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Coluna

Boys’ night

    É sempre muito bem-vinda qualquer chance de respirar um pouco fora do aluvião de contas a pagar e das incertezas financeiras acerca do famoso dia de amanhã, em meio a uma fila de projetos em eterno stand-by

    Não sei você, mas eu entrei em 2017 com o pé direito. O problema é que, até agora, não consegui botar o pé esquerdo no chão. Ando aos pulos como um saci atordoado, mimetizando assim os passos da nossa claudicante economia, antes nas mãos de larápios incompetentes de esquerda e agora sob a alta direção de salafrários de direita dando barretadas aos grandes capitalistas e as costas aos trabalhadores. Business as usual - negócios, como sempre -, máxima que os mafiosos do cinema gostam de repetir antes de passar fogo em seus desafetos. Na vida real acho que eles apenas apertam o gatilho sem repetir máxima nenhuma.

    Nossa economia, que eu digo, é a economia do país e a minha pessoal, esta em alarmante dependência daquela. Vai daí, que é sempre muito bem-vinda qualquer chance de respirar um pouco fora do aluvião de contas a pagar e das incertezas financeiras acerca do famoso dia de amanhã, em meio a uma fila de projetos em eterno stand-by.

    Falando em stand-by, tem dia que a sensação de estar no mato sem cachorro é tamanha que a minha vontade é sair entoando pelas ruas congestionadas e ciclovias vazias da cidade o refrão do famoso rock-balada que todo mundo gravou nos States desde que B.B. King a imortalizou nos anos 60 do século passado: "So darling, darling, stand by me, oh, stand by me..."

    É isso aí, querida: fique pertinho de mim.

    Esse fantástico hino do carentão pop clamando por companhia num mundo que desmorona à sua volta era a trilha sonora da minha cabeça enquanto eu caminhava ontem mesmo em direção à casa do meu querido amigo, o professor Antônio Pedro Tota, autor de clássicos da historiografia brasileira moderna, como "O imperialismo sedutor" e "O amigo americano" (ambos publicados pela Companhia das Letras), sobre as investidas culturais e econômicas do império gringo sobre o Brasil nos anos 1940/50, capitaneadas pela tão sedutora quão polêmica figura do mítico arquimiliardário Nelson Rockfeller.

    Ocorre que, além de intelectual da pesada, Totinha, como é chamado pelos amigos, é um cozinheiro de mão cheia, habilidade que exibe aos mais íntimos em jantares opíparos regados a bons vinhos e poderosos destilados. Não sei com que frequência ele promove esses conclaves, mas posso afirmar que uma vez a cada dois meses, em média, o Tota reúne um seleto grupinho de três gatos pingados, além dele próprio, para o que ele chama de "boys’ night", onde se come do bão e do mió, entre conversas multidisciplinares meio alucinadas e essencialmente galhofeiras que provocam gargalhadas seriais capazes de abalar os alicerces do prédio onde mora em Pinheiros. Como tenho a grande sorte de me ver incluso entre os happy few das boys’ nights, era para um desses meetings que eu estava me dirigindo, já de alma bem mais leve, só de antecipar as delícias da companhia, do rango e das superiores biritas oferecidas pelo talentoso dublê de scholar e master chef.

    (Stand by, boys’ night, meeting, scholar, master chef, happy few... Daqui a pouco vou acabar escrevendo a coluna direto em inglês, com algumas expressõezinhas em português pra dar uma cor local...)

    O fato é que, quando o Tota lança seu apelo gastroconvivial, eu, mais o jornalista, ambientalista e cronista Matthew Shirts, também conhecido como Mateus, e o artista plástico, designer gráfico e ex-baterista de banda de rock pesado, Marcão Sismoto, não tardamos em apertar a campainha do apê dele, já captando desde o corredor os aliciantes aromas que emanam do panelório em seu fogão. No que a porta se abre, começa a vertiginosa sessão de piadas, trocadilhos, reflexões aleatórias sobre tudo e qualquer coisa, e a narrativa de "causos" saborosos, num vale-tudo mental que, ao cabo de umas quatro horas de intenso convívio, nos deixa a todos exaustos, bêbados e sumamente felizes.

