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Coluna

Algumas coisas que aprendemos com o festival de cinema de Brasília

02 de out de 2017

    Realizadores negros precisam ter suas produções incentivadas. Visibilidade, apenas, não vai mudar a estrutura

    O Brasil está uma loucura total. Muitas crises, muita morte, muitos cortes, muitas coisas que nos entristecem. Essas são algumas das frases que ouvimos recorrentemente pelas esquinas da vida. Não paramos de lamentar: no subir de um elevador, de uma escada rolante, de um braço dolorido que segura um ferro num trem lotado às 6 horas da manhã. Estamos num transe coletivo de desabafo e desespero de não conseguir prever muito bem o que vai ser daqui para frente. Às vezes, tenho a sensação de estarmos todos na cena final do “Deus e o diabo na terra do sol” (1964), filme de Glauber Rocha.

     

    Correndo para algum lugar, sem saber muito bem para onde. Mas imaginar esse lugar é preciso, até mesmo para refazer rotas que não deram tão certo.

    Há um grito que ecoa: “Fora, Temer”. Uma grande parcela da sociedade esbraveja essa frase que marca um tempo político no país muito importante: há um Brasil que caminha para frente e um outro que caminha para trás, simultaneamente. Tempo em que uma parcela da população, vista e narrada como à margem, está disputando uma centralidade política que pode transportar o país para um lugar menos desigual.

    Mais do que um grito de insatisfação, o “Fora, Temer” traz para nós um elemento que incomoda, mas que é fundamental no exercício básico do que chamamos de democracia: a conversa entre pessoas com repertórios distintos. E, hoje, o que a gente vê pelas ruas e redes são discussões críticas sobre as questões racial e de gênero.

    Um episódio que marcou a história do cinema brasileiro aconteceu algumas semanas atrás.  No 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, realizadores negros levaram oito dos prêmios da mostra competitiva de longa e curta-metragem. Isso causou um rebuliço, muita gente não curtiu isso, não.

    Eu acho muito engraçado. Tem um pessoal do cinema, que se diz aliado, celebra, fala até que adora as nossas movimentações, os nossos filmes, a nova cena surgindo de novos cineastas brasileiros, no caso, os que são negros e de periferias brasileiras.

    Aí essa cena vai e ganha prêmios no Festival de Brasília. E aí esse pessoal não gosta, esculacha o festival, os curadores, os jurados, começa a fazer piadinha. Quer dizer: vocês são maravilhosos. Mas quando a gente perde, vocês deixam de ser. Eu acho isso muito engraçado porque muitos desses gostam de gritar “Fora, Temer” no tapete vermelho, mas não gostam de ver preto ganhando prêmios importantes.

    “Respeite quem pode chegar onde a gente chegou. Também somos linha de frente de toda essa história.” No documentário “Divas negras do cinema”, produzido por Enugbarijô Comunicações em 1989 com direção de Vik Birckbeck e Ras Adauto, Zezé Motta diz: “Comecei a cobrar, cada vez que me convidavam, o porquê que só chamavam eu, Ruth de Souza, Léa Garcia, o Pitanga, Milton Gonçalves, Grande Otelo e tal. Na época, era só nós mesmo. Então eu disse assim: onde é que estão os atores negros?”

     

    Decidi voltar a essa história porque a Zezé foi uma das criadoras do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro, o Cidan, fundado em 1984 com o objetivo de facilitar a inserção de atores afrodescendentes no mercado. Antes disso, existiu uma geração de cineastas negros que foram pioneiros ao dirigir seus próprios filmes, nos anos 1970. São eles: Adelia Sampaio, Odilon Lopez, Zózimo  Bulbul, Waldir Onofre e Antonio Pitanga.

    Gosto da história porque ela ajuda a pensar o presente e acho mesmo que esse marco no aniversário de 50 anos do festival é, também, consequência dos movimentos negros que se organizaram estrategicamente, criando projetos e espaços de produção e disseminação da produção afrobrasileira, como é o caso do Centro Afrocarioca de Cinema e do Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe, criado pelo ator e cineasta Zózimo Bulbul. Já mais recentemente foi criada, em 2016, a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro, a Apan.

    A curadora Diane Lima escreve em seu artigo “Diálogos Ausentes e a Curadoria como Ferramenta de Invisibilização das Práticas Artísticas Contemporâneas Afro-Brasileiras”:

    "Um dos primeiros pontos aos quais nos dedicamos foi a problematização do termo “curador”, que para mim ganhou distintas qualidades quando pôde ser entendido como aquele que lança mão de diferentes vozes ou narrativas sensíveis para montar uma totalidade de discurso. Por meio da interpretação e do agrupamento de significados simbólicos presentes nos artefatos mais diversos, o curador é aquele que propõe uma nova lente ao situar tais dispositivos em um espaço-tempo e em uma discussão histórico-social. O termo “curador” deriva do latim curare; ele é, portanto, aquele que cura, cuida, zela por alguma coisa. Mas essa ideia encontra suas primeiras implicações no momento em que levamos em consideração as relações de poder investidas à figura do curador e dois conceitos que são inseparáveis quando se problematiza a invisibilidade e/ou criminalização da produção cultural dos negros no Brasil: racismo estrutural e epistemicídio."

