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Coluna

As plantas das nossas avós

30 de mai de 2017

    Neste período de grandes polarizações políticas, retrocessos em diversos setores, aumento de todos os índices possíveis de desigualdades sociais, temos a responsabilidade de manter nossas plantas vivas

    Não sou nenhuma especialista em plantas. Não busco, neste texto, tratar de uma análise científica sobre elas. Aqui, descreverei uma breve e recente observação sobre vitalidade e fé. Falo do lugar de quem vive a vida se deslocando no tempo que escorre entre os sopros do presente e as grandes conexões que o passado nos traz.  

    Dia desses conversando com um amigo, o Mateus, sobre as plantas das casas das nossas avós, percebemos, em algum instante em que a conversa batia tão longe, que, na verdade, falávamos de vida e fé, sobre como aprendemos a ter fé, que não necessariamente tem a ver com uma religião. Apenas aprender a ter fé, ter os primeiros contatos com ela. 

    Por sermos ambos criados por avós, ele materna e eu paterna, que amam plantas, as noções de conexões energéticas e respeito pela natureza sempre foram aprendizados transmitidos por meio de compostagem, saber a hora de regar, quando uma vida não cabe mais num vaso de plástico e os avisos que a cor das folhas nos dão que podem ser muitas coisas, inclusive a necessidade da luz solar. E é aí que a gente aprende que qualquer ser vivo precisa de luz para continuar respirando. É no cultivo diário das plantas que aprendemos a ter carinho com qualquer ser vivo, sem papo “gratiluz”. Nesses tempos tão estranhos em que vivemos, até a palavra “gratidão” vira coisa da classe média branca brasileira, quando, na verdade, o que deveria ser recebido é o seu verdadeiro significado. Essa discussão fica para outro dia.

    Quando pequena, minha avó me ensinava a pingar um pouquinho de leite num copo de água e umedecer, com um tecido feito de algodão, as folhas das plantas que moravam dentro de casa. Adorava essa função nos finais de semana, principalmente porque não podia desperdiçar nenhuma gota da composição e a saída era gastar o que sobrou nas plantas que tinham na casa da nossa vizinha Cida, que era onde, além de fortalecer esse exercício de sensibilidade, eu aumentava o meu repertório da banda Raça Negra. Só quem viveu musicalmente, de verdade e intensamente, o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000 sabe a emoção com que as nossas tias cantavam, faxinando as suas casas nos finais de semana, com um copo de cerveja numa mão e a vassoura na outra, a música “Preciso ter alguém” ou “Correnteza de emoção”. Silêncio pelas dores grudadas no coração das nossas tias que nem mesmo os produtos mais eficientes de limpeza conseguiam remover.

    Mas o tempo passa para todo mundo e perceber isso por meio das relações com as plantas é interessante. Pela primeira vez estou acompanhando uma pessoa envelhecer de verdade, estou vendo a primeira crise política (em geral) do nosso país, sou a primeira pessoa da minha família materna a entrar na universidade. São muitos ineditismos experimentados de uma só vez. O envelhecimento da minha avó, dona Zilda, percebi não pelas dores que ela carrega em seu corpo desde que me entendo por gente, mas porque ela não molha mais as plantas com tanta frequência de antes, porque ela não sabe mais dizer, ao certo, o nome de todas as plantas que existem no jardim dela. Curiosamente, elas continuam bonitas, vivas e brilhantes.

    No dia das mães, comprei dois ramos de arruda e os coloquei num vaso de vidro sobre a mesa do almoço comemorativo. Agora, no final do mês, ao chegar na casa de minha avó, a muda de arruda que comprei no início do mês estava num vaso com terra adubada, tão bonita e viva quanto no dia em que comprei os galhos frescos na feira. Sem raiz, com corte seco no caule: minha avó conseguiu resgatar luz onde a vida parecia durar apenas alguns segundos.

    Observei aquilo e perguntei: “mas como é que a senhora conseguiu plantar a arruda se ela estava sem raiz?” Ela riu como quem diz: “essas coisas não dão para dizer assim”. Ainda que o envelhecimento dela afaste o seu contato com as plantas, minha avó não perdeu a fé nas vidas que ela cultivou todo esse tempo. Mesmo com as suas dores, mesmo que ela tenha me dito, pela primeira vez, que a hora dela está chegando, ela não cansa de permanecer conectada com a energia que mantém viva a sua fé, o seu corpo e suas plantas, que são históricas. Elas estão espalhadas nas bases de onde minha avó vive, como se fossem, mesmo, o que a protege. Há uma magia ali que, talvez, os meus breves 24 anos de vida não me permitam entender.