    Fazendo jus ao nome do evento, mulheres não costumam ser convidadas pras boys’ nights, embora uma ou outra acabe aparecendo por lá, muito raramente. E não por nenhuma postura misógina da nossa parte, mas só porque uma boys’ night é uma boys’ night é uma boys’ night, do mesmo jeito que uma rosa é uma rosa é rosa, segundo a poeta Gertrude Stein, de quem só sei citar esse verso, a exemplo do resto da humanidade. Se mulheres aparecessem com muita frequência nas boys’ nights, boys’ nights elas já não seriam, ora pois. Questão de lógica, mais do que de gênero.

    A boys’ night de ontem, por exemplo, foi memorável, em todos os sentidos, o que não significa que eu tenha memorizado muita coisa do que se disse ali, entre taças de tinto e uns "cigarrinhos de artista" que só não fariam nosso antidiluviano ministro da Justiça arrancar os cabelos porque ele já não os têm. Mesmo assim, ao acordar hoje, notei que alguns neurônios ainda se esbaldavam com a lembrança de pelo menos um "causo" que veio à baila no nosso conclave homoternurista. Tratava-se de um episódio protagonizado pela figura mais divertida da nossa curriola, o pantagruélico Marcão, um dos meus tipos inesquecíveis preferidos, com seu porte de mosqueteiro aposentado e seu eterno rabo-de-cavalo pós-hippie.

    O causo é o següinte. Há muitos anos, o Marcão, tipo hiponga "ôrra-meu" da ZL (nasceu e passou a juventude no Ipiranga), trabalhava de designer gráfico numa grande editora de livros didáticos. Um belo dia cai em suas mãos uma encomenda muito especial: redesenhar uma revista de uma ordem religiosa católica centrada na veneração à Virgem Maria. A ideia era modernizar o bagulho, de concepção visual pra lá de antiquada.

    De família católica fervorosa, Marcão se lançou com garra e fé no projeto. Quando terminou, uma pequena comissão de padres mariólatras foi até a editora para ver o "boneco" da revista renovada. Boneco é o nome que os designers dão à espécie de maquete de um projeto gráfico. O layout tinha ficado um primor de modernidade, leve, arejado, com bem calculado equilíbrio entre imagens e textos, sem economizar nos espaços em branco, cores e fontes chamativas.

    Ansioso pela recepção dos seus clientes de batina, Marcão começou apresentando seu trabalho página a página, explicando os conceitos gráficos envolvidos ali com alto senso didático. Até que chegou nas duas páginas centrais da revista, abertas de par em par sobre a mesa. Tudo em branco. Nenhuma linha, nenhum texto ilustrativo, imagem, nada. O clérigo mais graduado da comissão perguntou intrigado:

    "E aqui, Marcão? O que vai ter nesse espação em branco?"

    Essa era a bola que o Marcão esperava ser levantada pelos homens de preto. Inflando o peito, cheio de orgulho profissional, imaginando que ia causar a mais entusiástica impressão nos padres, no bispo, no cardeal e, quiçá, no próprio papa, quando a revista chegasse no Vaticano, meu amigo designer soltou:

    "Aqui, padre, aqui eu vou tacar uma puuuta Nossa Senhora!"

    Não pegou bem. Os padres ficaram lívidos. Nem quiseram ver o resto do boneco tão cuidadosamente elaborado pelo Marcão. A reunião miou. O projeto do Marcão também. Meu amigo descobriu que, por algum motivo, os padres preferem não associar a imagem da mãe de JC àquele qualificativo coloquial bem pouco, digamos, litúrgico.

    Tota, Mateus e eu literalmente rolamos de rir com essa história. Uma puuuta história, de fato. Tão boa que tomamos a única providência cabível naquele lugar, naquela hora: abrimos mais uma garrafa dum malbec argentino.

    E tim-tim!

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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