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Coluna

Carnaval no toalete

01 de mar de 2017

    Vanusa e Alaíde conversam no banheiro feminino de um bar chique de descolados bem de vida a meia quadra da Paulista

    Histórias que me contam. Essa teria acontecido com a vizinha da prima da concunhada da ex-colega de faculdade da mãe da amiga de uma amiga - certo? Foi numa noite dessas do último carnaval. Os nomes são fictícios, até porque essa amiga que me contou a história não deu nome aos bois. Nem aos boys. E é possível que eu mesmo tenha ficcionado um pouco a história.

    Toalete das mulheres de um bar chique de descolados bem de vida a meia quadra da Paulista. Cheio de foliões desmobilizados de seus blocos.

    Às vistas da faxineira uniformizada que dá plantão ali, uma colombina choraminga diante do espelho horizontal que abarca as três pias. Duns quarenta anos, toda ela salpicada de confete e purpurina, com uma elegante máscara preta levantada sobre a testa, faz figura, a colombina, num tutu de bailarina que lhe deixa as longas e saradas pernas de Cid Charisse de fora, e com um sutiã meia-taça preto que lhe serve de top, exibindo com generosidade o bronzeado dos ombros, braços e o muito que se pode ver dos peitos possivelmente siliconados dentro do sutiã.

    Meio oscilante, a carnavalesca tem na mão direita um copo de uísque on the rocks do qual parece depender pra se haver com a gravidade terrestre.

    Lágrimas borram seus olhos carregados de pintura teatral. A colombina se recrimina diante da própria imagem no espelho, com uma voz de rouquidão etílica:

    "Você não presta, Vanusa! Você não vale nada. Você vai pro inferno, Vanusa!"

    A faxineira se intromete:

    "Num vai não, dona. Hoje é carnaval."

    A faxineira vai até o espelho, fica lado a lado com Vanusa, que, depois de mais um golão no uísque, se explica, mirando o reflexo da outra:

    "O carnaval é que é o inferno. Só pecadores querendo pecar o tempo todo."

    "Nossa! Onde isso, dona?"

    "Na rua, no bloco dos Alpinistas do Asfalto, que eu saí hoje. O lema do bloco é: 'Só o cume interessa...'"

    "Acuma?!"

    "É um bloco dos jardins. Disseram que o Doria ia participar. Mas não vi Doria nenhum."

    "Ele devia tá ocupado varrendo as ruas sujas do carnaval, vestido de gari," diz a faxineira, com um possível acento irônico na voz.

    Vanusa passa o copo de uísque da mão direita pra esquerda e estica o braço pra cumprimentar a faxineira:

    "Eu sou a Vanusa. Você é a...?"

    "Alaíde," se apresenta a faxineira, apertando a mão boba de bêbada da outra.

    "Acho que já te vi aqui, Alaíde."

    "Pode ser. Muita gente entra e sai aqui. Mas a senhora não vem sempre, vem?"

    "Vim só uma vez. Aqui é território do maridão. Ele não gosta que eu apareça nos mocós que ele frequenta com os amigos. Vim hoje porque ele tá viajando com os meninos."

    "Enquanto a senhora pula o carná em Sampa."

    "É... enquanto eu pulo e trepo o carná. Ops..."

    "Entendi," diz Alaíde, segurando um risinho.

    "Por isso que eu vou pro inferno, Alaíde. Vou arder nas chamas por toda a eternidade," se lamenta Vanusa, baixando a máscara sobre os olhos, antes de completar, mirando-se no espelho:

    "Pecadora... traidora... vagabunda... Homem tão bom, o maridão... carinhoso... bem-sucedido..."

    Alaíde se acende toda ouvindo aquela última palavra:

    "Montado na grana, é?"

    Vanusa prossegue:

    "E velho... detonado que só ele... baixinho... feioso... orelha de abano... o nariz parece um tomate atropelado... barrigudo... sedentário..."

    "É ruim, hein?!", solta Alaíde, rindo.

    "Você não presta, Vanusa...", continua a se recriminar a mascarada.

    Alaíde dá uma conferida no corpão da outra. E comenta:

    "Se eu fosse hômi, eu até que ia achar a senhora bem prestável..."

    Vanusa, coquete, ajeita o cabelo frente ao espelho:

    "Jura, fofa? Tô caidaça..."

    "Tá não. Só mamadaça."

