

    Esse é, pois, um desenho antenado com os novos arranjos familiares. Por isso, à sua maneira, ele reage e traduz a realidade de mães que têm decidido conceber e criar seus filhos por conta própria, sem a presença de um marido, de uma família, ou até mesmo de um pai titular. Também diz respeito aos núcleos familiares constituídos apenas por mulheres. Por fim, dialoga com esposas, companheiras, namoradas, e o que for, que não têm como objetivo último na vida encontrar seu príncipe encantado - e ponto final.

    Mas há outro detalhe digno de atenção. Quando saí do cinema, acompanhada das minhas netas – Maria Isabel e Alice –, entabulou-se um diálogo inesperado. Uma delas estranhou que povos “como esses”, dizia ela, tivessem “mitos”. Na sua própria concepção, e do alto de seus oito anos, ela me explicou que apenas os egípcios inventavam “esse tipo de coisa”. Já a irmã, com a autoridade de mais velha, explicou que “até nós tínhamos mitos!”.  As “lendas urbanas”, acrescentou com ar professoral.

    A conversa foi longe e vou privá-los dos detalhes “mais picantes”. O que importa é que não só elas, mas todos nós, durante muito tempo, acreditamos numa espécie de régua da antiguidade clássica, que impunha ponderar que qualquer passado digno de relevância só poderia ter origem grega, romana ou, no máximo, egípcia. Não por acaso, e sem medo de errar, chamamos a Grécia de “berço da civilização”, e no singular. Como se só existisse um passado, e comum à toda humanidade.

    Isso sem descurar da “métrica andina” que vigorou no continente sul-americano. A acreditar nessas teorias, os únicos povos que “teriam o que nos contar” seriam maias e astecas. O suposto é que “nada” existia no resto do continente, e que o índice para verificar o grau de evolução eram edificações duradouras como as encontradas no México, na Bolívia ou no Peru.

    Como diz o etnólogo Claude Lévi-Strauss, em “Raça e história”, não há povo que tenha esquecido de seu caderno de infância. Todos guardam suas histórias para contar. Cristóvão Colombo quando atracou suas naus na América encontrou uma terra povoada por nações conectadas em rede. A densidade populacional era tal, que correspondia àquela verificada na Península Ibérica, na mesma época. O que os europeus não tinham ideia (e nem interesse de saber), era que nesse grande continente vigia um sistema político de chefias centralizadas, contando com um líder supremo com poderes sobre aldeias e distritos hierarquicamente subordinados. Diferente do Velho Mundo (que resolveu assim se chamar para se opor às terras por eles “invadidas” e então denominadas, e por contraposição, como Novo Mundo), por aqui não existia um corpo de funcionários administrativos, e tampouco um exército permanente. Eram os chefes que resolviam disputas e selecionavam um conjunto de guerreiros em casos de conflito. Esse modelo espalhou-se por uma região mais alargada, ganhando o nome de “cacicado” e referindo-se a assentamentos que contavam com a existência de um centro regional; obras públicas; trabalho coletivo; trabalho agrícola; habitações de tamanhos diversos; uma rede comercial de produtos da terra e técnicas de sepultamento. Isso sem esquecer dos xamãs que cuidavam do trânsito entre mundos e naturezas. As regiões eram muitas, as estratificações variadas, mas o certo é que, diferentemente do que diziam os relatos seiscentistas, que descreviam esses povos como “sem F, sem L e sem R”, tratavam-se de povos com fé, com lei e com rei.

    Mais ainda; contavam com rituais e mitologias dos mais complexos. Na verdade, partilhavam de uma cosmologia sofisticada, que levou à criação de formas equilibradas de viver na floresta e em harmonia com a natureza; modelos, aliás, que vamos esquecendo com imensa facilidade.

    Gostaria, porém, de deixar essa conversa com nosso mundo ameríndio um pouco de lado, para voltar ao povo da mais recente heroína da Disney. Moana habitava nas ilhas do Pacífico, onde outras nações criaram uma rica mitologia.