    Ainda nesse ponto sobre curadoria, como um espaço estratégico, em 2016, o Festival de Documentários de Cachoeira, o Cachoeira doc, sob curadoria de Amaranta César, realizou uma “Vivência em curadoria da perspectiva das mulheres”. O encontro teve presença de mulheres curadoras de festivais de várias regiões do país justamente para repensar e dialogar sobre as ausências de certas produções nos festivais de cinema.

    Dizia o texto do programa: "Quando pensamos que a existência histórica dos filmes é uma construção da crítica e das instituições curatoriais, instâncias majoritariamente ocupadas por homens, como não suspeitar que a aparente frágil presença de mulheres no cinema brasileiro não se deve também às perspectivas masculinas que estariam imiscuídas aos critérios de valoração dos filmes? Nos perguntamos, então, em que medida a atuação minoritária das mulheres na curadoria e na crítica condiciona os parâmetros de legitimação dos filmes em vigor, bem como a notável negligência crítica em relação às mulheres do/no cinema brasileiro. Assim, a partir da consideração de que a curadoria, instância fundamental para a inscrição dos filmes na História dos cinemas, é uma ação política e perspectivada, a Vivência em curadoria da perspectiva das mulheres levanta e tenta enfrentar a questão: o que podem as mulheres para a legitimação e escritura histórica dos filmes de mulheres e de suas trajetórias?"

    Outra ação que contribuiu, de maneira muito potente, para a centralidade desse debate nos festivais foi a pesquisa “A cara do cinema nacional”, feita por Verônica Toste e Marcia Rangel Candido, do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa, o Gemaa, da Uerj, que revela que, em uma década de cinema nacional, entre os filmes de ficção que foram distribuídos nos cinemas, não houve nenhuma mulher negra como roteirista e diretora.

    O Fórum Itinerante de Cinema Negro, o Ficine, criado pela pesquisadora e curadora Janaina Oliveira, também deve ser destacado aqui por criar a mostra “Por um cinema negro no feminino”, que possibilitou não só a circulação de filmes escritos e dirigidos por mulheres negras brasileiras dentro e fora do país, como também tornou possível o acesso e a citação desses nomes e obras dentro de uma filmografia nacional legitimada como “oficial”.

    Escolho não comentar sobre os debates que deixaram o festival quente. Eu não estava lá. Mas vimos que o debate sobre lugar de fala incomodou bastante, em especial àqueles que sempre puderam falar. São pessoas que, em grande parte, não estão interessadas em fazer uma reflexão mais aprofundada sobre o que isso pode nos ensinar. Pessoas, no plural mesmo. Perderemos todos se não estivermos dispostos a entender, de fato, as nuances que essa discussão sobre lugar de fala coloca. Mais do que uma questão polêmica, trata-se de uma questão estética, que ajuda a pensar um cinema que não mais retrata o outro, mas que constrói junto.

    É inegável que as novidades estão surgindo. Mas só acredito em mudança com presença. Nesse sentido, acho que esse marco importante e fundamental para a cinematografia brasileira assinada por pessoas negras não pode parar por aí. O movimento deve continuar, permanecer e descer para outros estados e alcançar outros países. O foco em não mais ser a cereja do bolo é fundamental. Realizadores negros precisam ter suas produções incentivadas. Visibilidade, apenas, não vai mudar a estrutura.

    Às vezes, transformamos nossos filmes em ferramentas políticas porque não há outra saída a não ser a de produzir e pautar presenças negras e indígenas nos espaços de cinema. Tem que lutar. No mais, é comemorar mesmo! Durante muito tempo os artistas negros deste país não puderam gritar “é gol do Brasil”.

     

    Nesse vídeo emocionante, Valdineia Soriano, atriz vencedora do Candango de melhor atriz, comenta sobre a primeira premiação em seus 30 anos de carreira no teatro e no cinema. Eu, que tenho menos tempo na Terra do que a Valdineia tem de carreira, comemoro junto! Vendo os desdobramentos do festival, os textos, e tudo, só consigo lembrar daquele diálogo do filme do Spike Lee, o “Faça a coisa certa”: “ Mookie, continue preto”.

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    Dicas da Yasmin

    Para saber mais sobre o Festival de Brasília:

    Texto de Glenda Nicácio, diretora do Café com Canela, que venceu o prêmio de melhor filme pelo júri popular e melhor atriz.

    Quem foi que falou que eu não sou um moleque atrevido? Juliano Gomes, para a Cinética.

    Juliana Domingos de Lima, para o Nexo.

    Carol Almeida, para a Continente.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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