    "Mamadaça e adúltera," emenda Vanusa. "Vou arder pra todo o sempre na churrasqueira de Belzebu."

    "Qué um conselho, dona Vanessa?"

    "Vanusa."

    "Então, dona Vanusa. Meu conselho é a senhora não ficar aí falando 'você não presta' pro espelho. O espelho pode se ofender. E a senhora sabe que espelho, quando pega bronca da gente, é um perigo. Principalmente pra mulher."

    "Verdade," concorda Vanusa. "O desgraçado joga a tua auto-estima lá embaixo."

    Alaíde passa uma flanelinha no espelho, bem em cima do reflexo de Vanusa.

    "Isso... tudo que eu quero é que apaguem a minha imagem... me apaguem toda, que eu tô me pelando de culpa..."

    "Culpa no cartório," diz Alaíde, por dizer.

    "No cartório e no apartamento dum legionário romano que eu conheci na sexta, e no motel da Raposo que eu fui com o Mandrake do sábado, e no banco de trás do jipe do Tupi-Guarani do domingo... Sem contar o maluco com peruca do Donald Trump que eu peguei hoje e tá me esperando lá na mesa. Com esse nem sei ainda pra onde eu vou. Talvez pra Casa Branca..."

    Ouve-se uma sinfonia de gemidos e borborigmas intestinais vindo detrás da porta fechada de um dos boxes.

    Vanusa e Alaíde se olham. Provavelmente a conversa está sendo ouvida pela pessoa dentro do box, da qual não tinham se dado conta.

    Som de descarga. Logo abre-se a porta do box e dele emerge uma jovem pirata punkiforme, crivada de piercings, ainda fechando o cinto tacheado do seu mini-shortinho jeans em frangalhos, deixando à mostra um par de pernas muito brancas que servem de suporte pra algumas tatuagens indecifráveis. Nos pés e na cabeça, botas e chapelão de pirata. E um tapa-olho levantado acima da sobrancelha.

    A figurinha se posta ao lado de Vanusa, numa pia diante do mesmo espelho horizontal que a colombina a seu lado usa de muro das lamentações. Sem nem pensar em lavar as mãos, como autêntica pirata, ela apenas abaixa o tapa olho, ajeita o chapéu de pirata que poderia servir também a um Napoleão, e se dirige ao reflexo da colombina mascarada:

    "Desculpaí, mas ouvi tudo."

    "Nós também te ouvimos," diz Vanusa. "No fundo, a gente tava fazendo a mesma coisa: botando a sujeira pra fora."

    "Então, aproveitando a coincidência, aceite outro conselho, esse da minha parte, Vanessa."

    "Vanusa" 

    "Vanusa. Lindo nome pruma colombina."

    "Obrigada."

    "Então, o conselho é esse: relaxa, Vanusa. A mulher moderna tem que ter mais de um cara mesmo. Pelo menos três: um pra amar, outro pra pagar as contas e um terceiro pra farrear. O modelo três-em-um tá em falta na praça, é bom se conformar. E acho que nem existe mais."

    "Podis crê...", exala uma Alaíde algo tristonha.

    "O das contas a pagar você já fisgou," continua a pirata. "E, pelo que acabei de ouvir, o da farra também."

    "O, não. Os," corrige Alaíde, atentíssima à conversa.

    "Pois é", diz a pirata dos sete mares e das sete privadas. "Só te falta um grande amor, Vanusa. Enquanto não pinta, aproveita o carná sem culpa."

    A capitã-gancho já tá de saída, quando, num bote certeiro, volta, sequestra o copo de uísque da mão da colombina e mata num golaço a bebida que restava lá dentro.

    Daí, já com um pé na porta, dispara a pérola de sabedoria libertina:

    "Querem saber? Em matéria de sexo carnavalesco só vale uma regra: usa e abusa. Fui."

    Repentina e serpentinamente aprumada do pileque e da depressão, Vanusa levanta a máscara de novo e dirige ao seu reflexo no espelho um olhar incendiado das mais sapecas intenções, dizendo:

    "Te amo, vagaba!"

    É quando Alaíde, toda íntima e cúmplice da bela coroa em crise, praticamente sussurra em seu ouvido:

    "É isso aí: usa e abusa, Vanusa!"

    "Yeah!", resume a colombina, recolocando a máscara e tentando, arduamente tentando lembrar se hoje é segunda ou terça.

     

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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