    O resultado é que não só a heroína é forçada a deixar os limites seguros das rochas que protegem sua ilha; o espectador é também empurrado para um oceano maior e mais desconhecido

    O antropólogo Marshal Sahlins escreveu o livro “Ilhas de História” para lidar com essas verdadeiras filosofias da história criadas pelos povos nativos da região. “Ilhas”, porque são várias e interconectadas; “de história”, pois carregam narrativas acerca do tempo e da temporalidade diversas das nossas. Sahlins explora, dessa forma, o encontro e o desencontro desses povos com os britânicos e como, num primeiro momento, eles se aferraram às suas mitologias e incorporaram a história inglesa à sua própria cosmologia. O antropólogo descreve, por exemplo, o episódio que envolveu o assassinato do famoso Capitão Cook. O militar britânico foi recebido como um deus, na primeira vez em que esteve nas ilhas. Já na segunda, assim que pisou em terra firme, foi morto de maneira violenta.

    Explica o antropólogo, que a sina do líder inglês só pode ser explicada em “termos havaianos”. Ou seja, Cook foi inserido na história local como Lono, um deus da fertilização e por isso cultuado num primeiro momento; afinal vinha semear a terra. Na segunda vez, porém, “precisava” ser sacrificado, uma vez que só assim tornaria o solo novamente produtivo.

    Não há porque resumir essa obra (e recomendo vivamente a sua leitura). Melhor pensar que a história de Moana, com as simplificações necessárias, sustenta uma temática semelhante: a heroína “precisa” encontrar um deus ofendido para que ele volte a permitir que a terra de seus ancestrais seja fértil. Para tanto, a jovem enfrenta o pai e o oceano. O mesmo oceano que separava sua ilha; o mesmo mar que trouxe os ingleses, o capitalismo e o imperialismo.

    Seria pedir demais dos estúdios Disney que problematizasse a chegada do capitalismo nessas paragens. Mesmo assim, gostaria de brindar a coragem do filme. Na trama, tudo parece seguir a coerência “da ilha”: um local fechado e dominado por seus próprios parâmetros, desafios e receios. Não só a narrativa reproduz músicas, tatuagens e termos locais, como guarda a estrutura dos mitos. Além do mais, a heroína é uma mulher jovem; a divindade se expressa sob a forma de mulher, e a mentora, mais velha e sábia (a despeito de por vezes ser tomada como louca) é sua avó. Portanto, o parentesco é matrilinear e a descendência toda feminina. 

    A ambientação é também menos eurocêntrica, a despeito da menina ter um tipo físico bastante compatível com o modelo ocidental de beleza espelhado nas demais princesas: é bem-feita de corpo, bonita de rosto, têm cabelos longos. Só suas madeixas encaracoladas destoam um pouco da média. 

    De toda maneira, a lição foi bem aplicada. Afinal, com rara facilidade costumamos dizer que nós temos “história”,  eles, “mitos”. Que nós temos “ciência”, eles, “rituais”. Nós é que fazemos “arte”, eles, “artesanato”.

    “Moana” é um filme que reproduz a linguagem Disney, mas amplia o território simbólico das crianças (e dos adultos também). O resultado é que não só a heroína é forçada a deixar os limites seguros das rochas que protegem sua ilha; o espectador é também empurrado para um oceano maior e mais desconhecido. É impelido a alargar seus próprios limites geográficos e simbólicos – esse mapa de fronteiras rígidas que fomos educados a admirar – e encontra sentidos e emoção em outros povos pouco visitados por nosso conhecimento Ocidental.

    Levar a sério os grupos nativos que habitam há muito tempo essas terras invadidas pelos conquistadores – acontecimento que aprendemos (enganosamente) a chamar de “descobrimentos” –, implica pensar na história não só em nossos próprios termos, mas entender como existiram e existem outras maneiras de ser e estar nesse mundo coalhado de culturas, nações, costumes, mitologias e cosmologias.

    Conforme dizia o poeta Oswald de Andrade: “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”.

    PS: Caros leitores. Vou atrás da minha “ilha” e retorno em um mês. Até a volta.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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