    Curiosamente, como já disse, essas plantas não morrem, embora quando pequena, foi a minha avó que ensinou que uma planta só vive se a gente consegue estabelecer uma relação sincera com ela. Nesse final de semana, vi um vídeo com a Pabllo Vittar falando sobre o encontro das nossas verdades. Ela diz: “quando você faz uma arte, você tem de passar verdades para as pessoas te verem transparentes, se aproximarem e de alguma forma se conectarem com o que você está fazendo”.

     

    Talvez tenha sido isso que minha avó quis me dizer quando me ensinou a cuidar das plantas. E neste período de grandes polarizações políticas, retrocessos em diversos setores, aumento de todos os índices possíveis de desigualdades sociais, temos a responsabilidade de manter nossas plantas vivas. Como diz a comunicadora social Silvana Bahia: “precisamos plantar mais sementes e parar de quebrar galhos”.

    Apesar de tudo que está acontecendo, sou mais otimista com a nossa situação política e acho que amanhã vai ser outro dia, assim como a minha avó mantém a sua fé mesmo vivendo o seu processo de envelhecimento e desconexão com suas plantas. Para o Brasil, optei por ouvir uma passagem dita pelo músico e compositor baiano Mateus Aleluia, em que ele, numa entrevista para a Rádio Roquete Pinto no início deste ano, responde da seguinte maneira ao pessimismo do apresentador em relação à situação política do nosso país:

    “A razão vai se impor, acredite. A razão vai se impor. De vez em quando a raiz se cansa de ficar somente na terra. Ela sai e vem cobrar o seu tributo. Então as pessoas têm que acreditar que a raiz é que dá o caule, o caule é que dá os galhos e os galhos é que dão as folhas e daí vêm os frutos e depois os frutos amadurecem, caem. E de dentro do fruto caído apodrece e saem aquelas sementes ali dentro, são absorvidas por toda aquela terra porque a chuva vem e cria aquela lama, vem a amálgama da vida traduzida naquela terra toda misturada. E daquelas sementinhas nascem novas árvores, porque daquelas sementinhas todas brotam novas raízes, de maneira que ninguém vai conseguir parar o que a natureza terminou porque a natureza tem leis. O homem é que tem moral e designações”. 

    Acredite: a razão vai se impor.

    Obrigada por ter nos iluminado durante todos esses 86 anos, Mãe Beata de Iemanjá. Obrigada!

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    Dicas da Yasmin

    A Nátaly Neri lançou ontem em seu canal no YouTube um vídeo importantíssimo sobre as questões da Cracolândia em São Paulo e os últimos acontecimentos. Não deixe de assistir!

    A musa, atriz, cantora, compositora, intérprete, maravilhosona Zezé Motta está completando 50 anos de cinema. Para comemorar, vai ter uma mostra em Recife, Pernambuco, de 6 a 17 de junho, na Caixa Cultural. Uma excelente oportunidade para assistir a obra cinematográfica de uma das atrizes mais importantes do cinema brasileiro. 

    O Olabi Makerspace lançou recentemente o PretaLab , uma iniciativa que acredita no protagonismo das meninas e mulheres negras e indígenas nos campos da inovação e tecnologia como forma de reduzir as desigualdades sociais do país. Elas querem saber: quem são as mulheres negras e indígenas da tecnologia?

    Tá rolando, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o Festival Mate com Angu de Cinema Popular, que busca levar a magia e a reflexão cinematográfica para o cotidiano da vida na Baixada. Até o dia 31 deste mês, estão rolando projeções de filmes em praça pública, debates sobre a linguagem audiovisual e seus modos de produção.

    Começa hoje o cine circuito Capa Preta, evento que acontecerá mensalmente no Capacete, Rio de Janeiro, e tem como principal objetivo trazer o protagonismo das mulheres negras no audiovisual como diretora, roteirista, atriz, produtora, etc. Na sua estreia, rola exibição do filme “A negra de...” (1966), do diretor senegalês Ousamane Sembene, seguida de debate com Sil Bahia, diretora de projetos do Olabi e colaboradora da plataforma Afroflix, e Janaína Oliveira, idealizadora e coordenadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro (o Ficine).

    Até dia 31 de maio, no Teatro Poeira, Rio de Janeiro, a companhia Teatro de Afeto está em cartaz com o espetáculo “Pineal - ritual cênico”. A entrada é uma contribuição voluntária.

    Por falar em teatro, o coletivo Bonobando com Jongo da Serrinha e Cordão do Boitatá estão em cartaz com o espetáculo “Cidade correria” no Teatro Ipanema até 22 de junho.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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